Formatura antecipada para alunos da Saúde: vantagem contra o coronavírus ou não?

A proposta é reforçar o quadro de profissionais no país, mas há quem discorde. UFMT, Unemat e Univag já tomaram uma decisão

(Foto: Renato Araújo/Agência Brasília)

Pelo menos 50 alunos da área da Saúde da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) terão a colação de grau antecipada por causa da pandemia de coronavírus. A proposta do Ministério da Educação (MEC) é que os estudantes passem a compor o mais rápido possível o quadro de profissionais no combate à covid-19.

Além da UFMT, a Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat) e a Univag darão grau antecipado aos seus alunos.

A antecipação significa, porém, que os estudam deixarão os cursos antes dos prazos previstos. De acordo com MEC, poderão se formar os que já tenham cumprido, pelo menos, 75% da grade curricular.

No currículo pedagógico da UFMT, por exemplo, os alunos de Medicina têm obrigação de passar por cinco áreas básicas e três clínicas. Quem antecipar a formatura, sairá da universidade sem integralizar duas áreas clínicas.

Na instituição, a decisão de seguir a orientação do MEC não é unilateral e foi tomada em colegiado formado por professores e representantes dos estudantes de cada curso.

Foram autorizados os alunos de Medicina, Enfermagem e Farmácia dos campi Cuiabá, Araguaia e Rondonópolis, respectivamente.

Na avaliação da pró-reitora de Graduação, Lisiane Pereira de Jesus, naturalmente os alunos terão um déficit no currículo, mas isso não deve prejudicar a qualidade dos profissionais.

“Não será a ponto de comprometer a formação dos alunos. O colegiado é muito criterioso nesse quesito”, ela diz.

No curso de Medicina, após a avaliação em colegiado, a decisão ainda passou pelo crivo de uma congregação. Entre as considerações, o grupo levou em conta a paralisação das atividades do internato para os estudantes do curso.

Alunos poderão receber o diploma e começar a trabalhar com 75% do curso de graduação concluído (Foto: Freepik)

Atividades suspensas

Segundo Heloise Helena Siqueira Borges, coordenadora do curso, o empecilho é a disponibilidade de equipamentos de proteção individual (EPIs) em quantidade e qualidade suficientes para os alunos.

No internato, eles cumprem as atividades em Unidades Básicas de Saúde, policlínicas e no Hospital Julio Müller, referência para o tratamento de pacientes com a covid-19 em Cuiabá.

A UFMT, de acordo com a professora, não consegue encontrar fornecedores que entreguem os equipamentos dentro das exigências.

“Entre esperar e deixar os alunos sem uma perspectiva, fizemos cumprir a portaria do MEC. Pessoalmente, acho que não é o ideal. Existem, por exemplo, os profissionais que já estão formados, têm experiência e possuem dificuldades”, pondera.

O risco da autorização, porém, segundo a professora, é do governo federal. “Se o MEC garante emprego para esses profissionais, quem somos nós para negar?”, questiona.

Sobre o déficit no currículo, ela explica que os alunos não necessariamente deixam de ter contato com os setores. “O rodízio nas áreas do internato se repete. O que acontece é que, no segundo ciclo, a exigência é outra”, diz.

A falta de equipamentos de proteção paralisou o internato e os estudantes que não optarem por se formar antecipadamente, não têm previsão de quando o farão (Foto: Freepik)

Quem está se formando

Ricardo Budtinger, 24 anos, é estudante de Medicina na UFMT e optou pela colação antecipada. Ele afirma que já cursou 90% do curso e se considera apto para a formatura antes do previsto.

Ao todo, o curso tem 6 anos de duração. Ricardo já cumpriu 5 anos e 8 meses desse período. Além dele, outros 36 alunos da turma solicitaram a antecipação.

“Acreditamos que toda a experiência dos últimos anos são suficientes para nos capacitar a exercer a profissão. Não era o momento previsto, mas não teremos grandes complicações”, afirma.

A ata de colação de grau foi assinada na segunda-feira (27). Agora, seguindo os trâmites burocrático, a UFMT deve emitir o certificado de conclusão de curso para inserção dos alunos no Conselho Regional de Medicina (CRM-MT).

Com o registro, eles poderão se inscrever em editais municipais, estaduais e federais.

Caso se inscrevam no edital do governo federal, eles devem receber um salário mínimo para estágio supervisionado de 40 horas e R$ 522,50 para 20 horas. E o receio de enfrentar a pandemia não afugenta Ricardo.

“Todos que estão na linha de frente no combate à covid-19 têm medos e receios. Quando optamos pela antecipação, estávamos cientes do risco. Mas acredito que a vocação que temos seja suficiente e ainda maior que os medos”.

Parte dos alunos optaram por não colar grau antes do fim do curso. A reportagem tentou, mas não conseguiu contato com nenhum deles.

CRM é contra

Para a presidente do Conselho Regional de Medicina em Mato Grosso (CRM-MT), Hidelnete Monteiro Fortes, a antecipação é um equívoco. O órgão segue o mesmo posicionamento do Conselho Federal.

“Os alunos não vão ter completado o curso. Para alguns, vai faltar urgência e emergência, para outros Pediatria, por exemplo”, diz.

Além da carência na grade curricular, a presidente cita a falta de fiscalização após a emissão do registro no órgão.

“Quem garante que esses profissionais vão atuar no combate à covid-19 depois de formados? Ninguém vai supervisionar isso. É um risco que os estudante podem ter no futuro, já que com o registro na mão, eles são responsáveis pelos próprios atos”.

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