De cada 10 imigrantes contratados, mercado de MT demite oito

Escolaridade é atrativo para empresários, mas não para os cargos que os estrangeiros desejam

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Ao longo do primeiro semestre de 2019, em Mato Grosso, a cada 10 contratações de pessoas estrangeiras no mercado formal de empregos, foram registradas oito demissões de imigrantes.

Os dados são do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que aponta ainda: os imigrantes que chegam ao Brasil, em sua maioria, têm idade entre 20 e 39 anos e, pelo menos, o ensino médio completo.

Em termos de escolaridade, aliás, os que concluíram uma faculdade também somam um número considerável. Aparecem em segundo lugar no ranking.

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Mas o preparo dessas pessoas para o mercado de trabalho pode ser, exatamente, o que faz o número de demissões ser tão expressivo em comparação com as contratações.

O coordenador-geral de Imigração Laboral do Ministério da Justiça, Luiz Alberto Matos dos Santos, afirma que o nível de escolaridade dos imigrantes atrai os empregadores.

“Eles têm nível escolar considerável. O mercado percebe uma possibilidade, pela experiência e pela capacidade educacional”, disse à Agência Brasil.

A oferta das vagas, contudo, não condiz com o nível de formação escolar dos imigrantes. É o que sustenta o haitiano Jackson Hyppolite, 28 anos, que está em Cuiabá há cerca de cinco anos.

Com diploma, mas sem vaga

O levantamento mês a mês feito pelo Ministério da Justiça revela que os cargos mais comumente ocupados pelos estrangeiros são na linha de produção de indústrias, como serventes de obras ou faxineiros.

Jackson Hyppolite é exemplo disso. Ele conseguiu entrar na universidade – cursou Ciências Contábeis – oito meses após chegar em Cuiabá. “A primeira palavra que eu aprendi a falar em português foi ‘faculdade’”, lembra ele.

O curso superior, entretanto, não foi o suficiente para que ele conseguisse a vaga de estagiário no setor de contabilidade do supermercado em que trabalhava como empacotador.

“Eu até fazia o balanço do estoque da peixaria, mas não me deixavam mudar de cargo”, conta, lembrando que a insatisfação o fez deixar o emprego um ano após a contratação.

A recolocação no mercado de trabalho acabou sendo no cargo de garçom, que ele também deixou pouco tempo depois. Só recentemente Jackson conseguiu uma vaga como gerente. Vai comandar o restaurante que um conterrâneo abriu há pouco tempo em Cuiabá.

Jackson inclusive chegou a passar – foi o primeiro colocado para o cargo de técnico em contabilidade – no processo seletivo para o Hospital Municipal de Cuiabá. Só não ficou com a vaga porque o edital previa a contratação apenas de candidatos brasileiros.

“Quero a vaga para mostrar que os haitianos têm capacidade não só para vender picolé na rua”, ele disse à reportagem do LIVRE, na época.

Pior para as mulheres

Os dados do Ministério da Justiça revelam também que os homens estrangeiros estão mais inseridos no mercado de trabalho formal do que as mulheres que chegam de outros países.

Enquanto eles somaram – só em Mato Grosso – 1.152 contratações de janeiro a julho deste ano, elas ocuparam 272 postos de trabalho com carteira assinada.

A diferença entre contratações e demissões – para cada 10 contratadas, pelo menos outras 8 são demitidas –, entretanto, é igual para ambos os sexos.

No primeiro semestre do ano, o pior período para os imigrantes que buscaram emprego em Mato Grosso foi maio. Além de as contratações terem sido em menor número dos que nos outros meses, o volume de demissões superou o de preenchimento de vagas.