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Em 1930, Cuiabá recebia um visitante ilustre. Criador da consagrada obra Sítio do Pica-Pau Amarelo, Monteiro Lobato se surpreendeu com o cenário que viu. “A distância faz de Cuiabá uma ilha de urbanismo no Pantanal sem fim”. Ao que parece, a constatação resulta das impressões que teve a partir da interação com seus moradores. “A elite de Cuiabá é muito fina. Cuida bastante da educação. Abundam homens de linda cultura, até filosófica”.

Se em pleno século 21 há quem duvide do progresso da cidade e sua urbanidade e até quem acredite que jacarés e onças são domesticados feito bichos de estimação, imagine no início do século 20.

Ao certo que a avaliação de Lobato tenha gerado boa repercussão, pois revisitando a história – focada especialmente na abordagem do desenvolvimento da cidade -, podemos notar que os fantasmas do suposto isolamento, estagnação e da falta de conhecimento por séculos atormentaram a população, sempre esperançosa pelo futuro iminente.

A modernização e seus símbolos, como uma arquitetura adequada aos novos tempos, bens de consumo e velocidade alcançada por meios de comunicação e transporte, eram desejados como sinal de progresso. Por um longo tempo, trava-se um verdadeiro combate em oposição ao estigma de um lugar distante, atrasado, não somente em relação aos grandes centros do Sudeste, mas também em relação ao mundo.

O transporte, a propósito, sempre foi um grande gargalo. E o trem, um grande fetiche. Lá se vão 166 anos à espera do trem: o primeiro projeto é de 1852. Não dá para dizer que Cuiabá não chegou perto. Em 2013, a população viu passar pelas ruas os primeiros vagões do tão sonhado VLT. Os trilhos começaram a ser instalados no ano seguinte.

Hoje os vagões se deterioram e alguns trilhos se integram à paisagem urbana em alguns trechos da cidade. O resultado é uma intervenção (artística?) de mau-gosto, que maltrata os olhos e fere o orgulho dos cuiabanos. Assemelha-se bastante à infinidade de monumentos a céu aberto que se tornaram os materiais de construção que chegaram à beira da Cuiabá-Santarém e que atualmente se confundem à paisagem amazônica.

Mas tudo bem, afinal, o aeroporto internacional começou a ser edificado em 1920 e ainda está inacabado.

Vista aérea da Cuiabá de 1960

À espera do trem

Segundo o membro da Academia Mato-Grossense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico, Fernando Tadeu de Miranda Borges, o primeiro registro histórico de uma série de retomadas a que ele conceitua como reinvenções da cidade, foi em 1830. A economia baseada no ouro tem um declínio quando o metal acaba. Cuiabá se reinventa com a produção de bens e comércio de pequenos itens. Um tempo depois, em 1852, o Barão de Caçapava sugeriu um projeto que, enfim, ligaria a Corte a Cuiabá, um sonho bastante cultivado à época. “Foi a primeira proposta de um trem”.

Em 1902, outros inúmeros projetos de ferrovias chamaram a atenção. “Ele estava quase chegando por aqui, quando a rota foi desviada para Campo Grande”. Já o sonho da Ferronorte começa em 1920. Esse desejo contido aflorou o surgimento de ferrenhos defensores, caso da jornalista Maria Dimpina, articulista da Revista Violeta, de 1916 a 1952.

“Ela dedicou todos os dias da vida dela para trazer o trem para Cuiabá. Muitas vezes, usou suas crônicas para reclamar dos problemas que vieram com a urbanização”, diz Fernando. No século 20, pró-Ferronorte, batalharam Vicente Vuolo e Domingos Iglesias, entre outros. Sobre o futuro? “Não dá para precisar se o trem vai chegar. Mas estamos à espera do trem de ferro, da saúde, da educação, do transporte público, do emprego. São muitos trens dentro deste trem. Só sei que, como cuiabano, representante da América Latina, sempre sonho. Nós nunca perdemos a esperança”.

Em 1852, o Barão de Caçapava sugeriu um projeto que, enfim, ligaria a Corte a Cuiabá, um sonho bastante cultivado à época

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Era o número de moradores em 1727 que constam em registros históricos
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andares tinha o primeiro "arranha-céu", inaugurado em 1956
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Neste ano, em todo Brasil, maior consumo per capita de Coca-Cola pertence a Cuiabá
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Índice de crescimento demográfico na década de 1980

Importação e exportação – A origem

Sonhos à parte, a cidade teve que ir se reinventando em meio às adversidades. “Hoje tudo é instantâneo, mas claro, não foi sempre assim. Uma situação muito reclamada, presente até mesmo nos relatórios dos presidentes da capitanias e província, eram a situação das vias de comunicação da cidade”. Enfim, nos idos de 1870, com o fim da Guerra do Paraguai, houve a reabertura da navegação pelo Rio Paraguai. O porto de Cuiabá entra na rota de importação e exportação. O Governo Central assegura recursos para a região e começamos a exportar poaia, borracha e erva-mate, a partir de 1883. De 1890 a 1914, a pecuária ainda é fraca, mas a exportação de charque ganha vulto, especialmente pela permanência dos paraguaios no pós-guerra.

Primeiras obras

O primeiro grande sonho de modernidade se consolidou com as primeiras reformas urbanas da capital. A Residência dos Governadores, o Cine Teatro e alguns prédios da administração estadual surgem entre os anos de 1930 e 1940. De acordo com pesquisas da historiadora Nathália da Costa Amedi, nesse período teve início a primeira movimentação de ocupação e colonização de terras, políticas públicas efetivadas no Governo de Getúlio Vargas para preencher o vazio demográfico da região.

Fernando Tadeu concorda, e destaca que no período do Estado Novo, de 1937 a 1945, há um momento de renovação da cidade por conta do prestígio do interventor Júlio Muller, junto a Vargas. Também surgem aí o Abrigo dos Velhos, o Liceu Cuiabano e a Ponte Cuiabá – Várzea Grande. “Foi um momento de forte intervenção na estrutura urbana”.

Intensificação da interiorização

Entre os anos de 1960 e 1970, intensificou-se a política governamental de ocupação da Amazônia, com avanço da frente agrícola. Cuiabá é rota principal do movimento de ocupação e expansão das frentes pioneiras de colonização do Centro Oeste e da Amazônia. Em função disso, Governo Federal e Estadual se uniram para garantir infraestrutura para essa finalidade. De acordo com a historiadora Márcia Bonfim, no livro As Engrenagens da Cidade, “nesse processo de maior inserção da cidade na dinâmica do capital foram construídos altos prédios e grandes avenidas, criado um mercado consumidor para atender a demanda de produtos oferecidos por grandes empresas, estabelecidas sinalização, leis e normas de trânsito. O objetivo principal era permitir o fluxo rápido, facilitar a comunicação, criar um ambiente propício à produção.

Com a criação da universidade, em 1970, investia-se em uma outra perspectiva, a do capital intelectual. “A universidade da Selva formaria recursos humanos para essa região e possibilitaria conhecimento científico”, diz Nathália. Já Fernando Tadeu, realça que a criação da universidade trouxe oportunidade àqueles que não tinham condições e perspectivas de ir para longe. “Gabriel Novis Neves dizia: ‘essa universidade nasce para que o filho do pedreiro, que se não quiser ser pedreiro, possa ser o que bem quiser’”.

Em 1968, para dar lugar a uma igreja mais moderna, a catedral foi demolida. E é assim que, pela primeira vez, a necessidade de preservação do patrimônio histórico é colocada em questão. Começa uma movimentação cultural. Isto significou investir na modernização da cidade através de, entre outras coisas, construção de uma arquitetura moderna.

De acordo com a historiadora Márcia Bonfim, no livro As Engrenagens da Cidade, “nesse processo de maior inserção da cidade na dinâmica do capital foram construídos altos prédios e grandes avenidas, criado um mercado consumidor para atender a demanda de produtos oferecidos por grandes empresas, estabelecidas sinalização, leis e normas de trânsito

Avanço demográfico

O cenário que colocou Mato Grosso dentre os maiores produtos de grãos, se constituiu entre os anos de 1970 e 1980. Foi no período que começaram a surgir também o Centro Político Administrativo e os primeiros núcleos habitacionais. Intensificou-se também o processo de verticalização da cidade. Em 1979, a Rodoviária Cássio Veiga também é inaugurada. “E a cultura é consagrada como o veículo mais perfeito da expressão cuiabana”. O cotidiano da cidade povoava as obras de artes da geração de expoentes das artes visuais mato-grossenses.

Foi na década de 1980 também, que Cuiabá registrou uma das mais altas taxas de crescimento populacional segundo a pesquisadora Nathália Amedi, com índice de 136,25%

Foi na década de 1980 também, que Cuiabá registrou uma das mais altas taxas de crescimento populacional segundo a pesquisadora Nathália Amedi, com índice de 136,25%.

Já a historiadora Márcia Bonfim destaca que “havia um clima de incerteza quanto ao futuro que já não parecia tão promissor”. Como para alguns a tentativa de colonização não se efetivou, “Cuiabá, como lugar de passagem havia se tornado um entreposto de migrantes pobres, desempregados e famintos. Grupos sociais vindos de sobretudo da região nordeste e sudeste, faziam da cidade, com suas práticas e costumes, um espaço cada vez mais híbrido. A ideia de uma cultura híbrida parecia algo impossível, por isso criaram-se centros de tradições gaúchas, nordestinas e cuiabanas”, aponta.

Nos anos 80, a configuração espacial de Cuiabá havia mudado e, além do CPA, apareceram vários bairros populosos que eram praticamente novas pequenas cidades, contando com serviços e comércios antes oferecidos apenas no Centro. No período, o discurso de modernidade ganhou ares monumentais, segundo Márcia Bonfim. Construções se espalharam pela cidade, como o Anel Viário e seus viadutos. De outro lado, a presença de imigrantes começa a ter efeitos em consonância com o crescimento desordenado.

“Na imprensa dos anos 80, Cuiabá era uma cidade invadida, no Centro pelo comércio informal, na periferia pelos sem-teto. (…) O desenvolvimento de Cuiabá estaria fugindo do controle. A expansão estaria acontecendo de forma desordenada tendo em vista o aumento considerável no número de favelas que surgiam, através de invasões de propriedades na cidade. Para contê-las é que nascem os conjuntos habitacionais”, como é o caso do CPA 1, 2 e 3, além dos bairros Pedra 90 e Coophamil – e o município seguiu entregando títulos de áreas desapropriadas.

Já na década de 1990, segundo a autora, houve a consolidação do Centro Político Administrativo e a finalização do processo de tombamento do Centro Histórico.

Nos anos 2000, já se sabe. O cuiabano pensa em 2009 que, com a Copa do Mundo de 2014, agora vai! Disputando o posto de sede da Copa com a histórica rival Campo Grande, como diz a historiadora Nathália Amedi, vê a reedição de suas antigas feridas. A disputa que já se acirrava na década de 1970 à ocasião da divisão do Estado se acentuou com o impasse sobre qual das duas capitais sediaria a Copa. Políticos das duas cidades lançaram-se em articulações políticas em nível federal, campanhas publicitárias e ataques na imprensa. Tudo para se inserir na rota global. Depois de sagrar-se vencedora, a população pensou que Cuiabá estaria ainda mais próxima de se tornar aquela sonhada cidade moderna, próspera e globalizada. Mas continuamos à espera do trem.

Por fim: A cidade pode se reconhecer moderna por outros vieses. Pode investir em mais arte, em mais cultura, em uma outra narrativa de modernidade. Isso sim parece possível. “Cuiabá é uma cidade com muito potencial, que se abriu economicamente falando – especialmente no setor de prestação de serviços – e que tem muita força em sua cultura. Esta, por sua vez, traz elementos do cotidiano e vivências na cidade através da arte, ocupando o espaço público e fazendo dela um espaço de resistência política através da poesia”. A historiadora considera importante a necessidade de investir em políticas públicas que beneficiem o cidadão para que todos se sintam parte da cidade, saúde, educação, lazer. Uma cidade de todos e de todas as classes”.

Para Nathália, se as obras não forem para ser utilizadas pelos cidadãos, não têm sentido. “É bonito ver os jovens ocupando espaços, como a Praça da Mandioca, jovens que utilizam as manifestações artísticas com tom mais politizado, como ocorre nas batalhas de rima, e as iniciativas do pessoal do Slam do Capim Xeroso, a exemplo. Uma movimentação que ocupa também, a Praça Alencastro. O poder público precisa investir em mais áreas de convivência. A cidade está sendo punida pela incompetência do poder público”, avalia a historiadora.

“É preciso levar a população para os museus, para os arquivos públicos. Estes espaços devem ser acessíveis a todos, como uma forma de educação patrimonial de jovens, adultos e crianças. Esses ‘lugares de memória’ devem ser conhecidos e vivenciados como espaços educativos da história e da identidade cuiabana (re)significada”, diz ela. E Fernando Tadeu ressalta: “e os livros de autores regionais devem ser inseridos nas disciplinas da grade curricular. E ressalto, como literatura brasileira, como geografia do Brasil, como História do Brasil”. Precisamos dar valor de fato, aos cuidados de nossa memória e refletir o futuro a partir de nossa história. Precisamos refletir sobre ela e não apenas pensá-la não como uma aba, como algo descolado do resto do Brasil. O que a Cuiabá do futuro pergunta para a Cuiabá do presente? “Como você cuida da sua memória? O que você aprende com seu passado?”. Ou algo assim.

__ Foram utilizados como fonte de pesquisa, artigos de Nathália da Costa Amedi: “A cidade (res)significada: a ideologia de modernização de Cuiabá no período pós-divisão do Estado de Mato Grosso” e “A cidade in(conclusa): Cuiabá, a Copa do Mundo de 2014 e a eterna espera pela modernização” e o livro de Márcia Bomfim: “As engrenagens na cidade”.
Fotos reproduzidas do acervo do Arquivo Público de Mato Grosso e Acervo CedocMFM/SES
Mostrando 4 comentários
  • Ricarte de Freitas
    Responder

    Bela matéria! Parabéns!

  • Carlos Antonio
    Responder

    Tá na lembrança de quem foi menino e hoje já é idoso.

  • Diogo Marcondes
    Responder

    Baita materiaa ✔

  • Nicolau Budib
    Responder

    Muito bom….muito bom mesmo….Parabéns.

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