Comparativo do desenvolvimento científico da Hungria com Brasil

Meu nome é Lécio Pery Júnior e, a pedidos de um dos autores, Marcelo Hermes Lima tenho a honra de aceitar o convite para a produção der uma resenha do artigo “Ciência e economia: o que a Hungria tem a nos ensinar?”. Acredito estar suficientemente qualificado por fazer parte da comunidade científica. Embora não possua mestrado ou doutorado, tenho bacharelado em Engenharia da Computação e também em Matemática. Por isso, acredito estar capacitado o suficiente em relação aos únicos pré-requisitos para entender esse trabalho: compreender os dados numéricos apresentados e um mínimo necessário sobre o contexto geopolítico que vivemos desde o século XX. Marcelo, biólogo e cientometrista, trabalhou com sua equipe de acadêmicos igualmente qualificados estudando um ponto de vista científico pouco explorado no Brasil sobre desenvolvimento econômico e ciência.

Sempre acreditei que o ethos brasileiro é pautado por inversões, seja entre significados e significantes ou entre causas e efeitos. Um caso especial é o da ciência, particularmente entre as autoridades da área, quando tentam estabelecer um modelo espelhado nos países desenvolvidos. Fracassam por não entenderem como esses países se desenvolveram já que acreditam em mitos que esse artigo pretende desmascarar.

O principal desses mitos é que a educação é a base de todos os frutos positivos de uma sociedade, como liberdade econômica, empreendedorismo, progresso científico e até mesmo cidadania. Acreditando nisso, defensores do atual modelo de educação acreditam que mais investimento na educação, sem nenhum filtro ou direcionamento das quantidades investidas, gerará os mesmos resultados de um país desenvolvido. Vão além: acreditam que se obtivermos produções científicas na mesma quantidade, independentemente de sua qualidade, então validamos todo o sistema que ganha uma blindagem moral e status de infalibilidade.

Ao comparar a Hungria com o Brasil, o artigo mostra algumas informações pouquíssimo comentadas mas que ganham um caráter de crítica irrefutável quando contextualizadas dessa maneira. Em especial, os dados mostram que o impacto científico se dá pela qualidade e não quantidade de obras produzidas. Além disso, alguns dados mostram que a escolarização é qualitativamente melhor que a de seus vizinhos, diferentemente de uma educação sem parâmetros.

O artigo ressalta que dentre os países socialistas a Hungria era o mais economicamente aberto antes mesmo de 1989, ano em que desligou-se do COMECON. Mobilidade social e escolaridade eram fatores já presentes em uma sociedade que, então, passou a perseguir uma paulatina entrada da economia de mercado. As corporações transnacionais(TNCs) foram um veículo que impulsionaram o crescimento econômico de modo que a Hungria beneficiou-se da globalização.

Enquanto o Estado Nacional da Hungria focava na evolução da pesquisa e desenvolvimento(P&D), o nacionalismo brasileiro adotava práticas cada vez mais protecionistas em uma época onde o discurso anti-globalização dos anos 1990 era alavancado como uma das principais pautas do Socialismo Ocidental. Nossa Esquerda, nacionalista, estava perfeitamente alinhada ao discurso do combate ao neoliberalismo.

O resultado é que segundo o artigo, A melhora do PIB per capita húngaro, entre 1996 e 2018, se deu em paralelo com o aumento do impacto da ciência e tecnologia (C&T) húngara, medido em Rank score ao passo que o Brasil […]publicou 78 mil trabalhos naquele ano[2017], ficando no 14º lugar mundial em quantidade mas em termos de citações medidas em CPP apresentou 45,7% do CPP do 1º lugar em 2017. Além disso, para a Hungria, A correlação de Pearson entre PIB per capita e Rank score resultou num  de 0,875.

Essa correlação significa que se o PIB per capita não é um dos fatores responsáveis pelo Rank score, teriam uma origem comum em um ou mais fatores que, por sua vez, são muito bem elencados ao final do artigo.

Para atiçar a curiosidade do leitor, deixo ainda mais algumas citações sobre o quanto fomos vencidos pela Hungria na corrida para sair do subdesenvolvimento: Nas 13 áreas analisadas, o Brasil ficou atrás da Hungria, mesmo naquelas em que os húngaros obtiveram resultado ruim em impacto, como Neurociência e também Apesar de tudo, a Hungria apresentou Rank scores maiores do que os do Brasil em 9 das 10 áreas analisadas no gráfico a seguir. Sugiro abrir o artigo e olhar o gráfico, é realmente estarrecedor.

Quanto ao momento em que a Hungria nos ultrapassou, já tendo nos alcançado de uma posição subdesenvolvida em termos de tecnologia e pesquisa, o artigo é enfático: É interessante notar que o Rank score da Hungria começou a se diferenciar do Brasil por volta de 2007, período de intensificação da volta dos pesquisadores húngaros para o país. Vale lembrar também que até 2018 o órgão regulador da ciência na Hungria, o MTA (Magyar Tudományos Akadémia), era autônomo. Ou seja, o MTA tinha uma legislação, especialmente para captação de renda, independente do Governo nacional

Ainda segundo o artigo, Em termos de quantidade de publicações, [A Hungria] estava em 48º lugar mundial em 2017, com 11,4 mil publicações em periódicos indexados no Scopus. Para ter uma ideia de escala, o Brasil publicou 78 mil trabalhos naquele ano, ficando no 14º lugar mundial em quantidade.

A minha conclusão sobre a qualidade do artigo é que a cientometria está muito bem representada nele. Explica claramente que quantidade não dá citações, medidas em CPP: no ano de 2017 o Brasil publicou 78 mil trabalhos científicos, muitos sem relevância, e a Hungria publicou 11,4 mil. Mesmo que 78 seja muito superior a 11,4 a Hungria possui um CPP maior. E tudo isso provavelmente se deve não a qualquer decisão pontual isoladamente, mas todo uma divergência de paradigmas. O Brasil enxerga a educação como um direito a ser garantido com poucos parâmetros e métricas de qualidade enquanto a Hungria enxerga todo o processo, tendo foco nos resultados e não nos números.’

 

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