Jovem de MT passa 9 dias preso por engano: “só pensava, nunca mais volto aqui”

Alisson Rodrigues dos Santos foi confundido com Alisson Rodrigues dos Santos, o Lagoa

O jovem mato-grossense Alisson Rodrigues dos Santos volta a desfrutar da sua liberdade. Ele passou 9 dias em uma unidade prisional do Noroeste de São Paulo, por conta de um erro da polícia. O procurado era outro Alisson Rodrigues dos Santos, conhecido como “Lagoa” e acusado por uma tentativa de homicídio triplamente qualificado. O crime teria sido cometido em Diamantino (MT), em 2016.

Nesta época, o Alisson preso injustamente trabalhava como pedreiro, construindo casas em Primavera do Leste. “Trabalho desde os 16 anos e a única coisa com que eu sonho agora é me formar na faculdade de Engenharia Civil”, conta.

Ainda em Primavera, Alisson deu início ao curso superior. Concluiu o primeiro semestre e, inspirado pela experiência do primo, engenheiro já formado, resolveu se mudar para São José do Rio Preto (SP). Hoje, eles moram juntos e Alisson paga pela estadia com o que sabe fazer: reformas.

“Estou realizando reformas no apartamento dele – de graça para compensar a minha estadia – e no prédio onde ele mora”, diz, destacando que os R$ 120 pagos diariamente pelo administrador do edifício têm ajudado a bancar algumas despesas, pagar uma dívida remanescente da viagem de mudança – R$ 350 – e algumas mensalidades da faculdade.

“Depois disso, minha meta é dar continuidade aos meus estudos”, ele completa, lembrando da rotina que tinha em Mato Grosso. “Todo dia eu trabalhava oito horas, ia para casa onde morava com meu irmão e a esposa dele, tomava banho e já ia para a faculdade. Me movimentava pela cidade a bordo da minha bicicleta”, descontrai, acreditando que, apesar de tudo, terá muito mais oportunidades na cidade nova.

Procurado pela polícia

Quando Alisson achava que estava tudo se encaminhando, aconteceu o inimaginável. “Minha irmã me ligou e me alertou que eu havia sido procurado pela polícia. Eu disse a ela que não se preocupasse, que quem não deve, não teme. Ela dizia: ‘é seu nome, são seus documentos’. Mas eu dizia que ela ficasse tranquila, que não ia dar nada”.

No dia 18 de maio, no entanto, a polícia o encontrou e parou. “Me chamaram por ‘Lagoa’. Eu disse que eles estavam enganados, mas não adiantou. Me mandaram colocar as mãos para trás e me algemaram”.

Alisson repetia constantemente que era inocente, que nunca havia sido preso. “Mas eles disseram: ‘é ele sim, olha a cara dele’. Foi então que me colocaram na viatura e me levaram. Eu estava numa sala de espera quando o delegado perguntou: ‘quem é o menino de Mato Grosso?'”. Foi nesse momento que teve início uma batalha para tentar convencer o delegado de que aquele Alisson não era o Alisson que eles procuravam.

“Eu só queria que eles me olhassem, meu jeito de falar, de vestir. Que eles entendessem que eu não havia cometido esse crime, que eu sou um cidadão do bem, que eu não sou criminoso”, desabafa, contando que foram dias em que ele pouco dormiu e passava muito tempo lendo a Bíblia.

“No fim de semana, mais pessoas dividiram a cela comigo, muitos por tráfico, brigas, acidentes de trânsito. Um dia reclamei de um moço que estava roncando muito e ele disse para mim: ‘está achando que é hotelzinho? Você vai ver quando for para cadeia mesmo’. Me deixou aterrorizado pensar que eu poderia não ter minha inocência provada e que teria que pagar por um crime que não cometi”, relembra.

Defensoria entra em ação!

No dia 27 de maio, quando Alisson lia a Bíblia, ele parou e chamou o carcereiro. Queria falar com a irmã, Janileide, que estava fazendo o possível para desfazer o mal-entendido. “Já estão fazendo seu alvará de soltura”, ela disse ele. “Foi um alívio ouvir aquilo. Só pensava: nunca mais vou voltar aqui”, ele conta.

Logo que liberado, Alisson precisou caminhar por quase 1 hora até chegar à casa do primo. “Andei o mais rápido possível, liguei o celular, que estava descarregado e mandei mensagem para todo mundo avisando que eu estava solto”, se diverte. “Depois que o mal tinha passado, foi como reagi. Só pensava em agradecer minha irmã e os defensores que me ajudaram. Neste dia, nem dormi, só pensando na alegria que era estar livre de novo”.

Foi a Defensoria Pública de Mato Grosso que acompanhou o caso do Alisson “errado”. O defensor Moacir Gonçalves Netos conta que a família procurou o Núcleo de Diamantino para que a situação fosse solucionada.

Alisson foi confundido por ter o mesmo nome que acusado por crime

“Visualizamos as fotos dos ‘dois Alissons’ e constatamos que, de fato, o rapaz havia sido preso por engano. Ao olhar o processo, vimos que a qualificação indireta havia sido feita por meio de pesquisa superficial, sem observar que o Alisson que a polícia procurava já havia sido qualificado antes, em outro procedimento”, explicou o defensor público Moacir Gonçalves Neto.

É que durante o inquérito policial, a vítima da tentativa de homicídio identificou, por meio de fotos, os supostos autores do crime: além do Alisson conhecido como “Lagoa”, mais um suspeito. Mas os policiais não encontram o Alisson “certo” no endereço que dispunham, então, foram em busca dele sem se atentar a outros dados – nome dos pais e data de nascimento, por exemplo -, além do nome completo.

“Fizemos o pedido de relaxamento da prisão e eu contatei a Defensoria Pública de São Paulo, que descobriu onde o Alisson estava preso e agilizou a liberação”, lembra o defensor, que atua no Núcleo Criminal de Diamantino (184 km de Cuiabá).

Segundo ele, toda a equipe do Núcleo teve participação no caso. “Minha assessora foi a primeira a atender a família, meu estagiário buscou os documentos nos órgãos públicos e eu cuidei da parte burocrática para a liberação do Alisson. É um trabalho de todos”, reconhece Neto.

“A Defensoria tem o dever constitucional de atuar na defesa dos direitos fundamentais das pessoas reclusas. Nosso papel é combater injustiças e abusos do Estado. A população vulnerável tem na Defensoria um fio de esperança contra essa arbitrariedade. Esse é o nosso papel e é muito gratificante quando o trabalho é recompensado ao vermos um inocente, preso injustamente, tendo sua liberdade restituída”, destacou.

(Com assessoria)

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