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Do sonho de ser médico à frustração: candidatos do Revalida contam como é a espera pelo exame

Foto de Reinaldo Fernandes
Reinaldo Fernandes

Boa parte está formado há mais de três anos. Alguns já até já atuaram no Brasil, por meio do programa Mais Médicos. Nenhum, no entanto, tem registro profissional no país. São médicos com diplomas estrangeiros à espera da conclusão da prova do Revalida, aplicada pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT).

Uma espera que reúne frustração e receio de perseguição.

Clara, 28 anos, formada pela Universidade Católica Boliviana San Pablo, diz que trabalhou dois anos em unidades da atenção primária do Sistema Único de Saúde (SUS) e deixou o posto para conseguir revalidar seu diploma, em 2018. 

Ela faz parte da turma que espera a quarta etapa do Revalida, a prova teórica que seria aplicada no próximo domingo (16). Por causa da pandemia, o calendário foi suspenso. 

“Terminamos a terceira etapa no dia 8 de julho. Passei um ano, desde 1º de agosto de 2019, fazendo a terceira fase do Revalida, para chegar a essa situação de não saber quando a prova, que pode ser aplicada virtualmente, vai ser autorizada”, diz. 

Vinda de família pobre, ela diz que o esforço para sair do país para estudar Medicina passou a ser uma frustração de todos que a ajudaram a concluir a graduação na Bolívia. Os anos de faculdade estão seguidos por meses “de burocracia que não parece não ter fim”. 

“O curso de Medicina não é uma conquista buscada só por mim. Eu venho de uma família muito humilde, que projetou ela toda na minha formação. E agora não posso exercer a Medicina por causa da burocracia brasileira”, disse. 

Imagem ilustrativa (Foto: Freepik)

Dinheiro contado 

Roberto, 40 anos, formado pela Universidade de Aquino Bolívia (Udabol) vive situação semelhante. Seu diploma tem data de 2017 e a inscrição para o Revalida da UFMT o impede de participar dos exames que estão sendo abertos por outras universidades no Brasil. 

“Estou com os pés e as mãos amarrados. Não posso fazer nada, tenho que esperar a decisão da universidade. Se eu desistir do Revalida da UFMT, tudo aquilo que fiz em três etapas será perdido. Vou ter que começar do zero. E só na primeira fase eu tive que autenticar mais de 200 documentos”, afirma. 

Ele diz que no Estado em que mora, cerca de 200 brasileiros e estrangeiros, incluindo bolivianos, esperam pela definição da quarta etapa do exame. Alguns vieram para o Brasil, em 2018 – ano da primeira etapa do Revalida -, com dinheiro para contado para concluir as provas. 

“Hoje, eles estão em meio à pandemia, com o dinheiro acabando, sem previsão de quando vai concluir o exame e isso significa que não está autorizado a exercer a profissão no Brasil”, conta. 

Receio e mercado de reserva 

Clara e Roberto são nomes fictícios dados pela reportagem do LIVRE para contar as histórias de dois graduados que esperam o Revalida. O pedido para que as identidades fossem preservadas partiu deles próprios e com justificativas. 

Clara diz que cerca de 920 pessoas estão inscritas no edital de 2018. Apesar ser um número expressivo, a maioria dos candidatos têm receio de se manifestar por causa de boatos sobre perseguição. 

“Nós temos receio de que nossa documentação seja represada no administrativo por causa da nossa reclamação e o processo, que já é demorado, se complique ainda mais”, disse. 

Roberto evitou falar das conversas entre candidatos sobre a relação do Conselho Federal de Medicina (CFM) e as instituições de ensino superior, que ofertam exames do Revalida. 

O suposto acordo trataria de “reserva de mercado” para que a entrada de profissionais de Medicina no mercado de trabalho ocorresse apenas para uma faixa dos graduados.

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