|terça, 21 agosto 2018

    Jane Fonda: do glamour cuiabano a uma vida dedicada aos animais (e não são poucos!)

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    Ednilson Aguiar/O Livre

    Jane Fonda

    Hoje na calmaria, Jane Fonda relembra tempos glamurosos

    No auge da transformação de seu corpo, a cabelereira aposentada Jane Fonda, era a cereja do bolo dos carnavais das décadas de 1970 e 1980 em Cuiabá: queridinhas das socialites que buscavam seus serviços e suas entradas triunfais com roupas femininas no extinto Cine Tropical para curtir uma simples sessão, eram dignas de um desfile em passarela. “Fazia o cabelo, vestia um shortinho curto e umas botas à la Eike Maravilha”, diverte-se. 

    Vivendo hoje uma vida social tranquila no bairro Lixeira, na residência modesta que divide com 15 cachorros e 20 gatos, ela relembra os tempos de glória substituídos por calmos dias de frente à TV, lendo muito, dedicando-se ao espiritismo e ao sacerdócio de cuidar dos animais que resgatou das ruas ou que por ali se achegaram.

    Jane é da primeira geração a assumir sua identidade sexual no ambiente de uma sociedade conservadora cuiabana. Ao lado de uma minoria no país, ela revolucionava o comportamento sexual e desafiava a moral de uma época. Mas agora, aos 62 anos, assiste acompanha pequenas transformações legais e de consciência coletiva que pode comemorar, mas segundo ela, nada que vá alterar de alguma forma sua vida. 

    “Não vou fazer cirurgia de mudança de sexo, nem alterar documentos. Já estou na metade da vida, mas celebro cada vitória que vá ajudar pessoas que assim como eu, tiveram que enfrentar muitos obstáculos do qual, o maior deles é o preconceito em decorrência da falta de informação”.

    Vale ressaltar, no dia 1º de março o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que pessoas transexuais e transgêneros têm o direito de alterar nomes e sexo no registro civil sem a necessidade de realizar cirurgia de redesignação sexual e laudo médico pericial.

    Segundo a Agência Brasil, a maioria da Corte também decidiu que não é mais preciso ter autorização judicial para fazer a mudança, ou seja, os processos de retificação do registro civil vão ocorrer via cartórios. O STF ainda não definiu a partir de qual data a alteração estará disponível, mas será para breve. Sendo assim, bastará ir diretamente a um cartório e assinar uma autodeclaração.

    “Muitas pessoas deixaram de estudar, de trabalhar em este ou aquele ambiente pelo constrangimento. Eu, graças a Deus, venho do segmento da beleza. As pessoas aceitam mais. Vou deixar no meu registro, Miguel Costa Monteiro Filho, nome que os meus pais me deram. A consciência está na cabeça da gente mesmo”.

    Ednilson Aguiar/O Livre

    Jane Fonda

    Quanto ao nome que adotou, conta que foi presente de uma amiga. “Foi do final da década de 1960 para 1970 que ganhei este nome. Na época em que travestis e transexuais colocavam nomes de artistas modernos, minha amiga me deu a ideia, logo depois de assistir Barbarella”. No filme, Jane Fonda vive uma heroína das galáxias que realiza missão para evitar a destruição do planeta Terra. Trazendo para sua realidade, é uma bela metáfora.  

    “Antes o preconceito era muito maior, mas gosto de ver que as pessoas começaram a ter reconhecido o seu direito de se identificarem do jeito que quiserem”, acentua.

    Jane relembra que percebeu muito cedo sua orientação sexual. “Eu tinha uns 12 anos, meus pais nem notavam, mas eu vivia com as meninas e adorava as bonecas. Na adolescência estudava no Liceu Cuiabano e depois, conclui o magistério na Escola Presidente Médici. Eu estava sempre do lado de pessoas que assim como eu, se reconheciam como quem veio com o corpo errado. Mas muitos, eram camuflados, não tinham coragem de se assumir”.

    Mais madura, aos 19 anos, começou a aplicar estrogênio no corpo. “Aos 22 anos, já estava bem mudada. A pele era bem limpa, lisinha, e os meus seios cresceram. Eu estava vivendo em um tempo que não era meu, acho que afrontei a sociedade”, ri.

    Ednilson Aguiar/O Livre

    Jane Fonda

    Foi então que na década de 1970, firmou-se como referência da beleza e da moda, ditando tendências na Baixada Cuiabana. Por muitos anos foi um dos destaques dos salões de mais requisitados da capital, como o já extinto, o Instituto Sol Vermelho.

    Quando saiu do Sol Vermelho abriu seu próprio salão na rua castelo branco em um imóvel alugado de uma tia.

    Mais tarde, em 1986 passou a morar no bairro Lixeira, onde montou outro salão em que depois de receber muitas clientes, atualmente atende vez ou outra um pequeno grupo por insistência delas. Ela aceita, já que é mais um reforço na renda para comprar alimentos e garantir os cuidados da grande família. Sua rotina se baseia essencialmente, em cuidar dos animaizinhos,

    Foi neste período que começou também a mudar sua maneira de ver a vida, dedicando-se a partir daí, à espiritualidade. “Tive muitos namorados, muitas decepções. Gostava de ir até o fundo do poço. Bebia, fumava. Mas tive um despertar e a partir daí, deixei todos os vícios e comecei a me dedicar ao espiritismo”.

    Foi na doutrina kardecista que buscou explicações para a falta de sintonia entre o corpo e o espírito. “Descobri que todo o sofrimento de ser uma mulher no corpo de um homem, era uma bênção. É através da dor que você cresce. Penei bastante, mas foi a doutrina espírita que me mostrou o caminho para ser uma pessoa serena”.

    Ednilson Aguiar/O Livre

    Jane Fonda

    Gatinhos acomodados em quarto da casa se reunem na janela para receber um agrado

    Segundo Jane Fonda, esta seria uma provação para o espírito, um resgate de outras vidas. “A partir dos meus 24 anos fui lendo, me instruindo e com esse aprendizado cresci muito mais. Chico Xavier disse que nas provações mais difíceis a gente evolui. Antes de reencarnar você pede por isso no mundo espiritual. Talvez eu tenha sido mulher por várias vezes e tenha abusado da beleza para fazer maldades. Então você pede para vir assim, uma mulher enclausurada em um corpo masculino. Seria algo como se minha alma tivesse fortes impressões de uma vivência anterior”.

    Mas segundo Jane, já superou isto, como já superou todos os infortúnios que a vida lhe trouxe por ser transexual. “Mas eu me aceito. Hoje, só peço ajuda para os animais. O pouco dinheiro que ganho com a aposentadoria de um salário mínimo precisa de um reforço para que eu possa garantir o bem estar deles”, simplifica aquela que deve ser a primeira diva em Cuiabá a declarar uma transexual. 

    Quem puder colaborar com ração para os animais, pode entrar em contato com Jane, pelo telefone (65) 3321-0003.

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