Elas já estão funcionando em Cuiabá: saiba o que muda nas escolas escolhidas para serem militares

Maria Dimpina e Salim Felício terão regras diferentes de outras escolas do governo e da prefeitura. E as vagas já se esgotaram

Duas escolas de ensino básico em Cuiabá, uma municipal e uma estadual, vão ter a participação de militares na condução das atividades escolares neste ano. Maria Dimpina – da Prefeitura de Cuiabá – e Salim Felício – do governo do Estado – foram escolhidas para testar o modelo de educação cívico-militar lançado pelo governo federal.

A mudança começa pelo nome das escolas que, daqui para frente, levarão a nomenclatura Cívico Militar. No dia a dia das aulas, a atuação de estreia é discreta no quadro pedagógico. Homens da Polícia Militar ou do Exército ficarão responsável por uma matéria obrigatória: moral e comportamento cívico.

“O objetivo não é só reavivar os sentimentos patrióticos, vai para além disso. É um trabalho de cidadania, de conscientizar dos valores da sociedade, da democracia, da família”, diz a coordenadora da organização curricular da rede de ensino em Cuiabá, Eliane Kuinhone.

A coordenadora diz que o foco do lado militar será, neste ano de projeto de piloto, a disciplina dos alunos. Os militares ficarão responsáveis pela observação das regras da escola: início de aula, tempo de tolerância para entrada, alinhamento do uniforme.

“Mas tudo isso, levando em conta o regime de democracia e o modelo de ensino que temos em Cuiabá. Eles [os militares] serão inseridos neste contexto”, ela explica.

A escola Maria Dimpina é uma das três escolas municipais que atende adolescentes em Cuiabá (Foto: Jorge Pinho)

O que dizem as regras?

O Manual das Escolas Cívico-Militares, documento com 324 páginas elaborado pelo Ministério da Educação (MEC), não é claro sobre como será atuação da Polícia Militar e do Exército nas escolas escolhidas pelo governo federal.

O documento diz que eles servirão para prestar auxílio às normas de apoio pedagógico, normas de avaliação educacional e normas de conduta e atitudes, que hoje já devem ser seguidas pelos alunos.

Por exemplo, passará a ser cotidiano o enfileiramento para cantar hinos da pátria – o nacional, do Estado e comemorações específicas, como a Independência, Proclamação da República.

Essa norma é acompanhada pelo hasteamento da bandeira no início das aulas, pela manhã, e baixar o mastro ao fim do dia.

Cantar o hino e hastear a bandeira será prática diária dos alunos (Foto: Mayke Toscano/Gcom-MT)

O comportamento dos alunos será avaliado e classificado numericamente, na seguinte escala: Grau 10 – Excepcional, Grau 9 a 9,99 – Ótimo, Grau 6 a 8,99 – Bom, Grau 5 a 5,99 – Regular, Grau 3 a 4,99 – Insuficiente, Grau 0 a 2,99 – Mau.

Os alunos classificados no Grau Mau ficarão sujeitos a transferência compulsória.

Cabelo e vestimenta

Para alunos do sexo feminino, será permitido o uso de cabelos curtos (“cujo comprimento se mantém acima da gola do uniforme”) ou longos, desde que presos com penteados em trança simples ou rabo de cavalo.

Quando uniformizadas, as alunas poderão usar apenas adereços (relógio, pulseira, brincos) “discretos”. Parte do uniforme feminino, as saias deverão ter comprimento na altura dos joelhos.

Para alunos do sexo masculino, só será permitido o uso de cabelos curtos, cortados “de modo a manter nítidos os contornos junto às orelhas e o pescoço”, na tonalidade natural e sem adereços.

O aluno ainda deverá se apresentar bem barbeado.

A grade de aulas

As escolas cívico-militar terão matérias, optativas e obrigatórias, extras que poderão aumentar o tempo dentro de permanência dos alunos em sala de aula para sete horas – mas, não serão por período integral.

A municipal Salim Felício terá as opções de aulas de natação, dança, técnicas de redação e informática. Algumas dessas matérias serão ministradas em horário diferente do turno em que o aluno está matriculado.

“O aluno vem para aula, por exemplo, de manhã, vai para casa almoçar e volta à tarde para participar das atividades extracurriculares. Ele terá que escolher ao menos duas de três matérias optativas que vamos ofertas”, diz a coordenadora Eliane Kuinhone.

As matérias começam a ser oferecidas a partir da segunda quinzena de março, quando o quadro de aulas e professores estiver completo.

Orientadores afirmam que lado militar da escola vai se unir a retomada de valores morais ao processo de ensino (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

A recepção do modelo

As vagas para novas matrículas oferecidas pela Salim Felício, via web, foram preenchidas em apenas dez minutos.

Segundo líder de ensino de Cuiabá, Marco Antônio Braga, filas longas formaram-se no prédio da escola de pais em busca de uma vaga, mesmo após a escola dobrar o número de sala para alguns anos.

“Os pais ficaram interessados no modelo porque ele resgata, ou melhor, potencializa, a proposta de disciplina, de respeito num momento em que discute essa nossa liberdade. Respeito é respeito, hoje e aqui e em outro tempo em qualquer lugar. Acho que isso é importante ser casado com o modelo de ensino”, comenta.

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A Maria Dimpina matriculou 519 alunos para cursar do quinto ao nono ano. O sexto ano tinha três turmas no ano passado, no novo modelo passou para seis.

Foi aberta uma turma, com a primeira oferta, para o sétimo ano. O oitavo soma três turmas e o nono, duas. Conforme a Secretaria de Educação de Cuiabá, cada sala tem entre 35 e 40 alunos.

A escola estadual Salim Felício abriu 137 vagas para novos alunos no dia 3 deste março, com prazo para inscrição até o dia 9. Mas, no dia 6, todas as vagas já tinham sido preenchidas. Somando as rematrículas, o quadro de alunos chega a 500.

Uma outra visão

Doutor em educação e professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Silas Borges Monteiro diz não ver problema na atuação de escolas militares no Brasil. Mas questiona a proposta do governo federal de “enxertar” a autoridade de educação via o projeto militar.

“Eu acho que a sociedade deve ter oferta de escolas militares, confessionais, públicas, privadas. Mas é preciso entender que a formação do aluno é atravessada por outras coisas. A autoridade é construída, não imposta”.

Ele aponta para a necessidade da participação da família na formação do indivíduo na complementação do professor como “esclarecedor”. “A família não pode fugir ao seu papel, a autoridade dela se constrói como de alguém que prover segurança ao aluno”.

“O professor deve participar da formação como alguém que retira as dúvidas. O aluno o respeita porque ele pergunta e o professor responde. A formação crítica leva até o momento em que aluno começar a questionar aquilo que o professor diz, mas não se perde a autoridade, que é diferente da força”, complementa.

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