|Quinta-feira, 20 setembro 2018
(Foto: Evilázio Bezerra/Folha Imagem)

Como uma torta na cara mudou as regras de segurança dos governadores de Mato Grosso

Depois do episódio, o cerco apertou principalmente na chamada “segurança aproximada” do governador

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A última pessoa a entrevistar o então governador Blairo Maggi naquela tarde de 7 de setembro de 2003 levava na bolsa uma torta de soja e nas mãos um gravador. Passando-se por jornalista, o universitário Leonardo Gregianin, membro do “Confeiteiros Sem Fronteira”, conseguiu despistar a segurança pessoal de Maggi para subir no palanque. Enquanto o governador respondia a uma de suas perguntas, Gregianin tirou a guloseima da bolsa e tascou a torta no rosto da maior autoridade política do estado. Era o começo de uma crise na segurança do alto escalão político de Mato Grosso.

O coronel Walter Pereira de Fátima, hoje na reserva, ocupava o cargo de chefe da Casa Militar e era um dos responsáveis por manter Blairo a salvo de qualquer ameaça e ataque. Não demorou até que o militar convocasse uma reunião interna, na qual decidiram apertar o cerco e aumentar o rigor do protocolo em torno de Maggi. “Ele levou na esportiva, mas eu me senti um incompetente”, diz o coronel, em entrevista ao LIVRE por telefone.

A equipe especializada, muitos treinados pelo Exército, enfrentaria, naquele momento, um entrave e tanto: Maggi, que nunca tivera segurança pessoal, tinha hábitos de produtor rural e não de autoridade. Hospedava-se na casa de amigos, com poucos quartos, o que diminuía a possibilidade de mais seguranças o acompanharem; mudava a rota das viagens para visitar “compadres” do norte do estado; tomava o lugar do motorista (que também era segurança) e dirigia os veículos. Era, por tudo isso, uma espécie de “Lula” da fronteira agrícola, com hábitos rurais que o aproximavam do povo do interior – destino das principais viagens oficiais.

Tinha que mudar

Se por um lado a simpatia do governador amenizava os anseios separatistas do norte do estado, órfãos de uma liderança com raízes no interior, por outro preocupava os responsáveis pela segurança, que precisavam encontrar formas de enrijecer o protocolo sem afetar o relacionamento de Maggi com eleitores e correligionários. “Ele era uma autoridade meio teimosa”, explica, entre risos, o tenente-coronel Vladimir Zanca. “Eu fiquei na segurança praticamente dois mandatos inteiros, demorou até ele entender que nós estávamos lá para proteger não o cidadão Blairo e sim a autoridade”, afirma.

Vladirmir Zanca, agora no Ciopaer, diz que o episódio provocou mudanças na segurança do governador (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Zanca explica que a segurança de uma autoridade funciona como círculos em volta de um centro. Cada círculo representa uma espécie de “barreira” que deve impedir eventuais ataques e atentados. As chances de atingir o representante político, no centro dos círculos, é menor quando estas barreiras funcionam. “Naquele dia, ele [o falso jornalista], ultrapassou todas estas barreiras, foi uma falha não só da segurança, mas uma falha também estrutural”, revelou.

Com um extenso currículo de treinamentos e especializações em proteção de autoridades, Zanca resumiu seu cabedal profissional com uma chave de braço no universitário. O tenente-coronel evitou, aliás, que mais torta recheasse o rosto do governador, quando deu um tapa nas mãos de Gregianin.

O ataque não teve registros fotográficos, principal objetivo do Confeiteiros Sem Fronteiras. A imprensa já tinha se retirado quando tudo aconteceu e só restava as câmeras da assessoria de imprensa do governo.

Depois do episódio, o cerco apertou principalmente na chamada “segurança aproximada” do governador, composta por cerca de cinco militares, que estão sempre em volta da autoridade.

A equipe “percursora”, composta por homens que chegam primeiro em viagens e cerimônias oficiais, também teve um reforço depois do “vexame”.

“Geralmente nós temos uma equipe grande, que é a equipe percursora, que vai antes, vê todos os riscos. E faz a limpeza do local, retira escutas, verifica se o local atende aos requisitos da autoridade. E há a segurança aproximada, que vai junto com a autoridade. A quantidade total de pessoas é grande, vai de sete a doze”, explica Zanca.

O cuidado dobrado fez com que o pessoal chegasse a viajar três vezes ao Chile para preparar a rota por onde Maggi chegaria ao país andino. “Em toda a estrutura mudou bastante coisa. Mudou porque tinha que mudar”, relembra o tenente-coronel.

Mesmo com a segurança reforçada, Maggi deixou de assistir aos desfiles de 7 de Setembro. Em seu lugar, Silval Barbosa acompanhou a solenidade nos três últimos anos do primeiro mandato. Mais tarde, Silval assumiria o Paiaguás.

 

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