16 de abril de 2026 00:51
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Greve na Educação: “preciso ouvir mais de 30 alunos para achar um que queira ser professor”

Foto de Gabriela de Lima
Gabriela de Lima

Robson Pereira dos Santos é professor de Sociologia há mais de 15 anos e sempre trabalhou na rede pública estadual. Escolheu essa área por acreditar no poder da educação. Já Marcelo Almeida ensina Matemática desde 2013 e passou a se dedicar exclusivamente ao ensino público dois anos depois. Na avaliação dele, o professor é um dos alicerces da sociedade.

Além da profissão, o que eles têm em comum? Ambos atuam na Escola Estadual Rafael Rueda, localizada no bairro Pedra 90, em Cuiabá, e que aderiu à greve que paralisou as atividades da educação pública de Mato Grosso desde o dia 27 de maio.

A categoria luta por melhores condições de trabalho e um reajuste salarial de 7,69%, previsto pela Lei Complementar N°510, entre outras reivindicações.

Mas a greve não é unânime e gera debates mesmo dentro da categoria. Robson, por exemplo, é a favor da paralisação. Já Marcelo acredita que foi uma decisão equivocada do sindicato que os representa. Justamente por isso, eles dois respondem a essa edição especial do “5 perguntas para”.

1 – Você acha justo que, se o Estado conceder o aumento que a categoria busca com essa greve, quem não participou da paralisação também seja contemplado?

Marcelo É uma questão um pouco complexa. A minha escola está parada, mas eu não sou a favor dessa greve. Acredito que não era o momento. Nós não podemos condenar quem não está no movimento, sem uma reflexão profunda. Se esse aumento realmente acontecer, todos vão usufruir de qualquer jeito, desde as pessoas que estão cortando nosso ponto, até aqueles que ainda não são funcionários do Estado, mas serão um dia.

Robson Eu acredito no ganho coletivo. Justo pode até não ser, mas a categoria precisa ser olhada como um todo. As conquistas e os ganhos, são da categoria inteira. Nós lutamos por todos.

2 – O que você acha do corte de parte do salário de quem está em greve?

Robson Isso vai gerar um problema lá na frente. Greve é transtorno, a gente sabe. Para nós, professores, também é. Nós precisamos repor essas aulas depois. Sempre cumprimos isso, mas muito professores que tiveram esses pontos cortados agora, na hora de repor, não vão querer, porque não estarão recebendo por essas aulas. Aí será preciso colocar outra pessoa no lugar, para substituir, o que também é um problema.

Marcelo Se eu acho que é certo ou errado? Depende. Muitas vezes, a pessoa que recebeu [o salário integral] na greve, não vai repor [as aulas] depois. São vários pontos de vista sobre isso. Minha opinião é que é um golpe do Estado para fragilizar a categoria e foi um golpe eficiente, nunca aplicado antes.

3 – E sobre o governo afirmar que os professores de Mato Grosso têm o terceiro melhor salário do país, é verdade? Dá para sobreviver só sendo professor?

Marcelo O governo argumenta isso em cima da base salarial dos professores do país, mas nós sabemos que o piso salarial do professor no país é baixíssimo, então, não é nada difícil ter o terceiro melhor piso. E o que temos hoje, não foi fácil de conseguir. Esse governo não valoriza a educação. Se o [governador] Mauro Mendes (DEM) tivesse consciência, ele nunca diria que o professor em Mato Grosso não precisa de aumento.

Robson O professor é extremamente desvalorizado e o salário também. Mato Grosso é, realmente, um dos estados que melhor paga, mas quem sustenta uma família com R$ 2,8 mil? Eu sempre pergunto para os meus alunos qual carreira eles querem seguir e preciso ouvir mais de 30 estudantes para conseguir encontrar somente um que gostaria de ser professor.

4 – Como seria a escola dos seus sonhos?

Robson Nós vivemos na era da tecnologia e as escolas aqui não têm nem o básico. Muitos professores ainda usam giz em sala de aula. Muitas escolas não têm um banheiro que seja, no mínimo, “usável” para os alunos. As escolas não têm internet, não têm estrutura. Educação é caro, é verdade, mas é preciso investir. Nenhum país evoluí sem uma educação de qualidade.

Marcelo Eu acho que para a escola hoje ser uma escola dos sonhos não falta muita coisa, não. O que falta é a compreensão do que é a educação. Alunos interessados, que reconhecem a importância do estudo em sua vida, que vêm de uma boa base familiar. Nós temos esse ciclo na escola pública: muitas famílias são desestruturadas e o aluno acaba seguindo a direção que lhe convém, de forma desnorteada, porque é um ambiente inóspito.

5 – Em algum momento você já se arrependeu de ter escolhido ser professor? Se sim, o que ainda te mantém nessa profissão?

Robson Nunca! Eu escolhi ser professor por motivos ideológicos, porque eu acredito na educação, acredito que é a chave, a base de tudo. Eu amo lecionar e, por mais que seja um cenário, muitas vezes, desmotivador e desvalorizado, eu não penso, de jeito nenhum, em deixar de ser professor.

Marcelo No exato momento, estou passando por um período de questionamento sobre a minha permanência ou não na educação. Sair da educação é um pouco difícil, porque dar aula é o que eu sei fazer, mas é possível repensar minha carreira.

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