Em Mata Cavalo, quilombolas quebram barreiras por meio da educação

Após uma geração de professores, jovens encaram outras áreas e trazem mais perspectivas de crescimento para a comunidade

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre

Vencer pela educação é o lema do povo negro da Comunidade de Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento. Atualmente, 50 estudantes do quilombo estão em cursos de Engenharia, Medicina, Agronomia e Educação em universidades públicas.

Um avanço que começou anos atrás, quando uma das líderes do grupo, a professora Tereza da Conceição Arruda, se cansou de ver a dificuldade das crianças e adolescente da região, que precisavam ir para o núcleo urbano do município ou outra cidade para dar sequência aos estudos.

Ana Maria Arruda, 50 anos, é filha de Tereza e, junto com as irmãs, sobrinhas e neta, atuam fervorosamente na escola, que foi batizada com o nome da matriarca.

Elas formam uma geração de professores, que passaram por dificuldades e o enfrentamento diário do preconceito.

Ana Maria Arruda é professora e acredita na melhoria de vida pelo conhecimento (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

“No começo, minha mãe encabeçou a construção de um espaço de palha e lona. Ela já estava aposentada, mas minha irmã cuidava das coisas. Eu lembro que, naquela época, havia muita discriminação. O comércio de Livramento não vendia sequer pregos para os quilombolas. Sempre defendiam os fazendeiros”.

Para o prédio que abriga a escola sair da palha para madeira, foram adquiridos martelos, enxadas e materiais para construção em Cuiabá. Contudo, a força de trabalho era de dentro da própria comunidade, que não aguentava mais ver as crianças abandonando os estudos por conta da distância.

O sonho de ter uma estrutura bem feita aconteceu apenas em 2012, com a inauguração do atual prédio, que conta com salas climatizadas e quadra poliesportiva.

Comandada por mulheres e com visão no futuro

Ana Maria avalia que as oportunidades para as pessoas do quilombo foram ampliadas exponencialmente nos últimos anos.

“Tudo de bom que aconteceu foi idealizado pelas mulheres da comunidade. Elas são sempre a liderança, planejam e organizam tudo”.

Hoje, os jovens aprendem em uma escola adequada a cultura da comunidade.

“As meninas e meninos têm orgulho de serem negros e do quilombo. Antes, as pessoas se envergonhavam por medo. Na cidade, eles não davam bons empregos para os negros. Isso foi mudando com o tempo”.

Atualmente, grande parte do corpo docente da escola é formada por mestres de origem quilombola. Pessoas que se aperfeiçoaram e voltaram para comunidade.

O crescimento intelectual, gerou a melhoria financeira das famílias e a visão dos comerciantes também mudou. Hoje, eles não só vendem, como oferecem produtos e serviços para os moradores do quilombo.

Os jovens também passaram a trabalhar em diversos postos e a serem vistos com menos preconceito.

Dia da Consciência Negra

Uma grande festa foi realizada para comemorar o Dia da Consciência Negra na escola da comunidade. Os estudantes fizeram apresentações de dança e, em cada passo da coreografia e peça de roupa, estavam elementos africanos.

A celebração começou ao som de batuques, seguidos de da canção “Sorriso Negro”, imortalizada por Ivone Lara, em coro.

Enquanto batiam palmas, cantavam: “um sorriso negro, um abraço negro… traz felicidade. Negro que já foi escravo. Negro é a voz da verdade. Negro é destino é amor. Negro também é saudade”.

Depois, foi a vez das crianças tomarem conta do espaço. Entre elas, a pequena Júlia Gabriele Pereira dos Santos, de 10 anos.

Muito mais que os passos da dança, a menina sabia expressar o orgulho de ser quilombola com as palavras.

A pequena Julia Gabriele diz que tem alma e coração quilombola (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Ela tem a pele branca e o cabelo liso, porém enche a boca para dizer que é negra e quilombola.

Quando questionada sobre o que acha das pessoas que não a consideram negra, a jovem responde: “elas não sabem o que carrego na alma e no coração”.

Atividades diversas

A beleza negra foi outro tema latente na festa. Em uma das salas, Maria José fazia tranças e ensinava as pessoas a usar turbantes.

Ela conta que sempre gostou do adereço, porém foi muito discriminada.

“As pessoas associavam o turbante a macumba e faziam piadinhas. Agora, já se acostumaram e, com o empoderamento da mulher negra, até mesmo as brancas aderiram”.

Maria José explica que é possível fazer várias amarrações nos turbantes, alguns mais tradicionais e outros mais modernos.

“Quem é da comunidade, geralmente, faz ou sabe alguém que pode ensinar a fazer. Os turbantes e as tranças são uma forma de sustento para mim. E por incrível que pareça, as minhas clientes normalmente são brancas”.

Conforme Maria, o uso do turbante pelos brancos começou com a chegada da Família Real ao Brasil. Naquela época, a princesa Isabel pegou piolho durante a viagem, precisou raspar o cabelo e, então, adotou o uso do acessório.

Comida na lenha

Na lenha, o cozinheiro da escola e morador da comunidade, Benilson Gumar, 30 anos, preparou o menu. Uma comida de encher a boca d’água: a tradicional carne seca com banana verde, acompanhada de Maria Isabel, feijão empamonado e farofa.

Benilson Gumar é quilombola, cozinheiro profissional e caprichou na comida da festa (Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

A perícia do chefe é grande e ele consegue mexer dois grandes tachos de uma única vez.

Segundo ele, que até ano passado morava em Cuiabá, tudo é feito com muito amor.

Antes de trabalhar na escola, Benilson era funcionário de um conceituado restaurante na Capital mato-grossense. Porém, conta que se sentia preso. Ficava apenas em casa.

Quando teve a oportunidade de retornar, não pesou duas vezes e, agora, nem pensa em sair de Mata Cavalo.

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