Fernando Schuler: “Crise política não pode paralisar o país”

Agência Estado

Temer

Michel Temer durante pronunciamento no último sábado (20), em resposta às denúncias da JBS

Quando um governante se vê obrigado a vir a público e garantir que fica no cargo é porque suas chances reais de permanência são remotas. Se a promessa tem que ser reiterada dois dias depois, como fez o presidente Michel Temer na semana passada, pouco resta a fazer senão discutir como será a sucessão. E, em meio à turbulência política, a pauta das reformas trabalhista e da Previdência sofreu um inegável abalo no Congresso. Não são poucos os que apostam em um retorno à estaca zero. 

Para o cientista político Fernando Schuler, professor do Instituto Insper e colaborador do LIVRE, este seria o pior cenário possível para o país. “O governo é uma coisa, o Brasil é outra. Não é possível paralisar o país em razão da crise política. Do contrário, perdemos todos”, alerta.

Ele critica a condução da Lava Jato, em especial os “vazamentos seletivos” à imprensa, mas diz considerar que o episódio da JBS ao menos serviu para desmontar a alegação de que a investigação tinha como alvo o PT e seus líderes. “Foi-se a tese de que as investigações eram uma perseguição a Lula e ao PT. Isto é paradoxal: este episódio enfraquece a Lula. Pelo simples fato de que ele perdeu o argumento de que era um alvo preferencial da Justiça.”

O LIVRE – Diante de tudo o que foi revelado na delação da JBS, há argumentos capazes de sustentar a defesa do presidente Michel Temer?
Schuler – Este episódio mostra uma constrangedora fragilidade de nossas instituições. Um empresário notoriamente criminoso grava clandestinamente o presidente da República em sua residência oficial, em um episódio grotesco, e simplesmente não lhe acontece nada. Dias depois sai tranquilamente do país com a família. O episódio revela também uma falha ética do presidente Temer. O presidente simplesmente não poderia dar seguimento a uma conversa daquele teor, sob nenhuma circunstância. Sequer deveria ter recebido um empresário investigado, sem testemunhas, sem pauta pré-definida, naquelas circunstâncias. Penso que Temer sabe disso. Em terceiro lugar, há uma pergunta sem resposta: quem vazou esta gravação? Isto é crime. Um tipo de crime recorrente, no Brasil atual. Há inclusive uma pergunta a se fazer à imprensa: divulgar um delação que corre em segredo de justiça, fruto de um vazamento é criminoso, é uma conduta eticamente aceitável?

“Foi-se a tese de que as investigações eram uma perseguição a Lula e ao PT. Isto é paradoxal: este episódio enfraquece a Lula. Pelo simples fato de que ele perdeu o argumento de que era um alvo preferencial da Justiça.”

O LIVRE – O senhor acredita que Temer tenha força para se manter ou a base de apoio tende a se esfarelar?
Schuler – Temer tomou uma atitude firme desde o início da crise. Isto ajudou a evitar a debandada da base no Congresso. Apenas dois ministros saíram. O único partido que de fato rompeu foi o PSB, ainda que já estivesse praticamente fora por divergências com as reformas. O maior aliado do governo, hoje, é o PT. O radicalismo vazio da oposição ajuda o governo. A aposta de Temer é de que as crises vêm e vão, que a pauta política se renova, que novas delações surgirão e que este caso perderá força com o passar das semanas. É possível. Meu ponto é: por mais que o governo consiga retomar a agenda econômica e aprovar as reformas, a mancha ética ficará. É lamentável isto. Temer teve a chance de aprender com o caso Geddel. A função presidencial supõe uma liturgia. Um tipo de cuidado ético que o Presidente não teve, ainda que o episódio talvez não tenha força para provocar sua saída do poder.

O LIVRE – Como analisa a decisão de não renunciar?
Schuler – Um presidente acuado dificilmente agiria de outro modo. Renunciar, naquele primeiro momento, seria um tremendo ato de covardia. Há um detalhe, neste episódio todo, que as pessoas por vezes esquecem: o país passou 24 horas reagindo a uma “meia verdade”, qual seja, de que Temer havia explicitamente avalizado um pagamento para calar Eduardo Cunha. Isto não ocorreu, é só escutar a gravação. Isto não tira a gravidade ética da conversa toda, mas faz com que o Presidente tenha se sentido injustiçado. E logo com força moral para reagir. Não estou julgando, apenas tentando compreender a situação. O Presidente acredita ter um projeto para o País, nestes dois anos de governo. Tem uma agenda de reformas e vem conseguindo dar a volta por cima na economia. Em seu raciocínio, este episódio todo não passou de uma cilada, um conversa banal e sem sentido, na qual ele teve a ingenuidade de cair. De novo: não é esta a minha opinião. Mas consigo perceber o seu ponto de vista.

O LIVRE – É possível que um pedido de impeachment, como o feito pela OAB, prospere no Congresso? 
Schuler – A curto prazo, não acredito. Rodrigo Maia é um aliado de primeira hora de Temer. Não vejo, também, algo essencial para que um processo como este avance: a pressão da rua. É preciso lembrar que o impeachment de Dilma saiu por que mais de cinco milhões de pessoas foram às ruas em um domingo de março de 2016. Isto não existe, neste momento. A oposição ao governo também está envolvida com denúncias e processos até o pescoço. Lula está acuado. O PT está à deriva. Não há clima para mobilizações de massa. Nem sequer percebo a OAB realmente empenhada efetivamente neste processo. Surpresas, porém, podem acontecer.

“Por mais que o governo consiga retomar a agenda econômica e aprovar as reformas, a mancha ética ficará. É lamentável isto. A função presidencial supõe uma liturgia”

O LIVRE – Quais as consequências da crise para o andamento das reformas? Acredita que o “clima” possa permitir que haja votações neste ano?
Schuler – Acho que as reformas podem avançar, apesar de tudo. Em primeiro lugar, por que o governo sabe que esta é sua única e exclusiva possibilidade de retomada política. A reforma trabalhista necessita de maioria simples no Senado, e tem a liderança firme do senador Ricardo Ferraço e uma boa base de articulação do Governo. O PSDB está fechado com as reformas. Acho que a liderança do ministro Henrique Meirelles vem crescendo neste processo e vejo muita gente dizendo: o governo é uma coisa, o Brasil é outra. Não é possível paralisar o País em razão da crise política. Do contrário, perdemos todos.

Dida Sampaio/Agência Estado

Aécio Neves, senador do PSDB

 O senador Aécio Neves (MG) afastou-se da presidência do PSDB após o escândalo

O LIVRE –  E o PSDB, como seguirá adiante após as revelações envolvendo Aécio Neves?
Schuler – Penso que a carreira política de Aécio Neves está comprometida. Não digo que terminou, mas ele está destinado a ser um político menor. É quase inacreditável o que Aécio fez. E indesculpável. Envolveu sua irmã, tomou dinheiro em malas, de um empresário investigado e envolvido nos mais diversos tipos de delitos. E tudo isto em meio à operação Lava-Jato. Tudo isto beira ao surrealismo. Digo mais: o próprio PSDB sai ferido deste episódio. O partido deve explicações e, no mínimo, uma autocrítica e um pedido de desculpas ao país.

O LIVRE – Além dos indícios de corrupção, o que mais este episódio revela?
Schuler – Em primeiro lugar, que a Lava-Jato não tem partido. Foi-se a tese de que as investigações eram uma perseguição a Lula e ao PT. Isto é paradoxal: este episódio enfraquece a Lula. Pelo simples fato de que ele perdeu o argumento de que era um alvo preferencial da Justiça. Em segundo lugar, terminou o argumento de que a “grande imprensa” tinha lado. Não me recordo de ter visto um grupo de comunicação tão empenhado em derrubar um presidente como se viu nesta última semana. De qualquer modo, é um direito posto à liberdade de imprensa. Eu respeito isto e acho que isto faz parte da democracia, mesmo que preferisse uma imprensa mais cuidadosa. Há muitas lições. Nos últimos anos, nos orgulhamos da força e independência de nossas instituições jurídicas. Mas agora nos damos conta que a tática do “vazamento seletivo” se tornou praticamente uma regra. A imprensa tem gostado deste processo, pois ele gera boas manchetes, mas esta semana tivemos o vazamento do diálogo de um jornalista – Reinaldo Azevedo – e sua fonte, e pela primeira vez escutei setores da imprensa preocupados. É triste que seja assim, mas parece que só nos preocupamos com o arbítrio quando ele nos atinge.

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