Em um possível cenário de extinção da Ancine, como ficaria Mato Grosso?

Produções de audiovisual em MT saltaram de duas por ano, para cerca de 40 nos últimos três anos

Nesta quinta-feira (25), o presidente Jair Bolsonaro voltou a colocar em xeque a relevância da Agência Nacional do Cinema durante live semanal no Facebook.

Desde a semana passada, ele tem feito declarações que têm deixado o setor em alerta. Profissionais do cinema e também grande parte do público teme pelas ameaças de extinção da agência que regula, fiscaliza e fomenta a produção audiovisual brasileira.

Com sede no Rio de Janeiro, está vinculada ao Ministério da Cidadania, mas com eventuais mudanças, pode ficar sob o domínio da Casa Civil e mudar de endereço. Bolsonaro planeja transferi-la para Brasília (DF).

O presidente afirmou ainda que se não houvesse um filtro, seria melhor extingui-la. Ele criticou o uso do dinheiro público para produções como Bruna Surfistinha: “filmes pornográficos”.

Na opinião dele, o cinema brasileiro deveria divulgar histórias de “heróis brasileiros”, o que muita gente tem encarado como censura.

Protagonizado por Débora Secco, “Bruna Sufistinha” teve R$ 4,3 mi em renúncia fiscal e rendeu R$ 20 mi em bilheteria

Nesta semana Bolsonaro, voltou a dizer que obras cinematográficas como Bruna Surfistinha atentam contra os valores da família. “Vamos buscar a extinção da Ancine. Não tem nada que o poder público tenha que se meter a fazer filme”.

Ele reforçou sua posição e disse que não se trata de censura. “Deixo bem claro, quem no Brasil quiser fazer filme com Bruna Surfistinha, seja quem for, fique à vontade. Isso, se nós fôssemos interferir, seria uma censura. O que nós não podemos admitir e não queremos, é esse tipo de filme, ou filme de político, como o meu, [seja feito] com dinheiro público”.

Uma das medidas em estudo no governo é retirar da Ancine a gestão do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA). Criado pela Lei nº 11.437/2006, o FSA é destinado ao desenvolvimento de toda a cadeia produtiva da atividade audiovisual no Brasil. O orçamento do FSA para este ano é de R$ 724 milhões. A eventual extinção da agência, no entanto, dependerá de aprovação pelo Congresso Nacional.

Sem recursos, “morte por inanição”

O cineasta e presidente da Associação Mato-grossense de Cinema e Audiovisual, a MT Cine, Bruno Bini, lembra que a política de descentralização dos recursos nos últimos anos trouxe um grande impacto na produção dos filmes nos estados periféricos, como é o caso de Mato Grosso.

“Saímos de uma produção de um a dois curtas por ano, para um salto de pelo menos três longas de ficção, séries, telefilme e documentários de longa-metragem. De quase nula, nos últimos três anos, a produção audiovisual mato-grossense atingiu uma média de 40 produções e isso se deve à essa política de descentralização de recursos”.

Segundo Bini, por meio dos arranjos regionais que pegam uma parte de recursos locais, conjugados aos recursos da Agência por meio do Fundo Setorial do Audiovisual.

“A extinção da Ancine em um momento como este é condenar a produção audiovisual, principalmente dos estados periféricos, à morte por inanição”.

E ele reforça ainda, que o movimento de extinção da Ancine preocupa, pois em sua opinião, não se justifica. “O investimento em audiovisual tem dado retorno, é preciso considerá-lo. Ele se paga porque o recurso que compõe o fundo setorial é oriundo da taxa que as produções pagam ao Condecine, que vem de cada comercial produzido, das taxas que as TVs pagam, do resultado de bilheterias e cessão de direitos, a exemplo”.

Bruno Bini ressalta ainda, que o setor econômico do audiovisual gera recursos e se paga sozinho. “É um mecanismo inteligente. Todos os projetos que têm financiamento do fundo, devem devolver os recursos investidos, e ele tem prioridade na retirada dos lucros. Não é dar dinheiro para fazer filme, é investir”.

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Outros cineastas e produtores de grande experiência no setor, concordam em consenso que as medidas revelam desconhecimento dos governantes sobre a cadeia produtiva do cinema no Brasil. Os realizadores também questionam a legalidade de uma possível extinção da Ancine.

Aqui, Diego Baraldi aparece de pé, ao lado da diretor Juliana Curvo durante gravação do curta Aquele Disco da Gal

“É grave é a possibilidade de instaurar filtros, algo que remete à censura e ela poderia prejudicar a aprovação de obras audiovisuais que investem em perspectivas que realçam os direitos humanos e as diferentes expressões da sexualidade. A Ancine é fundamental para a multiplicação da produção televisiva e documental e o destaque do cinema brasileiro no circuito de festivais em nível mundial. É muito preocupante a possibilidade desse trabalho sofrer qualquer tipo de ataque”.

Diego Baraldi é cineasta,
supervisor de cineclube Coxiponés
e idealizador do “Encontros com Cinema”


Tati Mendes, na direção do documentário Mata Grossa

“A Ancine foi criada através de uma lei e não é qualquer palavra gratuita que pode acabar com ela. A gente sabe que o país está à deriva em termos de ‘julgamentos’ e ‘justiça’, mas precisamos confiar nas leis”.

Tati Mendes, produtora, diretora e documentarista


 

Carol Araújo, em debate à ocasião do lançamento de “Pandorga”, de Maurício Pinto e em que atuou como produtora

“Com os avanços tecnológicos e sociais, quando a gente discute audiovisual, fala de algo muito maior que uma sala de cinema. Mesmo depois de tantas discussões sobre a necessidade de regularizar, fomentar e fiscalizar a produção audiovisual no Brasil, o governo não está entendendo ou quer esfacelar o que construímos enquanto classe trabalhadora, política e intelectual nas últimas décadas. Estamos falando de uma indústria limpa, que não desmata e que gera muito emprego. O que está errado? A constituição é clara: todo mundo tem o direito de se expressa. Então filtro por que? Por que eu não concordo com o resultado do produto? A gente tem muita especulação sobre a Ancine, como uma caça às bruxas e uma cortina de fumaça para as mudanças verdadeiramente necessárias”.

Caroline Araújo, publicitária, produtora, diretora e vice-presidente da MT Cine


Rafael Carvalho (à esquerda), ao lado do parceiro Severino Neto. Eles estão prestes a lançar o longa A Batalha de Shangri-lá

“De forma pejorativa, Bolsonaro aponta um ‘ativismo’ no cinema brasileiro. Com isso, ele quer acabar com a liberdade de produzir sob qualquer tipo de pensamento social, sem nenhum motivo. Essa censura que o governo está impondo através da Ancine é postura de um ditador. Ele não sabe como é difícil fazer cinema no Brasil, ele não sabe o que a gente passa. Ele não sabe que um filme como ‘Bruna Surfistinha’ conseguiu arrecadar muito, mas, mesmo assim, não gerou lucro ou enriqueceu seus realizadores. Existem tem muitas etapas e muitos custos para produzir um filme”.

Rafael Carvalho, publicitário, produtor e cineasta


Bruno Bini em coletiva de imprensa do lançamento de Loop, prestes a estrear. Filme é protagonizado por Bruno Gagliasso

“O filtro deve existir dentro de parâmetros que não sejam nem ideológicos, nem preconceituosos. Fazer isso é reduzir o potencial de alcance do cinema junto à população.  Quem deve ter filtro é o público e não há justificativa nenhuma para interrupção dos trabalhos ou a extinção de uma agência que só tem dado resultados positivos desde que foi criada. É só pegar resultados da participação brasileira nos festivais. É impressionante como conseguem dar resultados com os recursos que são poucos”.

Bruno Bini, publicitário, cineasta e presidente da MT Cine

 

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