|terça, 22 maio 2018

    Festa de divórcio?

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    Sim, foi com indagação que recebi a notícia. Quem celebra algo que não deu certo? O casamento, no caso. Finalizar algo, para mim, envolve lágrimas, brigas e tumulto. Significa drama, muito drama. Não consigo pensar em algo pacífico ou até comemorativo quando se fala em terminar um relacionamento.

    Pois fui obrigada a repensar meu conceito. Ou preconceito.

    Nossos amigos, dos Estados Unidos, aproveitaram minha visita ao país e nos convidaram para a festa antes de assinarem o divórcio.

    “Acho que estou vivendo em outra época. Virei careta”, fiquei martelando na minha cabeça.

    E fui pesquisar.

    E não é que descobri que tais celebrações estão na moda? Virou bacana festejar o fim de um casamento.

    Existe até um livro sobre o assunto, que fiz questão de ler: A festa de divórcio, de Laura Dave. Nele, as coisas não são tão simples como parecem. Há um motivo secreto para o evento preparado por Gwyn Huntington, que vai se separar após 35 anos de casamento. Passada num único fim de semana, a obra mostra vários estágios dos relacionamentos dos membros da família. Alguns segredos são revelados, outros permanecem intactos. Dúvidas e certezas sobre o amor são pensadas e repensadas. E a grande questão: vale a pena celebrar o fim de uma união?

    Pois os personagens do livro e meus amigos estrangeiros decidiram que sim, vale a pena comemorar o divórcio.

    Cada um à sua maneira.

    Voltando à festa que fui, nada ostensivo. Apenas um jantar para os mais próximos e suas famílias.

    Não dá para dizer que tudo estava alegre e festivo. Havia um clima de despedida no ar. O pensamento de que aquela família nunca mais estaria junta, do jeito que a conheci, permaneceu em minha cabeça o tempo inteiro.

    O casal fez o máximo para mostrar civilidade (e que civilidade!). Escolheram e fizeram o jantar, decoraram a casa, pensaram em cada detalhe. Nenhuma briga. Nenhum olhar cruzado. Nenhuma indireta nem faísca saindo de um lado ou de outro.

    Eu me senti incomodada.

    Olhava para as crianças, pequenas. Será que entendem que é uma festa de despedida da família? Que talvez nunca mais sentem na mesa da casa que dividiam? Sim, em algumas semanas, cada um mudaria para seu canto, dividiriam o tempo com as filhos, talvez nunca mais celebrem uma ocasião juntos.

    Dei o meu melhor e fingi que achava tudo aquilo normal e possível. Tentei sentir o clima dos pequenos, mas acho que não entendiam o drama da ocasião.

    Assim que saí da casa, pude respirar aliviada. Podem me chamar de ultrapassada, mas, se um dia me divorciar, não farei uma celebração. Ainda que esteja saindo de algo que não deu certo, prefiro rir ou sofrer sem alarde. Não com uma festa.

    Assinatura Debora Nunes

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