|sábado, 21 abril 2018

Descendente de sepultado no Cai-Cai lembra história e pede cuidado com espaço

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Ednilson Aguiar/O Livre

Carlos Antônio

 

Nascido e educado no antigo bairro popular, região que atualmente engloba o bairro Goiabeiras, o engenheiro químico Carlos Antônio da Silva, 61 anos, cresceu ouvindo a mãe lhe contar histórias a respeito de seus antepassados. E parte dessa história sempre o acompanhou de perto.

Ali, nas proximidades da casa dos pais, encontra-se sepultado o seu bisavô. Falecido há 110 anos, em 06/06/1907, Antônio Timótheo das Neves é uma das pessoas que foram enterradas no antigo cemitério do Cai-Cai, onde atualmente se encontra a praça Manoel Murtinho, na avenida São Sebastião.

Após ler as reportagens especiais publicadas pelo LIVRE há duas semanas, a respeito dos 150 anos do antigo cemitério, Carlos entrou em contato para explicar o porquê de o nome de seu bisavô não constar na lista das pessoas que foram enterradas no local.

“Ele foi vítima da segunda epidemia da varíola. E, até onde sei, não se envolveu com os assuntos da Guerra do Paraguai”, detalhou.

“O homem tem que ter uma história. Se não tiver história, até existe, mas sem ter uma identidade”

Criado em 1867 pelo então presidente da província na época do Brasil Império, José Vieira Couto de Magalhães, o Cai-Cai foi aberto para receber os combatentes da Guerra do Paraguai (1864-1870) contaminados pela doença, que se espalhou por Cuiabá.

“A cidade estava assolada pela epidemia de varíola, que acabou sendo levada a Cuiabá pelos soldados que regressavam à capital. A população de Cuiabá foi densamente contaminada e, dos seus 12.000 habitantes, mais da metade teria perecido em decorrência desse contágio”, escreveu a professora Maria Aparecida Borges de Barros Rocha, em sua tese de doutorado denominada “Atitudes diante da morte em Cuiabá – 1860 A 1926: A guerra, a doença e a secularização dos cemitérios da cidade”.

No início do século XX, a doença voltou a aparecer na cidade, levando mais vítimas ao Cai-Cai, entre elas, Antônio Timótheo.

Ednilson Aguiar/O Livre

Carlos Antônio

Carlos Antônio com o inventário de 109 anos

“As pessoas contaminadas pela varíola eram enterradas no Cai-Cai, que na época era um local bem distante do centro da cidade, mas que hoje virou centro”, relatou Carlos.

Tendo herdado da mãe o gosto por história, ele voltou para Cuiabá em 1996, depois de 18 anos pelo Rio de Janeiro, onde se formou e trabalhou como professor.

Atualmente lecionando no Senac, Carlos contou que encontrou informações sobre o passado da família no Arquivo Público, onde achou um inventário com o nome do bisavô – tal como relatado pela matriarca Maria da Glória Neves de Almeida.

“Foi uma sensação muito bonita. Apesar de eu já saber desde criança quem era o meu bisavô, encontrei uma origem registrada. O homem tem que ter uma história. Se não tiver história, até existe, mas sem ter uma identidade”, observou.

Pelo documento, o engenheiro químico deduz que o bisavô tenha sido um marceneiro, pois um dos bens deixados por ele foi um torno para se trabalhar com madeira. O inventário é de 1908, um ano após a morte de Antônio.

Transformação

No início da década de 70 do século passado, a região do Cai-Cai começou a passar por modificações, com a abertura da avenida São Sebastião e, em 1973, o cemitério deu lugar à praça. 

Carlos, que tinha o hábito de frequentar a antiga capela existente no espaço e de tocar o sino na festa de São Sebastião quando a procissão se aproximava, torce para que o local não seja esquecido.

“Gostaria que o nosso atual prefeito olhasse para essa praça e pudesse transformá-la em um ponto histórico e conhecido. Uma parte marcante de nossa história está aqui”.

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