Jobfishing”: a expansão dos riscos aos candidatos a empregos na sociedade da informação

(Foto: Freepik)

Carla Reita Faria Leal

Antônio Raul Veloso de Alencar

 

Esta é a primeira de algumas das colunas que tratarão, de forma bastante intuitiva, do aumento dos riscos vivenciados pelos candidatos a empregos na sociedade da informação.

É importante apontar, já de início, que os candidatos a empregos, em nossa percepção, são sujeitos hipervulneráveis no sistema jurídico brasileiro, seja por haver poucas normas que os amparem, diferente do que ocorre em outros países, como Portugal, seja, pela especial situação de sujeição em que essas pessoas se encontram, na busca de sua fonte primária de subsistência, alguns até situação de desespero.

Como ponto de partida à discussão, não poderíamos deixar de nos referir ao trabalho do sociólogo alemão Ulrich Beck, intitulado “Sociedade de Risco”. Em sua obra, o autor diagnostica um aumento e uma crescente complexidade dos riscos a que estamos submetidos nas sociedades contemporâneas.

Não é preciso muito esforço para notarmos esse conjunto de perigos, antes inexistentes, que aos poucos passamos a experimentar na sociedade da informação, onde tudo, ou quase tudo, está à distância de um clique.

Esses riscos, conexos ao fenômeno da digitalização, espraiam-se por todas as áreas, inclusive pelas relações de empregos, ou pelas pretensas relações de emprego. É nesse cenário que nasce o tema do podcast de hoje: o jobfish.

O termo, cunhado em língua inglesa, é utilizado em alusão a uma outra expressão muito conhecida pelos jovens: o catfish. A expressão (catfish) – do inglês –  é empregada para designar as situações nas quais uma pessoa se faz passar por outra, real ou não, em ambientes virtuais, como nas redes sociais ou nos aplicativos de relacionamento, com a finalidade de se conectar com outros indivíduos e enganá-los.

O termo foi sucesso recente em séries como “O golpista do Tinder” e “Inventando Anna”, ambas retratando situações reais.

A expressão, aplicada ao contexto do mundo do trabalho, isto é, o jobfishing, designa, na perspectiva do candidato, as falsas promessas de trabalho que têm crescido de forma exponencial durante a pandemia. O termo está atrelado a um golpe, geralmente virtual, no qual vítimas desavisadas, muitas vezes em situação de vulnerabilidade, como mencionado, respondem a anúncios de emprego falsos e acabam trabalhando, sem qualquer remuneração, a uma empresa inexistente, por vezes, durante meses.

É o caso recentemente narrado pela BBC do Reino Unido da empresa “Madbird”, supostamente sediada em Londres, que enganou mais de 50 pessoas a aceitarem empregos falsos como designers, vendedores e gerentes.

Conforme relata a reportagem escrita pela BBC (com adaptações), “O nome da agência […] “Madbird” e o seu proprietário, Ali Ayad, era dinâmico e inspirador. Seu criador queria que todos na empresa fossem pessoas ativas e ambiciosas como ele. Mas quem participava das reuniões com as câmeras ligadas não sabia que alguns dos participantes listados da reunião não eram pessoas reais. Muitos dos funcionários do alto escalação que estavam listados nas chamadas de vídeo eram fictícios. Alguns até tinham contas de e-mail e perfis no LinkedIn, mas seus nomes eram inventados e suas imagens, de outras pessoas. Tudo aquilo era falso e os funcionários reais haviam caído no golpe do falso emprego”.

A BBC passou um ano investigando o que realmente aconteceu e como as vítimas foram enganadas. Tudo foi construído de forma a se crer que a empresa era real. Com executivos experientes, alguns, supostamente, ligados a grandes empresas, com seus rostos à mostra e perfis ativos e funcionais.

Validava a experiência o fato de que o diretor da empresa aparecia em diversas interações nas redes sociais e nas chamadas de vídeo em grupo. Ele figurava até mesmo em campanhas publicitárias para marcas conhecidas em suas redes sociais, o que se descobriu, depois, serem fabricadas.

Assim, sob o pretexto de uma remuneração por comissão que seria paga logo após a finalização dos acordos em que participassem, algumas vítimas chegaram a trabalhar por até seis meses, antes de saberem que era tudo falso. Muitas dessas pessoas acabaram drenando todas suas economias ou utilizando os limites de seus cartões de crédito na espera por cheques de pagamento que nunca chegariam.

O caso da “Madbird” não é isolado e inaugura o primeiro episódio de uma série de notícias sobre os riscos associados às novas tecnologias no mercado de trabalho, que segue na próxima semana abordando os dados que demonstram o crescimento dessas práticas nos últimos anos.

 

*Carla Reita Faria Leal e Antônio Raul Veloso de Alencar são membros do Grupo de Pesquisa sobre o meio ambiente de trabalho da UFMT, o GPMAT.

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