O LIVRE teve acesso aos bastidores de um dos maiores escândalos imobiliários de Mato Grosso: o caso da Secolo Negócios Imobiliários. As irmãs Rosana Maria da Silva Seccolo e Márcia Seccolo, apontadas como responsáveis por um esquema de loteamento clandestino, estão desaparecidas e acumulam mais de 600 processos movidos por famílias lesadas.
Documentos obtidos pela reportagem revelam que, desde 2021, a Justiça determinou a paralisação imediata das atividades da empresa, após ação do Ministério Público. Mesmo assim, as golpistas ignoraram as ordens, liquidaram patrimônio e deixaram consumidores sem resposta. Em setembro de 2025, novamente, a Justiça marcou audiência de conciliação — mas as proprietárias sequer apareceram.
O golpe
As empresárias criaram um condomínio ilegal às margens do rio e, mesmo cientes da irregularidade, venderam terrenos para centenas de famílias. Como era esperado, o Ministério Público embargou a obra e determinou que as supostas empresárias indenizassem os compradores.
Entretanto, as duas sumiram com o dinheiro, e o caso segue há mais de quatro anos sem qualquer resposta efetiva da Justiça. Apesar de terem perdido centenas de processos e nunca indenizado uma única vítima, Rosana e Márcia continuam escapando do alcance da lei.
Processo sem fim
Enquanto isso, moradores que compraram terrenos no “Paraíso dos Ipês” e em outros empreendimentos seguem sem escritura, sem infraestrutura e sem perspectiva de reparação. Os relatos anexados aos autos apontam falhas ambientais graves, risco de desabamento e completa ausência de segurança jurídica.
Mais crimes
Apesar dos embargos, as práticas ilegais não pararam. Em novembro de 2021, uma fiscalização conjunta da Delegacia do Consumidor (Decon) e do Procon Estadual flagrou a venda irregular de chácaras de recreio às margens do Rio Coxipó do Ouro, em Cuiabá.
Na ação, os fiscais encontraram um evento de vendas com direito a chope e petiscos de graça para atrair clientes. Lotes eram oferecidos por valores entre R$ 5,9 mil e R$ 8,9 mil, variando conforme a proximidade com o rio.
Segundo os órgãos públicos, a imobiliária e a construtora responsáveis já tinham três empreendimentos embargados na mesma região pela Secretaria de Meio Ambiente (Sema) e pelo Judiciário. A suspeita era de propaganda enganosa e de que os terrenos estariam sendo fracionados ilegalmente para burlar a legislação ambiental.
Contratos, recibos e até pagamentos em cartão foram apreendidos no local. As irregularidades levantaram suspeitas de crimes contra as relações de consumo e de crime ambiental, com pena de até cinco anos de prisão.
Muitos crimes, mas sem mandado de prisão
A revolta é ainda maior porque, apesar da gravidade, nenhum mandado de prisão foi expedido contra Rosana e Márcia. A Justiça Estadual alega não conseguir localizá-las, e os processos acabam extintos sem execução. O resultado é um rastro de famílias enganadas e a sensação de impunidade.
Especialistas ouvidos pelo LIVRE defendem que o caso já deveria ter migrado da esfera cível para o campo criminal. “São anos de descumprimento de ordens judiciais. Não estamos diante de simples irregularidades, mas de um golpe contra centenas de famílias”, afirma um advogado que acompanha as vítimas.
Outro lado
O LIVRE tentou contato com as responsáveis, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto, mesmo após a publicação da reportagem.





