Foi o homem branco que trouxe o preconceito para a aldeia, diz indígena LGBT

Chefe de comunicação em uma aldeia, Majur sente o peso dos padrões e intolerância da sociedade

Exibido anteriormente no Festival de Gramado, Majur será exibido nesta segunda-feira (15)

No mês que celebra o “Orgulho LGBT”, a reportagem do Livre pôde conferir em primeira mão o novo documentário do diretor mato-grossense Rafael Irineu, o curta-metragem “Majur”. Segunda produção que leva sua assinatura, estreia nesta sexta-feira (08), em uma das mostras mais representativas da categoria, o Festival Internacional de Diversidade Sexual e de Gênero de Goiás (DIGO), que segue até o dia 13 de junho, em Goiânia.

O filme-processo, ao que parece, é uma introdução ao que há por vir, já que o chefe de comunicação da aldeia bororo Pobore, no sul de Mato Grosso, não apenas interfere em algumas cenas do filme, como também ele próprio se vê em meio a uma fase de afirmação com desdobramentos passíveis de ainda serem documentados.

Na trajetória, se fortalece com a aceitação de entes queridos. Isso lhe confere mais ânimo e segurança para que se mantenha em direção à evolução de sua jornada. O gênero está na alma, mas o corpo também pode estar sintonizado aos desejos mais puros sobre como se sente e como se vê.

Com uma condução bastante sensível, Irineu tem espiritualidade e leveza para tratar do assunto por vezes indigesto à sociedade e que, ao certo, quando essa história tornar-se conhecida, haverá os que enxergarão uma grande problemática no fato de um indígena se posicionar como um LGBT.

No registro do cotidiano, Irineu reproduz o comportamento responsável e a entrega total de Majur, apelido que ganhou dos amigos em um trocadilho como o nome real, Gilmar – em favor da comunidade indígena em que está inserido. Da produção nas apresentações culturais ao engajamento para possibilitar que as crianças da aldeia possam estudar. A equipe acompanha essa rotina, mas em um ponto do trajeto, é advertida por Majur: “É melhor não filmar lá dentro”, ao chegar à uma instituição municipal de ensino.

Depois do corte, o rio é coadjuvante desta sugestão do rito de passagem que o protagonista vivencia. O rio Vermelho surge novamente em uma obra de Rafael Irineu. “A propósito, foi na pré-produção do curta Rio Vermelho que tive o primeiro contato com o Majur, já que ele é chefe de comunicação da aldeia e seria com ele que eu deveria acordar tudo. Nas gravações, eu e o produtor Ayrton Senna (que também está na produção), nos surpreendemos com Gilmar”, relembra o cineasta.

Bastante resignado em servir o seu povo e muito consciente da sua sexualidade, Majur declara em uma das cenas: “Meu pai tinha esse papel de chefe de cultura, mas ele era bem reservado. Eu deixo minha vida para atendê-los. Esqueço de mim para ajudar os outros, só que ver as pessoas felizes com o meu trabalho já é suficiente para mim”.

A aceitação da família tem lhe dado forças. “Minha mãe me contou que antigamente tinha pessoas do mesmo sexo que se casavam. O preconceito não veio da gente, foi o homem branco que trouxe o preconceito. Ela me aceita, mas acho que ela tem medo do que os outros vão pensar de mim, o que vão fazer comigo. É disso que ela tem medo”, diz. Assim, ele revela que um comportamento culturalmente aceito, foi “julgado” pela sociedade branca e absorvido pelas comunidades indígenas na contemporaneidade

“Ultimamente temos nos dado muito bem. Um dia desses ela comentou comigo: ‘você tem que começar a trançar [utilitários e peças de artesanato]. Você poderia ajudar suas tias. Isso para mim foi um alívio, ela está me aceitando”. No dia a dia, Majur diz que na aldeia existem os trabalhos que são dos homens e outros que são das mulheres. “Faço um pouco de cada”. Essa multifuncionalidade também é expressa no filme.

Em outro momento do curta-metragem, Majur, que se dedica tanto às suas funções, prepara-se para sair para se divertir. Passa pó compacto, rímel, batom. “Teve uma vez que um amigo me colocou na fila das mulheres para entrar em uma festa e se divertiu com o fato, porque os seguranças tinham achado que eu era mulher”, conta. “Sobre o futuro? Eu pretendo formar uma família com uma pessoa que queira ser minha companheira. Também quero estudar na cidade”.

O diretor, sabe que é um projeto que exige muita responsabilidade. “É preciso ter muito cuidado em tudo que é representativo no cinema. Qual história você quer contar? E porquê?”

O diretor ressalta que o projeto, em um todo, se resume em duas palavras: sororidade e coletividade. “Em sua essência carrega uma grande importância por de trás das câmeras: uma equipe 100% mato-grossense, composta por profissionais estreantes nas funções principais, e formada por indígenas, gays, mulheres e trans para contar sua luta”. E este momento especial, em que Majur segue até o festival na estreia do documentário pode também ser muito importante para sua luta pessoal. “No festival, ele vai ter essa oportunidade de participar de mesas de discussão sobre temas do seu universo, ver filmes, outras histórias e acredito que isso possa colaborar muito com sua vivência”.

Inicialmente, o projeto foi submetido ao edital de incentivo à cultura do Conselho Municipal de Cuiabá com o título “G de Gilmar”, o que enquadrava na sigla G de LGBTQ. “O filme-processo, se mostrou desconstruído, não impondo e nem fazendo juízo de nada”.

Fotos e um relato mais extenso da imersão podem ser conferidos no Instagram/filmemajur.

Ficha técnica

Direção, Câmera e Montagem: Rafael Irineu

Produção Executiva: Patricia Ribeiro

Ass. de Direção: Ayrton Senna

Som Direto: Matheus Lazarin e Isabelle Almeida

Making of: Cezar Rondon

Motorista: Nalme Mendonça

Finalização de Áudio: Matheus Lazarin

Colorização: Isabela Padilha

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