Escassez de soro antiofídico faz pacientes picados contarem com a sorte

Doses são concentradas nas cidades-polo e transportadas em caso de necessidade, o que compromete minutos preciosos

O aposentado Amarílio Opena de Aguiar, 73 anos, esteve à beira da morte. Ele foi picado por uma cascavel, correu até o posto de saúde da cidade onde morava, São Pedro da Cipa, e foi tomado pelo desespero ao descobrir que não havia soro antiofídico.

A partir daquele momento, Aguiar começou uma peregrinação em busca de doses para completar o total necessário. Passou por Jaciara, onde conseguiu duas, e em Rondonópolis teve acesso ao restante das doses prescritas.

Amarílio Aguiar fala sobre os momentos de terror que enfrentou enquanto buscava atendimento (Ednilson Aguiar/ O Livre)

Enquanto estava na estrada, o veneno agia, espalhando-se pelo corpo dele até comprometer não só seus sentidos, como também os rins. O funcionamento dos órgãos foi restabelecido depois de uma estadia de 8 dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e 13 sessões de hemodiálise.

Aguiar teve sorte, algo que passou a ser vital às vítimas de cobras peçonhentas no Brasil. O único remédio é o soro, mas os estoques do produto estão em situação crítica.

Na rede privada não há o medicamento, que tem a produção concentrada em apenas três laboratórios em todo o país. Eles fabricam as unidades conforme a demanda do governo Federal, responsável por adquirir e distribuir o material aos estados.

Estratégia

Para facilitar a logística nos estados, o governo Federal aconselhou as secretarias estaduais a concentrarem as doses nas cidades-polo.

A coordenadora da Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), Alessandra Moraes, explica que a redução do abastecimento começou em 2014 e o Ministério da Saúde informou que os laboratórios estavam com dificuldade de atender o contrato de aquisição.

Com a finalidade de otimizar o uso do soro, foram tomadas algumas medidas como a capacitação dos médicos. “A ideia é que eles usem o essencial, para não desperdiçar”.

Outra medida foi concentrar as doses nas cidades mais estruturadas, tanto para facilitar a transferência de pacientes quanto do soro, caso seja necessária.

Desde que começou o problema, por volta de 2013, até agora, as remessas reduziram pela metade. Dados da SES mostram que naquele ano o governo federal encaminhou 10.982 doses de soro antiofídico. Este ano, até julho, foram 3.753.

Alessandra assegura que nenhum paciente morreu por causa da escassez de soro, porém admite que o intervalo entre fornecimentos costuma ser marcado pelo aumento do gasto com transporte.

Sem cobra, sem soro

Amarílio acordou cedo e foi até o galinheiro para cuidar dos animais e roçar algumas buchas que subiam pela parece.

Quando ele puxou um caixote dentro do galpão, sentiu uma leve bicada na mão. “Pensei que era uma galinha. Então, abaixei para ver e lá estava a cobra. Eu acho que ela não queria me atacar porque nem ouvi os chocalhos”.

Preocupado em não assustar a esposa, ele tentou ligar para o filho e nesse momento, um sobrinho apareceu no sítio e o levou, às pressas, até o posto de saúde da cidade.

Lá, ele descobriu que não tinha soro e seguiu para a próxima cidade, Jaciara, onde haviam apenas duas bolsas, enquanto ele precisava de 10.

“Na hora que ela picou, não senti dor. Apenas um frio no corpo. Comecei a me sentir mal em Jaciara. Minha visão ficou distorcida e eu não conseguia ficar mais acordado”.

Para ter acesso ao início do tratamento, Amarílio passou por uma exigência inusitada. O médico queria ver a cobra antes de passar o soro. Ele disse para a família do paciente que existem dois tipos de soro e para não desperdiçar o medicamento, precisava identificar o animal primeiro.

Então, os parentes que ficaram no sítio mataram a serpente e levaram até a unidade de saúde. Assim que ficou provado se tratar de uma cascavel, as bolsas com o soro foram administradas.

O aposentado conta que quando acordou, já estava na UTI, em Rondonópolis, onde conseguiu o resto do antiofídico. A pele estava escurecida, como se estivesse queimada, e os médicos falaram: “apenas duas pessoas sobreviveram a picada da cascavel por aqui. o senhor teve muita sorte”.

Outro lado

Segundo o Ministério da Saúde, o fornecimento de soro foi interrompido porque dois dos três laboratórios produtores do medicamento estão em reforma. Eles precisaram se adequar para atender as novas normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

O processo de adequação começou em 2015 e este ano, acabou o que estava no estoque e o contrato de compra não foi atendido a contento. Resultado foi a ausência de soro em vários pontos de país.

A previsão da União é regularizar a situação no próximo mês.

Leia nota na íntegra:

O Ministério da Saúde informa que tem empregado os esforços necessários para regularizar a distribuição de soros em todo o país. A expectativa é de que a partir deste mês a distribuição seja normalizada em todo o país após acordo firmado com o Instituto Butantan para aumento da produção dos imunobiológicos.

 Cabe esclarecer que o Ministério da Saúde realiza a compra e distribuição aos estados de 12 tipos de soros. Em meados de 2015, a Fundação Ezequiel Dias (FUNED), de Minas Gerias, e o Instituto Vital Brasil (IVB), do Rio de Janeiro, dois grandes produtores de soros tiveram que realizar adequações na estrutura das plantas de produção, atendendo recomendação da Anvisa. O suprimento do Instituto Butantan não foi suficiente para suprir a  produção que não foi efetivada pelos laboratórios da FUNED e IVB.

 Devido às reformas nas plantas, os fornecedores FUNED e IVB realizaram diversas reprogramações de entrega, não cumprindo o cronograma acordado com o Ministério da Saúde. Diante dessa situação, a pasta iniciou 2019 apenas com os estoques de soros já existentes. Por isso, o Ministério da Saúde ampliou o contrato mantido com o Instituto Butantan. Neste ano de 2019, foram distribuídos aos estados 90,1 mil ampolas de soros antiofídicos.

 A pasta adquire vacinas e soros disponíveis no mercado nacional, com registro junto à Anvisa, e produtos produzidos pelos laboratórios públicos oficiais nacionais. Isso porque, como a maioria dos animais peçonhentos brasileiros são exclusivos da fauna local e que antivenenos são produzidos a partir de venenos destes animais, os laboratórios produtores internacionais não produzem exatamente os mesmos produtos dos laboratórios nacionais