Coronavírus adia o “sim”: casamentos se tornaram raridade em MT

Casal de Campo Novo dos Parecis prorroga a data; Na capital, salões de beleza, lojas de aluguel de roupas e buffets sentem o peso da crise

Samara Trevisan e Augusto Guaresi Aguiar tiveram que adiar por um ano o casamento (Arquivo pessoal)

Os noivos disseram sim, mas o coronavírus, disse não. Para muitos casais de Mato Grosso, o sonho foi adiado e até, cancelado. Pelo menos, essa é a notícia que chegou a lojas de aluguel de roupas, salões de beleza e buffets que tiveram que rever ou anular contratos.

O sonho interrompido pode ser confirmado por dados do Portal da Transparência do Registro Civil. Em abril do ano passado, em Mato Grosso, 952 casais se uniram no matrimônio. Na maior cidade, Cuiabá, foram 293.

Mas em abril deste ano, na capital, não houve sequer 1 casamento. Apenas dez, dos 141 municípios, registraram um total de 50 enlaces matrimoniais.

O cenário para maio, mês tradicional dos casamentos, também é desolador não só para os enamorados, como também, para quem vive dos casórios. Para se ter uma ideia, 1172 pares se casaram no passado. E diante do cenário de incertezas que se descortina, este ano entrará na história do setor, segundo empresários do ramo.

Sem aluguel de roupas

Empresária Eliane Rodrigues trabalha a sete anos com vestidos de noiva, e diz nunca ter imaginado uma crise parecida ao do coronavírus (foto: arquivo pessoal)

Dona de uma loja de roupas de aluguel em Cuiabá, Eliane Rodrigues, diz que nunca viu nada igual como o impacto que a pandemia de coronavírus trouxe ao seu negócio. Em média, alugava 100 vestidos de festa por mês.

Já em maio, atenderia oito noivas. “E cada noiva leva para o altar mais 12 casais de padrinhos e madrinhas. Contando com o noivo, seriam 26 trajes”.

Com portas fechadas, e sem previsão de retomada das atividades, a empresária se emociona ao contar que precisou demitir parte da equipe.

“Não tive outra saída senão demitir duas costureiras que são meu braço-direito. São essenciais, mas foi a maneira que encontrei de ajuda-las para que não passassem dificuldade pois elas vão receber o seguro-desemprego por cinco meses”.

A frustração dos noivos em ter que cancelar ou adiar o “sim”, contagia também floriculturas, distribuidoras de bebidas e decoradores. Caso de Marcos Corrêa.

“Ver o projeto de meses sonhado junto com os noivos não sair do papel é decepcionante. A questão econômica pesa, mas tem o emocional. A gente também fica desolado”, testemunha o decorador.

Pelo bem da família

O casal Samara Helena Torres Trevisan, 25 anos e Augusto Guaresi Aguiar, 28, compartilham do sentimento. O amor segue firme, mas eles decidiram adiar o casamento para daqui um ano.

Eles declaram que se sentem por isso, mas preferem seguir o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e autoridades locais. Eles moram na fazenda São Pedro, que fica a 30 quilômetros de Campo Novo do Parecis (a 397 km de Cuiabá).

Noivos há dez meses, eles estão cautelosos pela segurança da família, pois viriam parentes do Paraná e Minas Gerais para a cerimônia em junho. Agora, o casamento ficou para o mesmo mês em 2021.

“Foi uma questão de bom senso. E queremos reunir todo mundo que é o mais importante”, disse Samara. Ela declara que ambos já estão conformados. “Estamos muito mais tristes com a situação em que o país se encontra, do que com o fato de termos adiado a data do casamento, porque queremos todos bem”.

Salões de beleza amargam crise

Mas esse é o universo de um casamento. Imagine só, quem tem vários deles para atender mensalmente. Sem ter como trabalhar, empresários dos salões de beleza torcem por remarcações, não tão distantes.

Salões de beleza de Cuiabá sofrem com a ausência das clientes: algumas noivas cancelaram casamentos (FreePik)

A sócia-proprietária do salão Condessa, da unidade da Avenida Miguel Sutil, conta que entre os meses de abril e julho, atenderia 12 noivas. Desse total, oito remarcaram a data para o segundo semestre deste ano. Outra, para 2021. Duas, mantiveram a data de julho, sujeita a alteração e uma, desistiu.

O empresário Guilherme Bravo, do salão homônimo, ressalta que a falta das noivas só agravou a situação, já que os salões de beleza foram os primeiros a sentirem o impacto do coronavírus, tendo que fechar as portas.

“Estamos há um mês parados. Ao todo 13 noivas cancelaram os pacotes. Isso sem contar as formandas e debutantes que deixamos e deixaremos de atender”.  Ele avalia que os centros de beleza foram os mais prejudicados com a quarentena.

“Sofremos por não ter um sindicato. Nosso apelo está sendo através de um grupo de WhatsApp, onde cada um expõe suas dificuldades. Não temos um retorno da prefeitura, nem dos bancos, nem de ninguém”.

E dentro da turbulência, há quem haja com otimismo. O dono do Seletto, Clayton Martins, diz que até o momento, não houveram cancelamentos. “Só adiaram. Também não tivemos demissões graças às medidas rápidas que tomamos logo que notamos a gravidade da situação”, relembra.

Buffets fechados

A empresária Adel Ayoub Malouf, sócia-proprietária de um dos mais procurados buffets da cidade, o Leila Malouf, diz que a ausência dos noivos e seus convidados nos salões só aumenta o impacto, afinal, eles sediam todo tipo de evento, como festas de 15 anos, bodas e formaturas.

“A pandemia do coronavírus está afetando todos os negócios de uma forma geral. Mas o setor de eventos/alimentação talvez seja um dos mais prejudicados nesse momento”, defende. Todos os eventos de abril e maio – distribuídos por seis espaços – foram remarcados para os próximos meses.

“Somos uma empresa de 27 anos no ramo da gastronomia e nunca vivemos algo parecido. Estamos confiantes que tudo isso passará o mais rápido possível”.

Aderindo à Medida Provisória 936 do Governo Federal, a rede que engloba ainda os restaurantes Mahalo, Mahá , Novo Sabor e Menuto Gastronomia Prática, colocou 90% da equipe em regime de suspensão de trabalho. Os demais tiveram redução na jornada de trabalho. A empresária espera recompor a equipe em breve.

E ao mesmo tempo, tiveram que se reinventar, diante da necessidade de baixar as portas frente ao isolamento e queda abrupta da clientela. “Desde que tudo isso começou, já iniciamos várias projetos e estratégias. Para a Páscoa, por exemplo, fizemos vários pratos que o nosso cliente pode encomendar para o almoço”.

Eles já estão prontos para atender no Dia das Mães. “Afinal, a data já é tradicional no nosso calendário. Antes, servíamos um banquete para 500 pessoas, agora, vamos criar kits de comida árabe e italiana para encomenda e entrega na casa do cliente”.

Com otimismo, finaliza: “Estamos certos que tudo isso irá passar e que logo estaremos de volta a outros importantes profissionais da área, para continuar realizando sonhos”.

Salões do Leila Malouf são cenários de “casamentos dos sonhos” (Foto: Fares Rames/Reprodução Facebook Leila Malouf)

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