|terça, 21 agosto 2018

    Jorge Moreno e eu no começo da carreira

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    Soube da morte do amigo e jornalista Jorge Moreno, ocorrida no Rio de Janeiro, ainda na madrugada. Foi inevitável rever parte de nossas vidas quando estreamos quase juntos no Jornal de Brasília, em Brasília. Preferi não ir ao seu sepultamento em Cuiabá. Na verdade, desde que o meu filho Marcelo morreu fiquei muito mole pra hospitais e velórios. Mas não foi só por isso. Quis preservar a mesma imagem do amigo. Nos vimos em Cuiabá há cerca de um ano. Viemos de Brasília no mesmo avião e depois nos encontramos em Cuiabá e filosofamos bastante. Muito agradável. Ele era muito bom ouvinte. Bom falador também.

    Neste artigo gostaria de recordar nosso começo juntos no jornalismo. Eu já era repórter do caderno de Cidades do Jornal de Brasília, desde 1973. O editor Luiz Gutemberg levou da UnB uma geração de jovens repórteres ainda não formados. Em 1974. Queria renovar uma mentalidade crítica jornalismo morno de Brasília. Até então a maioria absoluta dos jornalistas no mercado eram não-graduados e tinham uma forma própria de ver as coisas, pelo ângulo muito pessoal e interpretativo. Gutemberg queria gente mais da notícia e dos bastidores.

    Gutemberg era uma lenda no jornalismo brasileiro da época. Veio da revista Veja e sua intenção era recriar a abordagem do jornalismo político. Tão morno e tão burocrático na imprensa de Brasília naqueles anos duros dos governos militares. Antes de falar de Jorge Moreno nesse contexto, preciso resgatar um pouco dessa história.

    Ele queria jornalistas mais antenados com os bastidores da política, porque pouco era declarado oficialmente pelo governo. Sem que isso garantisse nada. Claro que tudo acontecia num perigoso silêncio da censura. Quem podia declarar eram poucos e mesmo assim falavam por meio de metáforas e de símbolos que exprimiam verdades ocultas. Logo, o que se queria eram jornalistas argutos que lessem nas entrelinhas os mistérios de declarações aparentemente vazias das autoridades. Mesmo no Congresso Nacional, quem podia falar, não falava. Mandava recados. Era preciso interpretar, ouvir, pensar e questionar a memória pra entender que nas entrelinhas havia mistérios misteriosos.

    O jornal com Gutemberg criou nas página 2 a coluna “Decálogo”. Eram 10 notas que provocavam o poder. Sugeriam, insinuavam e revelavam bastidores e tendências. A idéia era provocar e obter algum tipo de declaração que revelasse mistérios escondidos. A coluna sozinha irritava e revelava mais do que todo o corpo de cada edição do Jornal de Brasília.

    Nessa leva de jornalistas advinhos entrou Jorge Moreno. Éramos repórteres do caderno de Cidade do jornal. Saíamos na mesma Kombi alaranjada percorrendo os lugares das nossas pautas. A Kombi nos recolhia ao final do dia. Na redação escrevíamos as nossas matérias. Quase todos os dias almoçávamos na cantina do jornal: arroz com ovo e pendurávamos na longa conta nem sempre quitada no fim do mês com Rafa o seu tolerante dono. Mais ora, menos ora, pagávamos e ele sabia disso. Moreno era um desses.

    Gutemberg nos reunia duas vezes por semana na sua sala de editor do jornal pra nos ensinar a ver o jornalismo novo que pregava. Aos poucos o Jornal de Brasília tornou-se o jornal mais político e o mais lido da capital. Recordo-me do presidente Ernesto Geisel numa foto em que toma o seu café da manha lendo o Jornal de Brasília. A redação era profundamente tensa no final da tarde e começo da noite. A secretária da redação, Shana, era eficientíssima na sua agenda de telefones dos donos do poder na época. Cada edição mexia com o poder. Nós delirávamos de prazer.

    Gutemberg conseguiu formar a sua geração de jornalistas políticos. Entre eles cito três: Rubinho, Ijalmar e Moreno. Estive na política, mas por pouco tempo porque mudei-me pra Cuiabá. Moreno tinha um faro muito bom pras notícias. Daí o seu sucesso ao longo dos 40 anos a partir dali. De minha parte apreendi a abordagem política e crítica de Gutemberg.

    O jornalismo atual trabalha com as verdades aparentes e não busca checagens mais profundas e parece não ter compromisso com a informação. Os jornalistas quase bruxos dos tempos da ditadura deram lugar a gerações muito lights. As verdades ocultas não são mais o foco da imprensa…

    A morte de Moreno toca-me particularmente porque começamos juntos e sempre que nos víamos, tínhamos do que lembrar sobre aqueles bons tempos. Ou de conversas novas usando as mesmas percepções do distante 1974 em Brasília. Agora que ele voltou pra dormir na sua Cuiabá, estaremos próximos de novo. Também pretendo adormecer por aqui, na minha vez.

    Espero, quando chegar o tempo, encontrar-me com Moreno debaixo das mangueiras cuiabanas pra rirmos de nós mesmos e das nossas bobagens juvenis…
     

    Assinatura Coluna Onofre

     

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