Enfim, de volta aos picadeiros: o que fizeram os artistas de circo durante a pandemia?

A reportagem do LIVRE conversou com quem vivia de arte e agora se prepara a retomada do espetáculo

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre )

A lona montada já abriga as cadeiras, mas agora, com apenas 70% da capacidade do público. No palco, montado ao centro do picadeiro, a atenção é voltada para as peças do globo da morte, empilhadas umas sobre a outras. Em um canto, um homem mexe em uma grade. Em outro ponto, uma dupla trabalha colocando os tablados de madeira no chão.

Essa é a correria no circo Kroner, instalado em Cuiabá: o espetáculo vai (re)começar!

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre )

A liberação dos eventos foi anunciada pela Prefeitura de Cuiabá nesta segunda-feira (9). A data de estreia do Kroner é daqui a cerca de 10 dias. O picadeiro está montado na Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat).

Lona no chão

Assim que a pandemia teve início, o setor de eventos e entretenimento fechou as portas. Não era seguro reunir a platéia. Uma retomada foi ensaiada no segundo semestre de 2020, mas os números de casos de covid-19 voltaram a subir e os planos foram suspensos.

No início deste ano, lembra Geovane Brascuper, diretor artístico e apresentador do circo, houve um período de apresentações, mas, em março, a lona voltou ao chão.

E ao longo desse período, os artistas tiveram que se reinventar. Muitos precisaram buscar caminhos alternativos à arte para garantir o sustento. Só o Kroner tem 65 famílias que vivem do trabalho feito ali.

“Foi um período muito complicado. Estávamos nos apresentando em Mato Grosso, no interior e, com o fechamento, muitos vieram para Cuiabá. Conseguiram autorização para se instalar aqui e ficaram até hoje”, conta Geovane sobre o abrigo na Acrimat.

De tudo um pouco

Até a véspera da confirmação de que a covid-19 havia chegado em Mato Grosso e que era preciso fazer quarentena, Fábio Marques, 41 anos, ganhava a vida voando pelos ares no trapézio do Kroner.

Desde o início da década de 1990 – quando conheceu o mundo circense por meio de um projeto de circo-escola – ele não ganhava dinheiro com os pés no chão. Então, quase 30 anos depois, precisou buscar novos caminhos para arcar com as despesas de casa, onde mora com a mulher e a filha, de 6 anos.

“Quando parou tudo, estávamos em Tangará da Serra (239 km de Cuiabá). Ali fiquei por 4 ou 5 meses trabalhando como servente de pedreiro”, ele lembra.

A retomada dos espetáculos aconteceu nos meses finais do ano, comenta Fábio, em Rondonópolis (212 km da Capital).

“Foram só uns dias e tudo precisou parar de novo. Então, voltei para São Paulo, onde mora a minha família”, diz o rapaz sobre os pais.

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre )

“Ali foi mais uma fase difícil. Trabalhei vendendo biscoito de polvilho, até que restringiram tudo, mais uma vez. A partir daí, foram dois meses parado em casa”.

Com a flexibilização das medidas de restrição, Fábio foi buscando pequenos serviços. Hoje está em Cuiabá, trabalhando também na montagem do circo, antes que possa retomar os voos no trapézio.

Acrobacias no volante

Se desdobrar em mais de uma função é algo corriqueiro para Luais Palacios e a pandemia, para ele, foi (em partes) diferente. No final de 2019 o acrobata viajou para Las Vegas, nos Estados Unidos (EUA). Por lá já se falava sobre uma “gripe” que vinha matando muita gente.

Luais ficou nos Estados Unidos por quase um ano. “Quando estava lá, trabalhei como motorista de aplicativo”. O retorno ao Brasil foi em fevereiro, no mês anterior à nova interrupção das atividades de entretenimento. O caminhão, então, passou a ser seu palco de trabalho.

Agora, Luais ajuda a organizar a estrutura para a retomada do espetáculo. Passa os dias segurando uma ferramenta ou dando o direcionamento ao restante da equipe.

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre )

Chamado do circo

Geovane foi uma das muitas vítimas da covid-19. Precisou ficar internado e, por pouco, não viveu a crise de falta de oxigênio em Manaus, onde estava. Lá vive sua família. “Tive alta uma semana antes”, comenta aliviado.

Talvez tenha sido o chamado do circo. É que, como muitos que vivem dessa arte, a história de Geovane começou duas gerações antes dele. “Minha avó fugiu com um palhaço”, narra com a voz firme.

Com picadeiro, risadas e trabalho árduo na rotina desde cedo, ele afirma estar ansioso para a chegada do grande dia. “Já tentei sair, mas o circo não sai de mim”.

Essa volta, não tenham dúvidas, será mais que especial.

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre )

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