Fragmentos da história de Sinop

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Conheci Sinop em 1980, a convite do meu sogro, Ascânio Baptista de Carvalho, ex-diretor da Colonizadora Sinop, grupo ao qual dedicou sua vida por mais de 50 anos. Seu irmão mais velho João Pedro Moreira de Carvalho era o sócio meeiro de Ênio Pipino, o nome que virou lenda na colonização do Nortão e no desenvolvimento da Amazônia Legal.

Juntos, já haviam fundado, através da empresa – Sinop Terras Ltda – com sede em Presidente Wenceslau, SP, com a participação do então governador de São Paulo, Adhemar de Barros as cidades de Terra Rica, Iporã, Ubiratã, Formosa D’Oeste e Jesuítas, além de vários distritos que pertenciam a esses hoje municípios e comarcas localizados no Paraná.

A partir da década de 70, com a sede da empresa já transferida para Maringá e já sem Adhemar de Barros no corpo societário, Ênio e João Carvalho adquiriram a Gleba Celeste, terras devolutas do Estado, com 645 mil hectares na altura do quilômetro 500 da Rodovia BR-163.

A experiência de transformar áreas inabitadas em pequenas cidades que se desenvolveram ao longo do tempo, adquirida no Paraná, transformou-se na saga de “plantadores de cidades”, reconhecidos como verdadeiros “Bandeirantes do Século XX”. Nascia ali a Colonizadora Sinop, hoje com sede na cidade de mesmo nome e que encanta não só a Mato Grosso mas a todo Brasil.

Lembro-me, ainda, que nesta viagem primeira àquela que seria a cidade para qual eu mudaria com minha família, 2 anos depois, foi repleta de aventuras: o voo Cuiabá/Sinop era feito em pequenos aviões Sertanejo, da Mecom Táxi Aéreo, monomotores de 6 lugares que só decolavam quando a “lotação” estivesse completa. A rota passava por Porto dos Gaúchos, Itaúba e então  Sinop. Vale ressaltar que o número de lugares, como nos garimpos, não era fator impeditivo para que mais passageiros fossem adicionados.

A cidade estava em festa. A pequena “clareira” no meio da floresta amazônica, que não tinha nem 5 mil habitantes, vista aos olhos daqueles que tomavam conhecimento de que receberia a visita do Presidente da República,  não entendiam como uma insignificante corrutela receberia o presidente João Figueiredo. Era como se Donald Trump e o Papa Francisco visitassem Cuiabá simultaneamente.

Emancipada em dezembro de 1979, Sinop, naquele ano de 1982, participaria pela primeira vez de eleições. Elegeria não só o prefeito que substituiria o administrador municipal Osvaldo Paula, bem como os 9 vereadores que comporiam a Câmara Municipal. Imaginem, então o frisson que não causava a vinda do Presidente da República.

Waldemar Brandão, um dos líderes da oposição, “Patrão” do CTG Porteira da Amazônia, propôs e disseminou a idéia de que deveria haver um boicote à visita do Presidente. Dizia ele estava a serviço dos interesses da Colonizadora e que era um absurdo que não lhe fosse aplicada, pelo menos, uma sonora vaia além de faixas e cartazes de “Fora Figueiredo”.

Vale lembrar que em 1980 Sinop não tinha telefone, não tinha um metro sequer de asfalto, não tinha água tratada, não tinha energia elétrica e não tinha qualquer veículo de comunicação com notícias em tempo real.

Essa era a Sinop que aguardava ansiosamente a chegada do Presidente João Figueiredo em 03 de julho de 1982.

Seo Ênio, como carinhosamente era chamado, junto com Dona Nilza, que merece um capítulo à parte nessa história, eram amados e respeitadíssimos. Quando estavam em Sinop, a cidade parava literalmente para ouvi-los.

Quando soube do movimento que se formava contra a vinda do Presidente, marcou uma reunião convidando toda a cidade a participar justamente no CTG do Brandão. E lá pude presenciar uma das mais belas aulas de convencimento a que assisti ao longo de minha vida.

Começou falando, pausadamente, o que significava a vinda de um Presidente da República a um município do porte de Sinop, escolha que por si só justificava estender a ele tapete vermelho, além de saudá-lo com banda de música e fogos de artifício.

Falou emocionado que a vinda de Figueiredo significava que ele estava pronto para autorizar a Embratel a instalar a telefonia em Sinop e que no satélite que estava bem acima de nossas cabeças só havia mais um, um único gancho, onde poderia ser “pendurado” o nosso sistema de comunicação em tempo real.

Era a definitiva aposentadoria dos rádio amadores e rádios VHF e UHF que eram usados pelas empresas para falar com o Brasil, pois, na prática, vivíamos em um outro país, em outra realidade. Era a chance real de cada um ter o seu telefone e poder falar a qualquer momento com qualquer um de sua família. E isso não tinha preço.

Com a atenção de todos, praticamente hipnotizados pela sua fala, ele diz: soube, entretanto que há um movimento para protestar contra a vinda do nosso Presidente. Sei de todos os benefícios que poderão vir com a sua vinda e imagino que as senhoras e os senhores também podem imaginar.

Entretanto, se alguém aqui de vocês for capaz de me convencer de um único ganho que teremos em afrontar a maior autoridade da República, traz logo aqui pra mim essa ficha desse tal de MDB que eu quero não só assinar mas estar à frente dos protestos.

Silêncio total seguido de uma explosão de palmas. E assim acabou a tentativa de protesto contra o Presidente. A recepção foi inesquecível. O gancho foi pendurado e um ano depois, o Ministro das Comunicações, Haroldo Corrêa de Mattos, voltava a Sinop para inaugurar os primeiros 500 telefones fixos.

A oposição naquele ano não elegeu seu candidato a prefeito, Sebastião Ignácio de Mattos. Foi eleito em 15 de novembro Geraldino Dal Maso, candidato indicado pelo Seo Ênio.  Waldemar Brandão elegeu-se vereador e foi eleito 1º. Presidente da Câmara, eleição que ganhou no grito, pois fora derrotado no voto. E assim começaram os embates políticos em Sinop. Voltarei ao assunto.

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*Ricarte de Freitas é advogado, analista político e ex-parlamentar estadual e federal

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