Detalhes tão pequenos de um país

Detalhes podem mudar tudo na sequência da história. Há casos de sobra no passado francês

(Foto: Divulgação/Pixabay)

Detalhes podem mudar tudo. A história da França poderia ter sido outra se a rainha Maria de Médicis não se esquecesse de trancar a porta do recinto onde conversava com o rei Luís XIII, seu filho, e tramava a queda do cardeal Richelieu.

O cardeal dirá depois: “Deus providenciou uma porta destrancada para que eu me defendesse de quem tramava a minha ruína”. E a rainha, já exilada, morando de favor na casa do pintor flamengo Rubens, de quem comprara uma  série  magnífica de telas barrocas, hoje disponíveis no Museu do Louvre, exclamará: “Se eu não tivesse esquecido de fechar um ferrolho, o cardeal estaria perdido”.

[featured_paragraph]Era o dia 10 de novembro de 1630. A rainha falou tudo o que quis contra Richelieu, e o rei ouviu a catadupa de acusações e também a defesa feita por seu ministro, ali presente por obra de um detalhe. [/featured_paragraph]

Depois de ouvir todos os impropérios impulsivos da rainha e as argumentações pacientes do cardeal, o soberano retirou-se para Versalhes, onde foi meditar no pavilhão de caça, que mais tarde seu filho, Luís XIV, transformaria no famoso palácio.

Mas se nada disso acontecesse, provavelmente o filósofo e escritor iluminista Charles-Louis de Secondat, mais conhecido por Montesquieu, não teria feito uma crítica tão sagaz e com tão belas metáforas como a fez em seu romance Cartas Persas, no século seguinte, em que passa, não um ferrolho, mas uma verruma no absolutismo francês que o cardeal Richelieu consolidou, reunindo nas mãos do soberano francês o Executivo, o Legislativo e o Judiciário, como se fossem um só poder, o do rei!

Cartas Persas compõe-se de cento e sessenta cartas. Montesquieu usa um recurso muito criativo: por meio de cartas trocadas entre os personagens, faz críticas mordazes, mas talvez até contidas aos olhos de hoje, aos usos e costumes, especificamente à submissão de todo o povo francês a um soberano que, não apenas reinou como senhor absoluto, como levou o filho a não mentir quando disse, já seu sucessor: “O Estado sou eu”. E era mesmo!

Alguns trechos parecem espelhar, não apenas os franceses dos séculos XVII e XVIII, mas a muitas outras nacionalidades, daqueles séculos e dos posteriores: “Governava-os um rei de origem estrangeira. Depois de matá-lo, juntaram-se para formar um governo e, ao ao fim de muitas dissensões, nomearam magistrados, que depois também trucidaram”. 

Alguns diálogos parecem ocorrer no Judiciário brasileiro. Diz um sábio: “O que eu disse é certíssimo porque o digo eu”. Diz outro: “O que eu não disse é falso, porque não o digo eu”.

Há outros detalhes tão pequenos também de outros países: “O caráter distintivo de ambas as nações (Espanha e Portugal) manifesta-se pelos óculos e pelos bigodes. Os óculos são a prova demonstrativa de saber: quem os usa cansou a vista de tanto ler. Todo nariz com óculos é o nariz de um sábio. Um famoso general português na Índia, precisando de dinheiro, penhorou o bigode aos habitantes de Goa, pedindo emprestado vinte mil dobrões, e depois honrou o seu bigode”.

Outros assuntos, inseridos na correspondência como causos ou lendas, enriquecem a a troca de cartas. Será que, perdido num canto da memória da então presidente Dilma Rousseff, não estava a lembrança do pequeno trecho da p. 214 da edição brasileira (São Paulo, Martin Claret, tradução de Mário Barreto, 2009), que trata do trabalho de estocar ventos? “Assim que cresceu, ensinou-lhe o pai o segredo de encerrar em odres os ventos e vendê-los depois aos viajantes”.

[featured_paragraph]Em troca de cartas com as esposas revoltadas no serralho de Ispahan, na Pérsia, diz o viajante: “O vosso primeiro eunuco Solim não é para vos guardar, mas para vos castigar,  e julgará vossas passadas ações“. Responde uma delas: “Se sou castigada por um eunuco, o tirano és tu e não o instrumento da tirania”.[/featured_paragraph]

Dá fecho ao romance o suicídio da favorita do harém: “o veneno me consome e até o ódio que te tenho desmaia comigo”.

PS. Dedico este texto a Esperidião Amin, que me providenciou o texto integral da edição brasileira, recomendando-me com entusiasmo a leitura durante amena prosa em Florianópolis. Ao aceitar a sugestão dele, minha memória brotou e lembrei que alguns trechos me eram conhecidos da edição francesa, que depois confirmei com Rosa Freire d´Aguiar, viúva de Celso Furtado. 

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorPolícia prende traficantes que embalavam drogas com foto de Neymar
Próximo artigoJustiça dá 72h para Taques explicar quem bancou reunião com servidores