Ecólogo americano monitora e dá “RG” a onças e ariranhas do Pantanal

Pesquisadores do projeto Bichos do Pantanal identificam os animais sem ter que capturá-lo

Das espécies mais populares, ariranhas e onças estão sendo observadas por pesquisadores (Divulgação/Douglas Trent)

Entre um passeio e outro no Pantanal mato-grossense, onças-pintadas e ariranhas estão deixando o anonimato. É que câmeras trap, estrategicamente posicionadas ao ar-livre por pesquisadores do projeto Bichos do Pantanal, têm captado fotos das mais espontâneas.

Por conta da tecnologia utilizada, os raros cliques trazem registros da localização do animal e auxiliam no monitoramento de seus hábitos.

O grupo de estudos é coordenado pelo ecólogo americano, Douglas Trent. Atualmente, 81 onças e 48 ariranhas estão no radar dos pesquisadores.

Mas como monitorar um animal que foi apenas clicado por uma câmera? Como saber se ele aparece de novo em outro registro?

Trent explica que, da mesma forma que a digital humana é única, a identidade de uma onça-pintada (Panthera onca) está no seu padrão de manchas, especialmente, os da face.

E esse também é o caso da ariranha (Pteronura brasiliensis), cujas manchas no pescoço e garganta são sempre únicas.

A “digital” das onças está nas manchas, especialmente as da face (Foto: Tiago Queiroz/ESTADÃO CONTEÚDO/AE)

É assim que os pesquisadores podem identificar se são indivíduos já catalogados ou novos.

Os cientistas escolheram duas espécies das mais populares que podem ser vistas com certa abundância na região do Alto Pantanal, onde o projeto atua. Em outras regiões do país, elas podem ser mais raras, principalmente em razão da destruição de seus habitats.

Na coleta de dados, uma expedição mensal é realizada no Rio Paraguai, com duração média de oito dias. A área de abrangência inclui o município de Porto Estrela (a 198 km de Cuiabá) e a ESEC Serra das Araras, além de Cáceres (a 220 km de Cuiabá) e ESEC Taiamã com RPPN Jubran.

Novas onças em Cáceres

Douglas Trent passa bom tempo no Pantanal pesquisando o comportamento de animais silvestres  (Arquivo pessoal)

Há mais de 40 anos pesquisando a vida selvagem no Pantanal, o ecólogo se dedica a estudar como as espécies se relacionam umas com as outras e também o que seu comportamento pode dizer sobre outras situações.

“Estudamos as conexões na natureza. A presença das onças pode dizer muito sobre as áreas que elas povoam no Pantanal, por exemplo”.

Pesquisa detectou que grupo de onças que povoa região de Cáceres se renova ano a ano (Foto: Divulgação/Bichos do Pantanal)

Ele detectou um comportamento diferente entre as onças que habitam a região do Rio Paraguai e as que habitam a região de Porto Jofre, no Pantanal Norte.

“Na enchente na região Sul, os animais saem e, quando o rio baixa, já não são os mesmos indivíduos de antes. Já na região de Porto Jofre, o são as mesmas onças desde 2005”.

O motivo ainda está sob sondagem. “Estamos tentando identificar para onde elas vão e de onde vêm os novos grupos. Por que há esse comportamento diferenciado de migração nos arredores do Rio Paraguai”.

Investindo em uma abordagem mais impessoal, os animais não ganham nomes ou apelidos, mas sim, identificações por números, para manter o distanciamento do objeto de estudo.

“Refresco genético”

Já entre as ariranhas, que são animais muito sociais, há uma renovação dos grupos, como explica Trent.

“Você observa nas secas os buracos na beira do rio, elas ficam sempre juntas por ali. Mas quando o rio sobe e invade essa área, elas se espalham pela floresta em busca dos filhotes de peixes. Elas se dispersam, porque o alimento se dispersa. Mas quando as águas baixam, voltam a se reunir em grupo”.

Mas os grupos, voltam renovados. Segundo o pesquisador, novos indivíduos integram o grupo e este fato traz um “refresco genético” pois diminui a endogamia (cruzamento entre parentes próximos) e promove mais variabilidade genética ao grupo.

Mexeu com uma, mexeu com todas

Conhecidas pela valentia, ariranhas enfrentam onças para proteger membro de grupo (Foto: Divulgação/Bichos do Pantanal)

Por várias vezes os jornais noticiam embates entre ariranhas e onças. Algumas pessoas chegam a dizer que a ariranha é tão valente, que é a única que enfrenta a “rainha” do Pantanal. ´

Mas isso é verdade? Segundo o ecólogo, é um mito procedente.

“Se a onça tenta atacar uma ariranha, certamente como ela [a ariranha] anda em grupos, todas vão para cima. Mas os tamanduás-bandeira também enfrentam”.

Hábitos refletem novas situações

Entre as investigações realizadas durante tantos anos no Pantanal, o ecólogo pesquisou também o hábito de espécies de macacos e pássaros.

“Utilizei o método de tabulação para medir a base populacional. Durante 25 meses, passei 10 dias por mês fazendo esse ‘desenho’ às margens do rio”.

É a partir dessa pesquisa que ele pode identificar o comportamento das espécies e até a quantidade de indivíduos.

“Depois você volta lá e tem condições, por exemplo, de analisar a evolução dessas espécies. Muita gente chega a dizer que, hoje, há mais jacarés que antes, mas se uma pesquisa como essa tivesse sido realizada antes é que poderíamos saber se, de verdade, eles aumentaram”.

A partir dessa premissa, muitos foram caçados, mas hoje, com a desvalorização dos produtos de sua origem, como a carne e o couro, é possível que estejam se multiplicando mais.

“Se houvesse sido estabelecida uma linha de base populacional é que poderíamos dizer com segurança”.

No monitoramento de animais, muitos outros aspectos puderam ser analisados em relação aos macacos, por exemplo.

“Percebemos que os macacos deixavam cair frutinhas que estavam comendo e, com isso, os peixes se alimentavam delas. Mais adiante, mudinhas das árvores às margens do rio nasciam. Esse comportamento auxiliou na dispersão de espécies de plantas há uma distância maior”.

No Pantanal, os macacos são os “cevadores” de peixes e responsáveis pelo plantio de mais árvores (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Onças nas fazendas

E se você está achando que o trabalho de um biólogo é só observar e anotar, Trent sustenta que eles também colocam a mão na massa. Ou melhor, nas fezes.

“Uma pesquisa em Mato Grosso do Sul investigou também as fezes de onças e descobriu-se que, por conta do alimento fácil de animais encurralados na fazenda, 17% das fêmeas e 23% dos machos comiam carne bovina”.

Durante um bom tempo, esse comportamento dos felinos fez com que eles fossem alvo de caçadores pela região do Pantanal. Uma realidade que, segundo Trent, felizmente parece estar mudando.

“Muita gente vilaniza a onça e defende sua caça para inibir esses ataques, mas, certa vez, conversei com um fazendeiro que de maneira prática disse: ‘se eu tenho sete mil cabeças, certamente que vai ter onça comendo, mas também vai ter cobra picando, doença… Não são as onças que trazem grandes diferenças numéricas desse rebanho’”.

E o pesquisador acredita que as pessoas ainda não se atinaram ao fato de que é muito mais interessante ter uma onça viva.

“Ela vale muito mais por causa do turismo. Com a preservação do meio ambiente, você tem mais bichos circulando. A observação da vida silvestre pode ser uma excelente fonte de renda no Pantanal. Os arredores do Rio Paraguai são um dos melhores lugares para se observar as onças”.

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Bichos do Pantanal

O Projeto Bichos do Pantanal (realizado pelo Instituto Sustentar) está em sua segunda fase. A primeira foi de agosto de 2013 a maio de 2015.

Em razão dos ótimos resultados obtidos, a Petrobras – que patrocina o projeto por meio do Programa Petrobras Socioambiental – resolveu renovar o apoio.

A segunda fase iniciou-se em julho de 2018 e seguirá até outubro de 2020.

As pesquisas desenvolvidas na primeira fase permaneceram em andamento até a renovação do patrocínio e seguem sendo realizadas na atual segunda fase.

Na área de pesquisas, a parceria com a Universidade do Estado do Mato Grosso (Unemat) tem sido fundamental.

Quatro pesquisadores da instituição – sendo dois doutores e dois graduandos –, liderados pelo ecólogo norte-americano Douglas Trent (fundador do Instituto Sustentar, que executa o Projeto Bichos do Pantanal), realizam pesquisas na região do Alto Pantanal.

Além das onças-pintadas e ariranhas, eles cuidam das aves e ictiofauna (peixes).

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