“Convivo com uma ferida aberta”, diz mãe que perdeu os filhos em incêndio

Após perdas traumáticas, policial militar aposentada segue a vida tentando ajudar o próximo

Como seguir em frente depois de uma tragédia? Para superá-la, muitas pessoas tentam deixar o passado no lugar dele. Mas dependendo do trauma, esquecer não é uma tarefa possível. “Se eu superei? Na verdade eu não tive outra escolha. Convivo com uma ferida aberta”, diz uma mulher que se movimenta para permanecer de pé.

No dia 31 de julho de 2013, ao tentar acessar a entrada do condomínio onde morava, a policial militar Luzmene Alves Vieira se assustou ao ver o tumulto e os carros dos Bombeiros e viaturas da polícia estacionados na frente do residencial. Ela trazia consigo o almoço para os dois filhos de 5 anos e a filha de 15.

“Desci da viatura e perguntei a um senhor que estava lá: ‘moço, o que está acontecendo?’. Ele me disse: ‘dois meninos morreram queimados’. E então eu perguntei a ele: ‘mas não são os meus filhos, não é?’”. Eram. Luzmene chegou minutos depois de o incêndio ter sido contido.

“Havia ligado para casa e avisado minha filha, que estava abatida com febre, que eu já estava saindo do quartel para levar o almoço. Quando eu estava saindo, um oficial pediu que eu o ajudasse a ir para Várzea Grande. Fui e voltei para pegar as marmitas no quartel. Foi por muito pouco”, emociona-se, ainda hoje.

A filha, Nikeuri, hoje com 20 anos, estava no andar de cima quando notou a fumaça que vinha de baixo. Quando ela viu que não conseguiria aplacar o fogo, saiu correndo de casa para tentar buscar ajuda. Chorava e gritava pedindo pelo amor de Deus, que seus irmãos fossem salvos.

Vizinhos – incluindo crianças que brincavam com os meninos – e pedestres que passavam pela rua tentaram ajudar com baldes de água e extintores, mas as chamas e a fumaça no térreo da casa estavam muito fortes e eles não conseguiram contê-lo.

Tragédia foi amplamente divulgada pelos principais jornais da capital (Fotos de Kelly Martins e Lislane dos Anjos)

Quando os bombeiros conseguiram apagar o incêndio, encontraram os dois meninos carbonizados. Eles morreram abraçados, encurralados, sem conseguir sair do pequeno cômodo onde estavam. Tanto Nikeuri quanto a mãe ficaram em estado de choque.

“Fui tomada pela depressão e só queria morrer. Eu já entrava em um lugar tentando encontrar algo para me matar. Eu procurava por cordas, por facas, lugares em que eu pudesse pular, vivia só calculando isso. Mas graças a Deus, orientada por amigos e parentes, busquei ajuda e consegui encontrar apoio médico. Foi isso que me ajudou a seguir em frente”.

Revivendo este dia, Luzmene lembra que acordou cedo e, como não encontrava uma mochila que precisava, entrou na despensa onde os dois meninos foram encontrados.

[featured_paragraph]“Lá tinha muitos tapetes, roupas, sacolas e a porta estava tão difícil de abrir que eu tive que forçá-la. Ao sair, deixei um vão. Justo naquela semana, eu havia usado fósforo na cozinha, coisa que eu não usava. Minha filha, como estava doente, subiu para o andar de cima para deitar. A senhora que cuidava do condomínio e sempre os olhava para mim não tinha ido nesse dia. E umas três vezes antes, eu havia tentado levá-los para ficar com minha mãe em Goiás, mas os ônibus estavam sempre lotados”.[/featured_paragraph]

Segundo ela, os pequenos Nikson e Luiz Henrique se comportavam como irmãos gêmeos, de tão unidos que eram. Mas agora, além de Nikeuri e o mais velho da família, Nikolas – que estava trabalhando no dia da tragédia -, Luzmene se desdobra também em cuidados com o neto, que a filha teve 9 meses e 9 dias depois do ocorrido.

Uma nova realidade

“Enterrei os meninos na quarta-feira e, na segunda, para concluir o curso ao qual eu estava me dedicando tanto nos últimos tempos, fiz a prova do curso de sargento”. Nos últimos tempos ela se dividia entre os plantões e o curso e, por esse mesmo motivo, talvez se sentisse culpada por não estar lá para evitar a maior tragédia da sua vida.

Por conta das trocas de comando – ela foi liberada para fazer as aulas por um oficial que já não está mais lá –, Luzmene ainda tenta na Justiça conquistar a promoção. “Um ano antes, sofria muito com um relacionamento abusivo e isso refletiu na minha vida, no meu trabalho. E eu havia sido impedida de fazer o curso por comportamento insuficiente. Sonhando em seguir adiante na carreira militar, fiz um documento para o meu comandante, pedi para que cancelasse minhas comissões, reclassificasse meu comportamento e me autorizasse a assistir as aulas. Foi muita luta para conseguir concluir o curso”.

No entanto, até hoje não conseguiu o título e, então, aposentou-se como cabo.

Outra ação, diz respeito a Luiz Henrique. Por conta da morosidade legal, mesmo que ele não esteja mais vivo, ela aguarda solenemente o processo de adoção. Luiz foi acolhido por ela quando ainda era bebê. “Luiz veio para casa quando ainda tinha sete meses”, diz. Os pais de Luiz, conta ela, não tinham condições de criá-lo.

“Ele estava sob os cuidados de uma tia. E eu sempre ia lá para vê-lo, pois havia conhecido seus pais, desde que a sua mãe biológica estava grávida. Em uma noite de frio, cheguei lá para visitá-lo. A tia deixou que eu o levasse para casa. Deu banho um banho gelado nele e disse que eu podia levá-lo. Dias depois liguei para combinar de levá-lo e ela disse que eu poderia ficar com ele. Foi então que decidi entrar com o processo da adoção”, relembra.

Guinada

(Foto: Ednilson Aguiar/ O Livre)

Há três meses, Luzmene deu nova guinada. Aguardando ainda essas definições judiciais, ela segue a vida. Luzmene abriu um Centro de Estética Popular, o Maria Vem com as Outras, no bairro Morado do Ouro II, em Cuiabá, e reuniu uma equipe de mulheres batalhadoras que, assim como ela, buscam uma vida melhor.

Montou o salão em sua própria casa, equipou com móveis e eletrodomésticos e não cobra nada das profissionais que utilizam o espaço.

“A gente divide comida, se precisar. O que importa é que estejamos unidas. E o trabalho é lindo: reforçar a autoestima de mulheres como nós. Os preços são populares e o meu propósito é de atender também em regime de voluntariado.

O espaço fica na rua 10, quadra 11, número 22, Morada do Ouro 2 (próximo à Caixa Econômica). Contatos pelo telefone 65 99951-0787. E Luzmene conta, animada, que logo abrirá espaço em centro comercial em frente à Praça Bispo Dom José. “Faço questão de contratar mulheres solteiras”, afirma.

“Quero fazer mais pelas pessoas. E eu sempre digo para quem é mãe: lute pelos seus filhos, porque eu não tive oportunidade de lutar pelos meus. Não desistam em hipótese alguma, pois eu estaria feliz por visitá-los, nem que fosse em uma prisão”.

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