Inventor desenvolve respirador movido a motor de para-brisa

Eletrotécnico gastou R$ 250 na máquina e quer produzir em larga escala para salvar vidas

Um eletrotécnico de Torixoréu (600 km de Cuiabá) desenvolveu um respirador, o equipamento que tem sido considerado vital no tratamento dos doentes graves de covid-19, a doença causada pelo novo coronavirus. E que, desde que a pandemia se alastrou pelo mundo, está sendo comercializado a peso de ouro.

José Rodrigues Sales, 52 anos, usou um motor de para-brisas de carro, uma fonte de computador usada e um Ambu – respirador manual – para a construção da engenhoca.

Todos materiais do protótipo foram doados ou reaproveitados, mas ele assegura que com peças novas o custo de uma unidade não ultrapassará R$ 250. O valor representa 0,3% do que vem sendo cobrado por respiradores hospitalares, atualmente avaliados entre R$ 40 mil e R$ 70 mil.

Sales acredita que, se tiver apoio governamental, pode construir centenas em um curto espaço de tempo.

Atualmente, o modelo está sendo analisado pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). Além disso, um representante de três municípios mato-grossenses e outro, da Universidade Federal do Ceará, já procuram José Rodrigues para obter informações e, quem sabe, uma unidade.

Como funciona

Sales pegou um Ambu e criou uma máquina para reproduzir a ação das mãos dos enfermeiros sobre o equipamento. Ele conseguiu programar três velocidades, mas relata que pode criar um sistema para o ritmo ser programado conforme o interesse do médico.

Ainda não fez a melhoria porque a maior parte do comércio está fechado e teve dificuldades para comprar as peças necessárias.

“Quando o enfermeiro faz o movimento com as mãos, é humanamente impossível ele manter por muito tempo as repetições constantes. Quando ele vai se cansando, tende a mudar o ritmo e, se revesar com outro, serão velocidades diferentes. Já o aparelho, substitui o trabalho e pode funcionar por dias sem problemas”, afirma.

Sales se inspirou em uma reportagem que assistiu na televisão e que contava a história de uma indústria de carros que iria desenvolver respiradores, dada a crise no mercado global por conta da pandemia do novo coronavírus.

“Na mesma hora, minha cabeça começou a trabalhar e eu já acordei com todo o modelo em mente”, lembra.

Para a primeira máquina, José não tinha nenhum motor de para-brisa, então, usou de vidro elétrico de carro. Pegou um fonte de computador usada de um amigo e os parafusos e as tintas foram doados pela loja de ferragens.

“Ele funcionou, mas logo vi a possibilidade de melhorias e comecei a desenvolver”, relata.

Por que fazer?

José afirma que tem dentro do coração uma revolta muito grande com a corrupção e o oportunismo. Diz que, quando viu todo conflito gerado pelo aumento na procura por respiradores, ficou desolado. Ele não conseguia entender com as pessoas podiam fazer jogos comerciais enquanto vidas estavam em risco.

Foi então que ele percebeu que a maior parte dos municípios pequenos não teria condições de comprar o equipamento e que ele precisava ajudar de alguma forma.

Desde então, usa todo momento vago que tem para trabalhar no projeto e suas melhorias.

“Eu queria que eles [o governo] avaliassem o meu equipamento porque tenho certeza que ele funciona. Fiz vários testes e ele está conectado ao Ambu, que já tem as certificações”, declara.

Por que o respirador é importante?

Vinte por cento das pessoas infectadas pelo novo coronavírus desenvolvem a forma grave da doença e acabam precisando de um respirador. Isso acontece porque o vírus causa um processo inflamatório por todo o corpo, porém acentua-se nas vias aéreas, principalmente nos pulmões.

O resultado é a redução da capacidade respiratória, que consegue ser retomada apenas com o uso de respiradores.

Inventor por natureza

Desde criança, Jose conta que teve o interesse por invenções. Sua primeira conquista foi na escola, onde ele se juntou aos colegas e construiu uma fábrica de descascar arroz com os equipamentos hidráulicos.

“O experimento ficou por anos em exposição na escola. Ficou muito chique. Eu não virei um cientista porque morava na roça e era tudo muito difícil. Mas eu fiz [curso de] Eletrotécnica, que me ajuda muito na elaboração dos projetos”, avalia.

Após o sucesso conquistado na adolescência, a mente dele não parou.

Hoje, José trabalha com a construção de poços e o equipamento para perfurar foi construído por ele mesmo, com uma série de melhorias em relação os vendidos no mercado, ele garante.

O inventor criou uma broca e um sistema exclusivo, que não tritura as pedras e sim as quebra. Com isso, dispensou o uso de compressor e reduziu os custos do serviço em até 50%.

E se você está imaginando que José pode ter uma mina ouro nas mãos, dada à grande demanda por respiradores no mundo todo, ele é taxativo: “fico tão contente de inventar algo que ajude as pessoas, que nem penso em pagamento”.

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