“Danoninho cuiabano”: sabe qual é a fruta que traz a chuva e a sorte?

Fruta é um dos ícones da cultura cuiabana, além de ser deliciosa

Mais do que gastronomia, a manga também é um dos símbolos culturais da cidade. (Reprodução/Pixabay)

A ribeirinha e artesã cuiabana Domingas Leonor da Silva perdeu a conta das mangueiras que ela viu cair no barranco do rio devido à erosão. Ela conta que antes as árvores eram muitas. Estavam nas margens do rio, no bairro onde vive em Cuiabá, o São Gonçalo Beira Rio, e no fundo dos quintais.

Espaços sem obstáculo para o acesso dos vizinhos, amigos e visitantes, já que as casas não estavam cercadas por muro.

“Hoje não dá mais para ser assim. Muita insegurança e temos medo de entrarem nas nossas casas e levarem nossas coisas”.

Rica em sabor, a fruta se confunde com a cultura cuiabana. Era na sombra da mangueira que as crianças brincavam e as famílias se reuniam. Sem contar os sucos, picolés, cremes e saladas feitas com o ingrediente.

E não importa a “qualidade”. Apenas nos fundos da casa de Domingas estão pés de rosa, bourbon, pequi, povilho, coquinho e roxa.

Com toda grandiosidade, não tinha como deixar de estampar a manga nas saias das dançarinas de siriri do grupo Flor Ribeirinha, que ganharam o mundo com apresentações.

“É um fruto muito valioso. Fora do Brasil custa uma fortuna. E lá é muito pequeno e sem gosto. Eu cheguei de tirar manga com um quilo e meio daqui do quintal”.

Estações do ano

As flores já começaram a brotar e nada da chuva da manga. Cuiabanos tradicionais e paus-rodados aguardam ansiosos por este momento, que marca o fim do período de estiagem e ainda garante que a colheita será abundante.

Dona Domingas mora no São Gonçalo Beira Rio e mostra o quintal repleto de pés de mangas. (Ednilson Aguiar/O Livre)

Domingas, que é descendente de coxiponés e aprendeu com a avó os segredos da interpretação da lua, assegura que até o final da próxima semana teremos uma chuva forte, a da manga.

Ela afirma que as nuvens estão se posicionando sobre a lua de uma forma peculiar, que indica a precipitação. Este ano, ela será em agosto, mas há décadas atrás era no final de junho.

Falar manganês

A manga está presente na linguagem, arte e mesa dos cuiabanos nativos, chamados de “chapa e cruz”. Devido ao vasto potencial nutricional, ganhou o carinhoso apelido de “danoninho cuiabano”.

Segundo os mais antigos, na época de produção, as crianças ficam gordinhas e nutridas.

Em alguns pontos, como no São Gonçalo Beira do Rio, os garotos desenvolveram uma técnica de arremessar o chinelo de dedo, ou “bambolê”, no galho e aparar a fruta com a mão. Tudo para não amassar.

Nem sequer na hora do espanto ou dificuldade ela sai da cabeça. Logo é representada na conversa pelo termo: “chupa esta manga”.

Tudo isto sem contar o “cão chupando manga”, que faz parte do palavreado em todo o país.

Já não é a preferida

Nos quintais mais tradicionais, a árvore tem presença marcante, mas nas novas casas e residenciais ela foi deixada de lado.

O coordenador do projeto Disk Cidade Verde, Abel do Nascimento, conta que o tamanho diminuto dos lotes atuais impactou no cultivo das mangueiras.

Muitas das casas que tinham a árvore foram vendidas e divididas para atender às demandas do setor imobiliário.

Segundo Abel, a planta exige uma área ampla, porque tem grande porte e ainda uma copa cheia, exigindo que não haja nenhum tipo de fiação no terreno.

Outra questão que impacta na escolha da árvore é a quantidade de folhas e frutos produzidos.

“Quem pode plantar diz que não quer limpar a sujeira. Eles também não podem queimar as folhas, como faziam antigamente”.

Mesmo com todos os obstáculos, Nascimento assegura que a frutífera ainda é a preferida entre as pessoas que buscam mudas nas ações públicas de distribuição.

“Quem tem sítio ou um terreno grande sempre começa pelo kit básico: uma mangueira, um cajueiro e uma goiabeira”, diz.

De onde veio

A manga é originária do Sul e Sudeste da Ásia e as primeiras mudas foram trazidas a Cuiabá pelos bandeirantes, há 3 séculos, quando a cidade foi fundada. A adaptação foi instantânea e, em pouco tempo, estava inserida na cultura local.

Primeiro, relata nascimento, foi a expansão da qualidade comum, com mais fiapos, e depois vieram outros tipos, entre elas a Bourbon, a preferida dos cuiabanos.