Em 1 ano, quase 63 mil pessoas desapareceram no Brasil

Para além dos dados: violência do desaparecimento também atinge as famílias que vivem "luto sem fim"

Tânia Rêgo / Agência Brasil

No ano passado, quase 63 mil pessoas desapareceram no Brasil, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Para além do dado, a violência do desaparecimento se estende aos familiares, que se dedicam exaustivamente à busca de respostas.

Essas pessoas, embora seja difícil generalizar, enfrentam experiências traumáticas, de risco, desamparo e incompreensão. A situação dos familiares foi estudada no relatório “Ainda? Essa é a Palavra que Mais Dói”, elaborado pelo Comitê Interacional da Cruz Vermelha (CICV).

O órgão humanitário analisou a situação de 27 famílias de São Paulo, constatando necessidades nas esferas econômica, social e de amparo à saúde física e mental dessas pessoas. Apesar das especificidades, os resultados podem ser aplicados aos familiares de desaparecidos em todo Brasil.

Em Mato Grosso

Em Mato Grosso, de acordo com a plataforma “Desaparecidos”, 320 pessoas estão desaparecidas. Em 2019, foram 876 casos de desaparecimentos recebidos. A maior parte deles foi registrada em Cuiabá e Várzea Grande, totalizando 827 ocorrências. Os dados são da Polícia Civil.

De acordo com a instituição, em média 70 a 75 ocorrências são recebidas por mês. O maior percentual se refere a desaparecimento de adultos, com idades entre 18 a 64 anos. Em seguida adolescentes, entre 13 e 17 anos de idade.

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E as famílias dos desaparecidos?

De acordo com o documento, caracteriza-se desaparecimento quando os familiares da vítima não têm mais notícias sobre seu paradeiro, em razões de conflito armado, violência interna, desastre natural ou crises humanitárias.

O desaparecimento é muitas vezes acompanhado de uma ambiguidade, quando não há certeza da morte.

“Não dá para entrar em processo de luto que, do ponto de vista formal, se inicia quando há morte de uma pessoa, mas do ponto de vista psíquico já se inicia, porque há uma suspeita”, explica Maria Júlia Kovács, professora de psicologia da USP.

Segundo o relatório, todas as famílias entrevistadas revelaram que o desaparecimento do ente impactou a saúde mental de alguma forma. Ansiedade e depressão são condições comuns entre quase todos os entrevistados. E esse desgaste emocional e físico, gerado pelo desaparecimento de um ente, está ligado às necessidades que cada um encontra no processo de busca pela pessoa.

Luto sem fim

Um psicólogo ouvido durante a elaboração do relatório contou ter atendido uma mãe que, na busca por seu filho, “levava sempre uma muda de roupa dele na bolsa”. A ideia era que ele pudesse se vestir bem quando ela o encontrasse.

“Muitas vezes, porém, esta mesma mãe estava a caminho do IML, para verificar se seu filho não havia sido encontrado sem vida”, ele conta.

O desaparecimento de uma pessoa significa, para aqueles que buscam, o prolongamento de uma dúvida sobre os motivos da ausência de alguém amado. Nas palavras de uma das mães entrevistadas, este sentimento corresponde a um “luto que não tem fim”.

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