Cuiabana tenta infectar o filho com vírus da zika para tratar tumor no cérebro

Gabriel é voluntário de uma pesquisa brasileira que parou por falta de verba. Agora, a mãe tenta uma solução por conta própria

Imagem Ilustrativa (Foto: Anna Shvets / Pexels)

“Meu filho precisa ser infectado pelo vírus da zika para salvar sua vida”. Esse é o apelo que a contadora Jeanne Amaral Gonçalves Silva, 40 anos, fez nas redes sociais. Ela é mãe de Gabriel Amaral Gonçalves, de 5 anos, diagnosticado em março do ano passado com um tumor cerebral.

Há mais de um mês ela procura – sem sucesso – algum morador de Cuiabá ou Várzea Grande (Região Metropolitana) que tenha a doença. Apesar de estranho, o pedido revela o desespero de uma mãe na tentativa de curar o filho.

E faz sentido. Uma pesquisa realizada na USP, de fato, usa o vírus para combater tumores cerebrais, mas ela ainda não foi finalizada.

Responsáveis pelo estudo, Mayana Zatz e Carolini Kaid, doutoras em genética, já testaram o vírus em animais, mas ainda precisam estudar o comportamento em humanos. Essa fase da pesquisa, porém, está paralisada por causa da pandemia da covid-19.

Gabriel está na lista de voluntários, mas não há expectativa sobre a retomada. Por isso, por conta própria, Jeanne quer infectar o filho com o vírus para tentar o mesmo efeito.

“Posso até ser presa, mas não temo. Já cheguei no nível do desespero. Já falei com políticos, mas como não é o filho de nenhum deles, não houve avanço. Vou fazer o que der”, ela conta.

Para isso, Jeanne está criando o mosquito Aedes Aegypti, que transmite a doença, em um local controlado. A ideia dela é que a pessoa infectada seja picada pelo mosquito que, posteriormente, também picará Gabriel. “Meu filho não pode esperar”.

Entretanto, há uma ressalva: as autoras da pesquisa não recomendam “fazer o procedimento em casa”. Segundo elas, “é preciso finalizar a pesquisa para ter garantia do efeito da terapia”. É que a carga viral do mosquito pode ser insuficiente, por exemplo.

De inimigo a aliado

No Brasil, entre 2015 e 2016, o vírus da zika foi responsável por um surto de microcefalia em bebês nascidos de mães infectadas durante a gestação. Investigando os casos, as pesquisadoras descobriram que o vírus tem preferência por células progenitoras neurais nos fetos.

São essas células que mais tarde se transformam em neurônios e dão origem ao cérebro. De acordo com as cientistas, os tumores cerebrais possuem células extremamente parecidas com essas.

A confirmação veio em testes de laboratório: em três dias, o vírus destruiu as células dos tumores observados em lâminas.

O segundo passo foi testar a carga viral em camundongos. O resultado também foi promissor: em cinco semanas houve remissão total do tumor.

Em casos com tratamento regular – que inclui radio e quimioterapia – os tumores reaparecem. A terapia viral também foi testada com sucesso em cachorros.

Pesquisa paralisada

O próximo passo é um estudo clínico em humanos. Num primeiro momento, os voluntários seriam crianças que estejam em cuidados paliativos, ou seja, quando nenhum tipo de terapia tem mais eficácia no combate à doença.

Contudo, para avançar, as pesquisadoras precisam do que chamam do “vírus clínico”, que é produzido em laboratório. Em outras palavras, precisam de dinheiro e estrutura.

Com a paralisação da pesquisa no Brasil por causa da pandemia, a alternativa é utilizar tecnologia de fora do país. Para isso, elas iniciaram um financiamento coletivo para custear a etapa. A meta é conseguir R$ 600 mil. Até a publicação desta reportagem, quase R$ 400 mil haviam sido doados.

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