“Já não tenho sonho”: após perder a casa, idosa vive em restos de construção de viaduto

“Tem dia como, outros dias não. Mas está tendo bastante manga, então não passo fome”, diz Deusa de Oliveira, que aproveita os restos de uma obra parada em Cuiabá

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Sem documentos e dinheiro para pagar aluguel, a aposentada Deusa Evanil de Oliveira, 64, não consegue explicar com lucidez como foi parar na rua. Ela mora ao lado da ponte sobre o Rio Coxipó, na Avenida Fernando Correa da Costa, em Cuiabá, onde passam diariamente milhares de pessoas.

Primeiro, fez um barraco com lençóis, usando o obelisco de inauguração da estrutura, no acesso de pedestres.

Agora, está em um cubículo de dois metros por um, ao lado de um terreno baldio.

Paredes de tijolo de arrimo – restos da construção do viaduto da Beira Rio, que foi interrompida – e uma lona que serviu de telhado formaram a segunda morada da mulher.

Por mais precária que pareça, ainda consegue ser melhor que a anterior, que foi queimada por uma pessoa não identificada.

No fundo da foto, os carros passando na Avenida Fernando Corrêa da Costa (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“Eu tinha saído um pouco para pegar uma água gelada no cartório. Quando atravessei a rua, vi as chamas e o barraco pegando fogo”.

Ela conta que os alunos de uma autoescola, que fica ao lado, viram uma mulher de vestido longo se aproximar e atear fogo na “casa”.

As chamas consumiram o pouco do que Deusa possuía, incluindo uns poucos documentos que restavam e o cartão de transporte.

Rotina

Materiais recicláveis e roupas velhas estão armazenadas no barraco onde mora Deusa.

“Eu acho roupas boazinhas jogadas e lavo para dar para o pessoal que mora na beira do rio. Tem uns quatro por aí. Eles ficam no chão seco porque não têm como cobrir”.

Deusa junta roupas velhas para dar aos outros moradores de rua que vivem na margem do rio (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

A rotina dela se divide entre as roupas, catar recicláveis, ir nos estabelecimentos que lhe permitem pegar água gelada e esperar alguma doação de comida.

“Tem dia como, outros dias não. Mas está tendo bastante manga, então não passo fome”.

Trajetória

Por histórias desencontradas, Deusa tenta contar a sua vida. Relata que trabalhava como auxiliar de serviços gerais no Hospital Júlio Müller e lá conheceu o ex-marido.

Com o homem, foi casada 10 anos e, um dia, abandonada.

No último dia dele em casa os dois tiveram uma discussão e ele a jogou sobre caixas de som.

“Não consegui levantar e ele me carregou e me jogou na cama. Depois disso não o vi mais”.

Quando questionada sobre onde morava, sabe apenas dizer que era no Pedra 90. Que saiu de lá por não ter como pagar o aluguel.

Fala ainda que precisa renovar o contrato, mas deixou dois talões de luz em aberto e perdeu a aposentadoria.

Ela teria tentado ir ao banco resolver, mas com o incêndio perdeu os documentos.

“Só, do meu jeito”

Deusa diz que a filha está desaparecida e não quer ver nenhum dos parentes.

“Eu quero ficar sozinha e do meu jeito. Já não tenho sonho. Se eu morrer, pronto”.

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2 COMENTÁRIOS

  1. “Eu quero ficar sozinha e do meu jeito. Já não tenho sonho. Se eu morrer, pronto”. Jamais Deusa, seus colegas e amigos do HU e da UFMT não irão te abandonar. Estamos indo em seu auxílio.

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