Educando para a política: o trabalho de mulheres formam eleitores

Conseguir mais representação no poder passa pelas mãos de quem vota e Zizele Ferreira sabe que "faz política" educando essas pessoas

(Foto: Dizão)

Entrar em uma disputa eleitoral está longe dos planos da pesquisadora Zizele Ferreira, doutoranda em Educação pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Mas isso não quer dizer que a política esteja longe de sua vida.

Integrante do Coletivo Negro da universidade, ela usa a articulação dentro do meio acadêmico para formar jovens que questionam a realidade e multiplicam esses questionamentos.

“Não quero ser uma personalidade negra. Prefiro estar na construção coletiva e isso não é fácil. A militância não tem glamour. A ideia é formar redes que se multipliquem e atuem de onde estiverem”.

De dentro da universidade, Zizele acredita que é possível questionar as estruturas. Sua luta específica é contra um racismo estrutural.

Embora 27% da população feminina se declare negra, segundo o IBGE, as mulheres negras representam apenas 2% do Congresso Nacional e são menos de 1% na Câmara dos Deputados. Falando em eleições municipais, elas chefiam 3% das prefeituras no Brasil.

“Acredito que fomos educados em uma sociedade que nos coloca como coadjuvantes entre as coadjuvantes. Desde a minha infância, são colocados aspectos do meu grupo racial, do meu gênero como negativos e não positivos”, diz.

Mas na movimentação coletiva, Zizele enxerga uma saída para o racismo e as diferenças sociais: reinterpretar a realidade.

“Essa movimentação política faz com que nos reconheçamos, provoquemos e pressionemos para que haja reconhecimento das nossas especificidades. No meu caso, possibilitou que eu me reeducasse, modificasse meu olhar, minha fala e minha postura enquanto mulher negra e brasileira”, declara.

Mulheres negras na política

No Brasil, em 1934 a primeira mulher negra foi eleita para um cargo político. A professora Antonieta de Barros foi deputada em Santa Catarina. De lá para cá, os avanços são inegáveis, mas ainda há um longo caminho a ser trilhado.

Se no passado a falta de representatividade era visível, no futuro os frutos do trabalho devem ser colhidos, reflete Zizele.

“Tenho esperanças, mas não ilusão. Cumprimos uma tarefa que não é só de denunciar, mas reinterpretar a nossa realidade. E nesse sentido, os movimentos sociais e políticos têm reeducado a população brasileira”.

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A participação política de mulheres vem crescendo, mas quando se trata especificamente de mulheres negras, o déficit é grande.

Em 2018, das 77 eleitas para vagas na Câmara Federal, 13 eram negras e uma indígena. No Senado, foram 7, todas brancas.

E fazer com que mais mulheres negras estejam nesses cargos passa exatamente pelo caminho que Ziziele trilha: formar cidadãos que vejam esses números, os questionem e os modifiquem, adequando-os à realidade em que vivemos.

“É importante que não se saia fazendo projetos a torto e a direita. Essas propostas têm que conversar com as realidades. Os projetos universalistas não dialogam”.

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