“Eu não sei onde ele está, mas ele sabe onde eu estou e onde eu trabalho”

Desde outubro, uma equipe treinada do 1º Comando da Polícia Militar protege mulheres de seus ex-maridos: é a Patrulha Maria da Penha

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

“O dia 28 de julho foi tenebroso”. O ano era 2017 e Patrícia (nome fictício) finalmente havia tomado coragem para ligar para a polícia. Ela não viu e nem ouviu quando a viatura chegou. Estava trancada no quarto. Sua fraca audição, naquela época já comprometida por uma esclerose que se manifestou anos antes, no período de auge das agressões que ela sofria diariamente, por pouco não colaborou para que Henrique (nome também fictício) conseguisse se livrar dos policiais antes que ela chegasse até eles.

“Eu abri a porta do quarto na coragem e na fé. Vi o giroflex da polícia. Quando saí, eles já estavam indo embora. Eu acenei e ele [Henrique] veio na minha direção. Sinto até agora o peso da mão dele”, ela conta, dizendo que foi abraçada pelo, hoje, ex-marido. “Entra amor, está tudo bem. Eu já falei para eles que não é aqui”, ele disse, gentilmente. “Mas eu gritei!”, ela completa.

O alívio que Patrícia sentiu quando falou pela primeira vez com uma autoridade policial sobre as agressões que vinha sofrendo nos últimos 20 anos ainda estava presente na voz dela, quando contou sua história à reportagem do LIVRE.

Mas o medo e a sensação de insegurança só diminuiriam um ano mais tarde, com outra visita da Polícia Militar. Dessa vez, a da Patrulha Maria da Penha, uma equipe especializada e que faria valer o que estava escrito na decisão judicial que Patrícia carrega até hoje consigo: Henrique não pode mais se aproximar dela.

Apanhar para não morrer

Até então, Patrícia acreditava que manter o casamento era a forma mais garantida de não parar no “noticiário policial”, um de seus maiores medos. “Eu sempre falava para minha filha que, meu inimigo, eu tinha que ter perto de mim, para conseguir vê-lo”.

Sempre que a agredia, Henrique dizia que, ainda que fosse preso, estaria livre no dia seguinte e voltaria para matá-la. “Minha mãe já me disse uma vez: ‘como que você acreditava nisso?’. Ela não viu o que eu vi. Eu já senti a morte. Eu já vi a arma”.

Patrícia também viu essa ameaça se tornar realidade logo na manhã seguinte à primeira visita da PM à casa onde os dois moravam. “Eu voltei [da delegacia] para casa às 5 horas da manhã. Às 7h30, ele estava lá na minha porta gritando. Soltaram ele porque eu não o representei criminalmente, apenas prestei queixa. É quando você perde toda credibilidade”.

Henrique não tentou matar Patrícia nessa ocasião, mas cumpriu outra ameaça constante. Foi levado pelo filho – fruto de um relacionamento anterior – e, meses mais tarde, ingressou com uma ação judicial contra ela. O processo que tramita na Vara Cível cobra o pagamento de pensão e pede a guarda da filha mais nova do casal, que tem apenas 9 anos.

“O filho dele levou ele embora como se ele fosse a vítima e eu fosse a ruim da história”, ela lamenta. “A gente sofre julgamentos. Quando você não toma uma decisão é porque você é fraca, você gosta. Quando você toma, você também sofre, porque a maioria das pessoas não conhece toda a história e você pode ser taxada como vilã”.

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre) (Arte: Felipe Martins / O Livre)

Primeiro a vergonha

Patrícia apanhou durante 20 anos porque sentia medo e vergonha. “O fato de eu ser muito mais nova do que ele levava as pessoas a acharem que eu era uma golpista qualquer. Naquele momento, ele usufruía de uma condição financeira um pouco privilegiada. Isso dava mais poder a ele sobre a minha vida”.

Em 1997, ano em que eles se conheceram, Henrique, então com 34 anos, era um dos sócios da empresa onde Patrícia, que tinha 18, trabalhava. Já divorciado, ele tomou a iniciativa e não demorou até que o namoro evoluísse para uma vida matrimonial. “Até então, ele era extremamente gentil, sorridente, uma pessoa generosa e preocupada com o meu futuro”. Mas também não demorou para que os primeiros sinais de agressão surgissem.

“Na primeira vez, ele criou uma situação sobre uma conversa comum, que nós tivemos uma noite, num jantar. Era sobre quantos namorados eu tive e o que eu fazia com eles, se eu tinha ‘ido além’. Essa é a primeira memória que eu tenho de um surto dele. Um surto desses de quebrar a casa toda; de se sentar na beira da janela do apartamento no quinto andar, dizer que ia se jogar e que a culpa era minha”.

Henrique se dizia “envergonhado” porque Patrícia havia revelado, meses antes, quando os dois ainda eram namorados, que ele não tinha sido o primeiro homem da vida dela. “Ele falava que não sabia onde poderia andar em Cuiabá sem que as pessoas rissem da cara dele, porque eu já tinha… Isso foi logo nos primeiros 15 dias [de convivência]. Eu não tive coragem e não tive noção de como aquilo se transformaria em um mal para a minha vida”.

No mesmo ano, a violência despejada sobre os móveis da casa onde eles viviam se voltou contra Patrícia. “Começaram as primeiras agressões, como apertar meu braço, puxar meu cabelo, machucar a minha orelha. E isso não acontecia uma vez a cada dois meses. Isso acontecia praticamente todos os dias, de todas as semanas”.

“Ele já tinha tido dois relacionamentos anteriores e tinha três filhos. Dois dos filhos dele vinham para minha casa passear e eu tinha que implorar para essas crianças ficarem mais. Era a única forma de conter um pouco a violência”.

Depois o medo

A gravidez foi outro fator que prendeu Patrícia ao que ela chama de “ciclo doentio”. Era 1998 e ela havia descoberto que o marido era usuário de drogas. Henrique não acompanhou a gestão da primeira filha por conta do vício. Passou o período todo internado em clínicas de recuperação.

Patrícia também não aproveitou a maternidade. Foi acusada de traição, chegou a voltar para casa da mãe. Quando sua filha estava prestes a completar a um ano, Henrique voltou “recuperado”, prometendo mudanças. Agora, ele frequentava a igreja.

“Eu sentia uma vergonha muito grande da minha situação e uma responsabilidade maior ainda. Eu queria que a minha filha tivesse um lar. Eu acreditei nele e voltei. Foi quando começou a realidade. E eu falo realidade porque ele não estava mais sob o efeito da droga e, mesmo assim, ele era um monstro”.

“Batia na cara, puxava meu cabelo até sair chumaço da minha cabeça, cortava minha língua, cortou meu lábio por dentro. Ele inventava situações e me fazia confessar. Era um torturador. Me fez confessar coisas que eu nunca tinha feito na vida. Eu vivi esse terror por muitos anos”.

Henrique atacava Patrícia também psicologicamente. Ressaltava sua relativa influência na sociedade para convencê-la de que ninguém acreditaria se ela o denunciasse. Citava particularidades da família dela, como o fato de os pais serem divorciados e de que o único irmão tinha somente 8 anos de idade, como fatores que a colocavam em situação de vulnerabilidade.

“Quando eu falava para ele parar de me machucar, ele respondia: ‘quem você vai mandar para me pegar? O viadinho do seu irmão? Ou aquele banana do seu pai?’. Eu não tinha coragem de falar para ninguém”, ela lembra. “A tortura psicológica tinha muito mais peso, muito mais dor na minha alma do que os tapas que ele me dava. Eu não colocava mais determinadas roupas. Pensava: quando ele me bateu eu estava com essa camiseta. Achava que aquela roupa me trazia azar. Ele quase me levou à loucura”.

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre) (Arte: Felipe Martins / O Livre)

O estopim

Em 2009, Patrícia engravidou novamente, segundo ela, porque Henrique a forçava a manter relações sexuais com ele. “Eu me sentia um lixo, suja, podre, asquerosa”. A essa altura, ela já não tinha mais esperança de, um dia, ver-se livre do marido.

“É insalubre viver com uma pessoa agressiva. Eu cheguei a um ponto que achava que ia morrer ali, naquele labirinto; então, não adiantava nada, eu ia só tocar a vida como dava”.

A rotina de Patrícia, nessa época já servidora pública concursada, incluía bancar as despesas da casa e das filhas sozinha. Henrique não trabalhava mais e gastava parte do tempo livre ligando para o trabalho da esposa para constrangê-la e ameaçá-la.

“A gente sente vergonha. Vergonha dos nossos pais, da família, da sociedade. Ele falava que ia me destruir no meu trabalho, que ele ia começar a gritar lá dentro. Eu acreditava em tudo isso. Eu não tinha coragem, porque eu via que as pessoas pouco se importavam. Essa é a verdade. As pessoas pouco se importam, elas são só curiosas. Isso é uma triste realidade”.

Em um desses dias, a filha mais velha de Patrícia foi quem ligou. O pai havia criado uma confusão em uma farmácia e o proprietário ameaçava chamar a polícia. “Eu falei para ela: ‘deixar ele chamar’. Ela me perguntou porque eu não fazia nada. Eu respondi: ‘calma, estou tentando deixar a situação segura para nós’. Ela me disse: ‘segura? Você vai acabar com a nossa vida’. Aquilo soou como um tapa na minha cara. Foi o estopim”.

Patrícia ainda precisou de 20 dias para tomar coragem e ligar para a polícia. No dia 28 de julho de 2017, Henrique teve mais um surto. Por orientação do filho dele, que é policial militar, ela se trancou no quarto e pediu ajuda. Até hoje, Patrícia espera que a representação criminal – que ela registrou depois que o marido voltou para casa na manhã seguinte – se transforme em um processo penal, para que ele seja julgado pelos crimes que cometeu.

Independentemente disso, a Patrulha Maria Penha acompanha os passos dela, sabe onde Henrique mora atualmente e trabalha, para mantê-lo longe.

“Eu tenho a medida protetiva. Ela está vigente por três anos e eu vou renovar cada vez que eu achar necessário. Quando me falaram da Patrulha, eu não tinha ideia de qual era o trabalho deles até a gente ter uma longa conversa e eu perceber qual a função deles, nessa situação de perigo. Eu não sei onde ele está, mas ele sabe onde eu estou, sabe a placa do meu carro e sabe onde eu trabalho”.

2º tenente da Polícia Militar, Denyse Pereira Valadão Alves, é uma das integrantes da Patrulha Maria da Penha (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

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