Ex-secretário Paulo Brustolin declara em cartório que teme por sua segurança

Segundo Brustolin, o empresário Alan Malouf, apontado como líder de um esquema de desvio recursos da Seduc, estava magoado e mentiu em delação

(Foto: Arquivo/Gcom-MT)

O ex-secretário de Fazenda de Mato Grosso Paulo Brustolin procurou um cartório para registrar uma escritura pública declaratória em que afirma que os fatos narrados pelo empresário Alan Malouf em seu acordo de colaboração premiada, firmado com a Procuradoria-Geral da República (PRG), são falsos.

A declaração foi registrada no 19º Tabelionato de Notas de São Paulo – Cartório Toledo – no dia 31 de outubro de 2018, mas veio à tona apenas agora. À tabeliã, ele afirmou que “teme por sua integridade e segurança”, e que teve sua família ameaçada em razão dos “interesses de poderosos que contrariou em Mato Grosso”.

Em sua declaração, o ex-secretário desmente o termo 15 da delação de Malouf, no qual o empresário, tido como o líder do esquema que desviou recursos da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), cita o envolvimento do ex-secretário de Estado de Segurança Pública Fábio Galindo.

De acordo com a escritura do ex-secretário, Alan Malouf teria mentido sobre a participação de Galindo no esquema, por estar chateado com ele. Na época das investigações, que eram conduzidas pelo Grupo de Atuação Especial Contra o Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público do Estado (MPE), Galindo também era promotor de Justiça e teria se recusado a “interceder” pelo colega.

A declaração é totalmente contrária ao que alegou Alan Malouf. Segundo delatou o empresário, o ex-promotor de Justiça teria lhe cobrado R$ 3 milhões para ajudar a “blindá-lo” nas investigações do esquema. Diz no anexo XV da delação que Galindo teria inclusive informado ser “muito próximo” do promotor Marco Aurélio, que conduzia o caso, e de Selma Arruda, então juíza da 7ª Vara Criminal de Cuiabá, onde corria uma ação penal sobre o esquema.

Conforme Brustolin, depois que deixou o MPE e o governo do Estado, Fábio Galindo teria cortado relações com todos em Mato Grosso, tendo mantido contato apenas com ele. Por isso, o empresário tinha dificuldades em falar com Galindo e insistia para que Brustolin fizesse o “meio de campo”.

Depois de muita insistência, o ex-secretário de Fazenda teria conseguido marcar um café com Galindo e Malouf em seu apartamento, no bairro Popular, em Cuiabá. Nesse encontro, o suposto chefe do esquema se revelou aflito diante das investigações movidas pelo Gaeco. Isso porque, na época, o ex-secretário da Seduc, Permínio Pinto, já tinha sido preso, alvo da segunda fase da Operação Rêmora.

Consta na declaração de Brustolin que, inicialmente, Alan Malouf se colocou como inocente, e afirmou que temia ser incluído no esquema “injustamente”, uma vez que uma das pessoas que haviam sido presas pelo Gaeco era o empresário Giovani Guizardi, que é casado com a prima de Malouf. (Mais tarde, o próprio Guizardi se tornaria delator do esquema e apontaria Alan Malouf como o chefe).

Ainda naquela reunião, revelou Brustolin, Galindo teria orientado Alan Malouf a “fazer o certo”. Ou seja, se tivesse, de fato, participação no esquema, deveria procurar o Ministério Público para delatar o caso. No entanto, se fosse inocente, também deveria procurar as autoridades para esclarecer suas angústias.

De acordo com Brustolin, passaram-se alguns meses até Malouf voltar a insistir em uma conversa com Galindo. Na ocasião, que teria sido em outubro de 2016, o empresário pediu para que o ex-secretário de Fazenda fizesse uma proposta à Galindo: que voltasse a Mato Grosso para advogar, que cuidasse do seu caso e, em troca, receberia 100 salários de promotor de justiça, como “garantia contratual”. No entanto, a proposta teria sido recusada.

O ex-secretário alegou em cartório que Alan Malouf teria entendido a posição de Galindo, mas que, ainda assim, pediu para ter um encontro pessoalmente, apenas para “ter uma orientação, porque estava disposto a fazer delação”.

Entretanto, Brustolin revela que, depois de muita insistência dele próprio, Galindo aceitou se encontrar com o empresário – o que teria acontecido em uma cafeteria em Brasília, porque “Alan estava sozinho e angustiado, mas querendo fazer a coisa certa (colaboração)”.

Ainda conforme o ex-secretário, depois do encontro, Malouf teria lhe telefonado, via Whatsapp, “e se mostrou claramente chateado e magoado com Fábio, dizendo que Fábio o orientou a fazer a delação no Gaeco, mas disse que não iria ajudar nem conversar com ninguém, que iria ficar fora disso”.

Ao final, o próprio Brustolin teria pedido para que o empresário não envolvesse mais nenhum dos dois na situação e que, inclusive, parasse de o procurar.

Em cartório, o ex-secretário ainda afirmou que acredita que Alan Malouf culpa Fábio Galindo por sua prisão, que aconteceu em dezembro de 2016, e que está disposto a ratificar o depoimento em juízo.

Operação Rêmora

Apontado como líder, o empresário Alan Malouf passou 10 dias preso em dezembro de 2016, alvo da Operação Grão Vizir. A ação foi o terceiro desdobramento da Operação Rêmora, deflagrada pelo Gaeco em maio daquele ano. À época, o Gaeco era coordenado pelo promotor Marco Aurélio e a operação foi autorizada pela juíza Selma Arruda. Ainda como juíza, ela acatou a denúncia do Ministério Público contra o empresário, que acabou condenado a 11 anos de prisão.

Na delação, homologada em 2018, Malouf confessou ter participado do esquema de fraudes em obras de escolas estaduais para ter retorno do dinheiro que investiu no suposto “caixa dois” da campanha de Pedro Taques (PSDB) ao governo nas eleições de 2014.

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