Jovens arquitetos alertam para vazios urbanos e fazem apelo pelo Centro Histórico

O LIVRE quis saber o que jovens profissionais esperam e projetam para a Cuiabá dos 300 anos

Da esqueda para a direita, Ana Beatriz, Lívia Xavier e Vinícius Além

A cada aniversário, Cuiabá é presenteada com uma nova leva de arquitetos e urbanistas que vêm dedicando seus anos a estudar caminhos alternativos para o desenvolvimento da cidade. O que pensa, portanto, a geração que chega ao mercado disposta a projetar uma capital tricentenária?

Os vazios urbanos e a necessidade de uma cidade mais acessível e acolhedora na organização dos espaços aparecem para os jovens como alguns dos principais desafios a serem superados pela Cuiabá 300 anos.

O Centro Histórico, cenário de episódios que refletem o abandono, como o desmoronamento de tradicionais casarões, é identificado pelos novos profissionais como uma potencialidade. O apelo pela valorização das manifestações culturais e da identidade do povo cuiabano também é uma necessidade que ganha destaque nos comentários dos novos arquitetos quando o assunto é revitalizar a região central.

O LIVRE conversou com alguns estudantes e profissionais recém-formados sobre como eles veem Cuiabá. Confira os relatos:

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Vazios urbanos 

Natural de Dourados (MS) e recém-formado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Vinícius Além, 23, identifica uma Cuiabá em novo ciclo de crescimento e emergência. Para ele, é nesse contexto que os principais desafios se revelam:

“A expansão demasiada da cidade também traz problemáticas se considerarmos que as populações mais pobres estão sendo cada vez mais afastadas dos centros, o que priva as periferias do direito à cidade. Há uma valorização muito maior das áreas centrais, que, no final das contas, é desenvolvida com investimento do poder público”, explica.

Nesta perspectiva de ampliação da cidade, a cuiabana Lívia Xavier, 24, também percebe uma alta incidência de vazios urbanos que se intensificam diante da dificuldade de mobilidade urbana da Capital:

“As pessoas que trabalham no centro, por exemplo, têm que se deslocar por muito tempo. Nossa mobilidade ainda é muito complicada. Tem muito carro para pouca gente e a má execução de algumas obras inviabilizaram a ocupação desses vazios”, explica a estudante do 4º ano de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Cuiabá (Unic).

Especulação imobiliária

Ana Beatriz Viñe, 23, recém-formada pela Universidade de Várzea Grande (Univag), acredita que a segregação socioespacial seja consequência de um agravamento da supervalorização de determinadas regiões da cidade, em detrimento de políticas públicas de combate às desigualdades.

“Eu vejo Cuiabá com um grande potencial de desenvolvimento. Mas a cidade ainda é marcada por muitos vazios urbanos que, com a falta de políticas públicas, deixam o espaço vulnerável à especulação imobiliária, principalmente em áreas nobres da cidade. Acredito que existam instrumentos para coibir essa prática que não são aplicadas por interesses pessoais”, afirma a jovem, que também é cuiabana.

Como solução, ao contrário do que é posto em prática de acordo com Beatriz, Lívia defende políticas de ocupação social de imóveis abandonados, inclusive aqueles tombados como patrimônio. Para ela, reforma urbana é uma pauta gritante, mas invisibilizada.

“Por causa do preço do metro quadrado, temos muitas casas vazias que poderiam estar sendo úteis com moradia e comércio. Alugueis a valores muito altos inacessíveis e que só crescem, o que não faz sentidos porque são imóveis desocupados. Defendo que eles se tornem habitações sociais para quem usa 2/3 do que recebe em um mês para pagar aluguel, ou 1/4 do dia pra ir e voltar do trabalho para casa”, explica a jovem.

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Calor humano

O povo cuiabano e sua afetividade são para Lívia Xavier potencialidades que se destacam em diferentes espaços da cidade. A jovem começou os estudos em Engenharia Florestal pensando em trabalhar com arborização urbana, mas encontrou na Arquitetura e Urbanismo, uma área para se pensar a questão de forma mais ampla.

“Cuiabá é maravilhosa. Tem um solo que deixa as árvores crescerem em frestas, ipês que pintam a cidade quando estão floridos, e tem o melhor povo do mundo. Me sinto muito em casa não só por ser a minha cidade natal, mas as pessoas se sentem muito acolhidas aqui. Mesmo com essa tendência e distanciamento na cidade, Cuiabá é como um ponto fora da curva.

Desde que chegou na cidade há 5 anos, Vinicius Além, entusiasta de antiguidades, relata ter sido impactado pela estética histórica da cidade que se mistura à dinâmica movimentada.

“A intensidade do centro, a sutileza e harmonia de como se dá a conversa entre os edifícios, construídos em tempos totalmente distintos. A frenética noite cuiabana da praça da mandioca ou da praça popular que convida à curtição desmedida. O cheiro de pequi das tardes em que percorri a avenida da Prainha e a beleza arrebatadora das várias paisagens urbanas que descobria todo dia durante meu costumeiro trajeto até a faculdade de arquitetura”, refletiu.

Cidade para as pessoas

Para os jovens arquitetos, o processo de expansão da cidade deve considerar, antes de tudo, o bem-estar das pessoas que a ocupam. Isso passa, segundo eles, pelo investimento em acessibilidade, segurança e lazer.

Não se faz arquitetura para Cuiabá, copiamos coisas já obsoletas e que não serão confortáveis para a população. Falta arborização e planejamento. Uma legislação mais séria sobre as calçadas e sobre acessibilidade. A gente tem muita gente na rua, usando os ônibus, mas com dificuldade para andar”, afirma Lívia.

Ana Beatriz, que projetou um Teatro “multi-formas” como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) também destacou a importância de se pensar do investimento em equipamentos culturais e espaços de entretenimento.

Um dos grandes desafios de Cuiabá é a acessibilidade para deficientes físicos, pedestre e ciclistas. Precisamos de mais faixas de pedestres, pisos táteis, rampas, sinalizações, calçamentos adequados, ciclovia ou ciclo faixas e arborização. Outro problema grave é a falta de parques e praças, principalmente nos bairros periféricos da cidade, onde existem poucas alternativas de lazer”, ressalta Beatriz.

Centro Histórico de Cuiabá (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Viva nova ao Centro Histórico

Para as arquitetas, otimizar a cidade requer atenção à cuiabania. O Centro Histórico, para elas, é um importante reduto cultural e arquitetônico da cidade que abriga inúmeras possibilidades para melhoria da qualidade de vida da população.

“Uma coisa que eu não me canso de falar é sobre o centro histórico. Vamos reviver esse espaço, dá para fazer muita coisa! É a parte da cidade que mais toca meu coração. Acho que falta interesse pelo histórico, mas a casa antiga tem muito a ensinar”, alerta Lívia.

“É importante zelar pelo nosso passado, dando visibilidade para o patrimônio histórico e cultural da cidade. O poder público precisa tirar do papel o projeto de enterramento do sistema elétrico do centro histórico, recuperar os casarões para não caírem mais, como aconteceu com a Gráfica Pepe e a Casa de Bem-Bem“, ressalta Beatriz.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Em relação ao crime de especulação imobiliária, inclusive praticado por financiamentos da Caixa Econômica Federal eu, como moradora, já denunciei para Ministério Público Federal, Estadual, prefeitura, ouvidoria, sem êxito. Várzea Grande dá desconto no IPTU pra quem arruma calçadas; as pichações (k d o HSBC da esquina da Pedro Celestino?) são culpa do poder público que deveria oferecer mais segurança pra o setor privado que se sacrifica para sustentá-lo. Por que que o Museu do dinheiro não foi inaugurado aqui ainda, privilégio só do Rio de Janeiro e Brasília? Falta de capitalismo faz mal pra saúde!

  2. Só demagogia e falta de conhecimento. Por falta de segurança pública, ausência total do estado as famílias e muitos comerciantes abandonaram o centro histórico. Drogados que roubam para sustentar o vício é o maior dos problemas. Ninguém vai investir num lugar desse. A cada dia que passa vejo mais abandono e degradação. Tratam os bandidos como sendo responsabilidade do estado. Esses governos anteriores são profissionais para ensinar mentiras para esses alunos. Totalmente bocós de carteirinha. Após abandonado nunca mais será recuperado. Demagogia e saudosismo barato. Chega de mentiras.

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