Escadaria do Beco Alto perde árvores cultivadas pela população; eram “irregulares”, diz prefeitura

De acordo com o Iphan, grande parte das plantações foram arrancadas ainda no início das obras sem previsão no projeto aprovado pelo Instituto

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Dezenas de espécies de árvores e plantas medicinais e frutíferas vêm sendo retiradas da Escadaria do Beco Alto de Cuiabá ao longo dos últimos anos. Finalizada a última requalificação no local, uma das cinco reformas previstas pelo Programa de Aceleração do Crescimento – PAC Cidades Históricas de 2014, a escadaria perdeu seu característico verde de vez. A Prefeitura, responsável pela execução da obra, afirma, no entanto, que as plantações eram “irregulares”.

“Eu fiz uma intervenção artística nessa escadaria há alguns anos atrás com o coletivo ‘À Deriva’. Havia um canteiro central com várias espécies de árvores frutíferas e plantas medicinais utilizadas pela população. Quem cuidava da escadaria e do jardim era um senhor que os moradores chamavam de ‘rei da escadaria’. Vejo que o impacto de uma ação como essa desconstrói todo uma ambiência sociocultural, onde os moradores tinham utilização e cuidado”, afirma a fotógrafa e pesquisadora Mari Gemma de La Cruz.

Aposentada da profissão de professora no Ensino Superior, ela atuava com pesquisas relacionadas à botânica medicinal e, atualmente, dá sequência aos estudos de forma independente.

Em um levantamento próprio, realizado em 2010, a artista visual identificou cerca de 20 espécies no que chamou de “jardim medicinal” da escadaria: Acerola, Alfavaca, Amoreira, Ata, Aveloz, Boldinho, Caninha do Brejo, Capim cidreira, Carambola, Erva Baleeira, Erva cidreira, Espada de São Jorge, Goiabeira, Guiné, Laranjeira, Leiterinha, Mamão, Mirra, Pinhão Roxo, Pitangueira, Urucum.

De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a obra de requalificação do entorno do Casarão do Beco Alto à Rua Pedro Celestino, ação promovida com recursos do Instituto, foi aprovada após “devidas análises técnicas e de orçamento”. Praticamente concluída, a inauguração está prevista para o mês dos 300 anos de Cuiabá.

Quanto à perda das árvores, no entanto, o Iphan diz ao LIVRE que a retirada da plantação não estava prevista na reforma. “Sobre as árvores frutíferas que anteriormente eram cultivadas pelos moradores, grande parte delas foi arrancada ainda no início das obras, em ação que não tinha previsão no projeto e nem aprovação do Iphan”, informou, em nota.

A prefeitura, por meio da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Urbano, no entanto, nega responsabilidade. “O local é uma escadaria. Se foi plantado árvores no local irregularmente foi durante o tempo em que a obra esteve ‘abandonada’”, disse, em nota.

E o calor?

Mari Gemma também questiona a opção por concreto, pisos cerâmicos e corrimões de metal. A preocupação é de que, além da falta das árvores, o material possa contribuir com o aumento da temperatura e inundações no local, devido à dificuldade de absorção da água da chuva. O Iphan, no entanto, garante que não há problema, pois, o declive da área foi mantido e as alterações da estrutura estão de acordo com as normas brasileiras.

“Anteriormente à obra, a escadaria já era constituída de material impermeável. Os novos patamares vêm sendo revestidos em pisos cerâmicos de alta resistência e as escadarias executadas de acordo com as normas brasileiras, sendo previsto piso tátil antes e depois dos degraus, bem como corrimões, a fim de atender às devidas condições de acessibilidade. Além disso, os degraus também funcionam como dissipador da velocidade da água, no caso de escoamento de águas pluviais”, explica o Iphan.

Pesquisas realizadas pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), apontam que Cuiabá possui ilhas de calor com temperaturas até 10° C mais quentes. Os especialistas detectam que elas estão concentradas no centro da cidade e em conjuntos habitacionais densamente ocupados.

Eurides da Costa trabalha em frente à Escadaria do Beco Alto (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Fala povo!

Eurides da Costa, 75 anos, mantém seu salão de cabeleireiro há 50 anos no Centro Histórico e aluga um ponto no pé da Escadaria do Beco Alto há 20 anos, na rua Eng. Ricardo Franco. Ele conta que a escadaria, além de utilizada para passagem, nasceu junto às plantações: “Cheguei de ver pessoal plantando muda”. Para ele, as árvores tinham certa utilidade.

“Tinha coqueiro, goiabeiras e várias frutas… Mas acho que o pessoal entendeu que tinha que tirar porque está tendo muita invasão e isso as vezes deixa as coisas irregulares, as arvores ficavam perecendo. Acho que o que atrapalhou muito foi a insegurança, sujeira e uso de drogas. Problemas que estão surgindo não só na escadaria, mas em todo o lugar. Então a gente fica meio perdido para opinar”.

Eurides acredita que reformas como as da escadaria vêm melhorando espaços públicos, no entanto, espera que o poder público conserve o local limpo e seguro.

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1 COMENTÁRIO

  1. Realmente lamentável, que esse arquiteto não está sabendo trabalhar a reforma contemporânea com a historia e valorização da cultura da nossa capital , entendo que temos de ir para frente mas jamais esquecer nossa história.

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