Fazer missões é do “bem?”

O Evangelho não é uma ferramenta colonial, mas a mensagem sobre um Deus de amor que transcende diferenças humanas

Pregar ou não pregar o Evangelho para os povos do mundo? Missões hoje parece ser um conceito anacrônico, imbuído de um ranço patriarcal e colonialista. Levar justiça social talvez sim, mas pregar, anunciar a minha verdade como se fosse a única? Será que isso não é arrogância e abuso?

Em minha vida missionária tive muitas oportunidades de conhecer e experimentar culturas diferentes da minha. Meu paladar se expandiu para gostar de carnes dos mais diversos animais, moqueadas e cozidas, cobra frita e até a gloriosa sopa de tucano sem sal.

Mas, mais do que isto, meu coração entendeu diversas formas de vida e sociedade humanas. Existem muitas versões de como ser gente pelo mundo afora. Um monge budista na Tailândia tem dilemas diferentes de uma prostituta trans no mesmo país. Uma mãe de família Suruwahá com as obrigações sociais que a vida naquela sociedade minúscula impõe é bem diferente de uma mãe ribeirinha esposa de um seringueiro que mora na beira de algum afluente isolado do Amazonas, apesar de o ambiente na selva ser o mesmo.

Ser uma mulher na Noruega não é a mesma coisa que ser uma mulher americana, apesar da semelhança na afluência econômica e conforto dos dois países. Aprendi a amar essas diferenças às vezes sutis – e até as que pareciam ser tão intransponíveis quanto a muralha da China.

As culturas do mundo representavam para mim o amor e a criatividade de Deus. Respeitá-las era mais do que uma estratégia missionária efetiva. A contextualização da mensagem não era vista por mim e por meus colegas como uma ferramenta. Se fosse assim, perderia a virtude, seria apenas uma forma de manipulação.

Acreditávamos na beleza do Imago Dei, capaz de produzir as mais variadas versões de vida em sociedade. Podíamos ver expressões de pureza, justiça, misericórdia, sublimidade, transcendência nas mais diferentes práticas culturais. Esse sentimento de apreciação era um valor moral que devagar se transformou num axioma paradigmático. Nada que ferisse a integridade da cultura era aceitável como prática missionária.

A história de missões era lida como uma narrativa de uma sucessão de erros e abusos motivados pela associação inevitável dos missionários com o poder colonial cujo fim absoluto era destruir a expressão divina nestas culturas frágeis como um cristal. As culturas para mim não eram mais um aspecto da nossa humanidade, mas a humanidade em si mesma. Elas não eram mais um produto do Imago Dei, mas se tornaram um deus em si mesmas.

Minha vocação missionária sobrevivia nesse terreno pantanoso graças à pretensão de que iríamos corrigir os erros de outros. Com nossa juventude, capacidade e iluminação, desempenharíamos a mesma tarefa sem cometer os erros crassos das gerações anteriores.

Tropecei, porém, em um problema grave. Na medida em que eu conhecia as pessoas-alvo de minha missão, elas deixavam de ser exóticas para se tornarem gente. Meus amigos indígenas se tornaram pessoas, homens e mulheres não diferentes de mim. Na selva pelados, cobertos por uma burqa ou envelopados num manto laranja. Suas dores começaram a ser profundamente familiares para mim.

Quando a voz da muçulmana se fazia ouvir atrás da gradinha de tecido que lhe cobria a boca, eu não ouvia a exoticidade do islã, mas a garota de 17 anos cheia de curiosidade tentando fazer referências amáveis a respeito do Brasil. Sua hesitação, timidez e olhos baixos me contaram histórias que me fizeram chorar.

Agora, o que fazer? As culturas são compostas de gente. As expressões culturais antes idolatradas me pareciam agora opressão e escravidão. As pessoas dentro dela, tanto quanto eu, eram capazes de sentir um abuso como abuso. A cultura lhes feria a carne, travesti-la de palavras que a distanciam de minha experiência não ajudava. Culturas contêm em seu tecido injustiças, distorções cruéis sobre o valor do ser humano, sobre a relação homem, mulher, indivíduo e sociedade.

Eu tinha que tomar uma decisão. Ou eu ignorava a humanidade dos povos e continuava a idolatrar a cultura como um deus, colocando-a acima da necessidade que o povo tinha do Evangelho, ou me arrependia do meu pecado, renunciava ao fanatismo ideológico e voltava ao Evangelho que me deixava humilde diante de Deus e da história. Escolhi a última opção.

O Evangelho não é uma ferramenta colonial, mas a mensagem sobre um Deus de amor que transcende diferenças humanas e é capaz de comunicar esperança e vida a todos os corações. Todos nós, seres humanos, precisamos da reconciliação com Deus e com os valores culturais do Reino oferecidos pelo Evangelho, porque todos, sem exceção, pecamos e carecemos de Sua glória.

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*Publicado originalmente na Revista Ultimato, Edição 369, 2018

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