Como perdi a minha avó para o descaso

A sequência de negligências que fez um ente querido perder a vida e entrar (erroneamente) para as estatísticas da covid-19

Este é um relato de dor, sofrimento, revolta e principalmente negligência. Um relato sobre a morte de uma idosa de 83 anos que procurou auxílio médico por três dias até morrer em uma ambulância após uma sequência de erros na saúde pública de Cuiabá.

1º dia

Na quarta-feira (27), por volta das 10 horas, Cidália Vieira Cabral, 83 anos, minha avó, foi levada para a Policlínica do Coxipó, no Bairro Vista Alegre, em Cuiabá, com uma forte dor no braço direito, inchaço e não conseguindo mexê-lo direito.

A única suspeita que levantaram foi de que ela tivesse quebrado o braço, embora ela não tivesse sofrido nenhuma queda, por ela ter osteoporose. Por isso, foi realizado um raio-x, que não apontou nenhuma fratura.

A princípio, pediram um exame para diagnosticar covid-19, mas mesmo sem a realização do exame, a infecção foi descartada, visto que ela não tinha nenhum sintoma da doença.

Enquanto ela estava na policlínica, o braço inchou mais e começou a ficar roxo; então deram um soro com medicação, mas disseram que não podiam interná-la, devido à pandemia de coronavírus.

Com o resultado do raio-x, porém, o médico disse que ela poderia ter sofrido apenas uma luxação no braço, passou alguns remédios – que meus pais compraram – e a mandou de volta para casa.

Nessa noite, minha avó não dormiu com a dor no braço, mesmo tomando os remédios que o médico passou.

2º dia

Na quinta-feira (28) de manhã, meus pais e minha tia a levaram na policlínica de novo.

A equipe médica perguntou se minha mãe podia levar minha avó para fazer uma tomografia do tórax no Pronto-Socorro, pois a policlínica estava lotada e a ambulância podia demorar. Então meus pais a levaram de carro, fizeram e retornaram para a policlínica.

Minha avó já não conseguia ir ao banheiro há três dias, então não conseguiram fazer exame de urina e o médico foi avisado sobre isso. Mas conseguiram fazer de sangue, que deu uma infecção.

A tomografia apontou uma leve pneumonia, que minha avó já tratava há muito tempo. Então, mais uma vez, o médico descartou covid-19 e seguiu dizendo que se tratava de uma luxação no braço. Ele passou novos remédios e a mandou para casa novamente, com a mesma alegação de que não podiam interná-la porque a unidade estava cheia de pessoas com coronavírus.

Na quinta-feira à noite, meus pais e tia ficaram conversando normalmente com a minha avó em casa até 22 horas, quando ela se deitou para dormir.

3º dia

À 1 hora da sexta-feira (29), porém, ela se levantou com muita dificuldade, foi até o quarto em que minha tia dormia e pediu ajuda.

Nesse momento, minha avó já não falava, não mexia o braço direito, a língua estava enrolada e os lábios roxos. Minha tia chamou meus pais e eles a levaram para a policlínica mais uma vez, por ser o local mais próximo da casa deles, que fica no Parque Cuiabá.

Mesmo com a minha avó nesse estado, com todos os sintomas de um AVC, e já estando na policlínica pelo terceiro dia consecutivo, ela teve que aguardar, fazer uma ficha e passar por triagem.

Havia uma médica de plantão, porém, de 1 hora da madrugada até 5h30 da manhã apenas deram dois comprimidos para minha avó e aplicaram um soro com dipirona.

Somente às 5h30, com a troca de plantão, um novo médico viu a minha avó, percebeu a situação dela e resolveu agir. Ele foi procurar a ficha de internamento dela e percebeu que nem ficha haviam feito sobre o atendimento dela.

Às 7 horas o médico achou um eletrocardiograma e um papel que dizia que haviam dado dipirona à minha avó.

Os médicos disseram em voz alta que ela não tinha ficha e decidiram pedir imediatamente uma tomografia, que deveria ser feita no Hospital São Benedito.

O médico acompanhou minha avó e minha mãe na ambulância, porém, o Hospital São Benedito não aceitou recebê-la, então eles foram para o Pronto-Socorro de Cuiabá para realizar o exame.

Quando estavam na fila para realizar o exame, o tubo de oxigênio da minha avó acabou e o motorista da ambulância o trocou. Pouco depois, minha mãe percebeu que minha avó estava desacordada e chamou uma enfermeira, que, por sua vez, chamou o médico. Ela havia sofrido uma parada cardiorrespiratória dentro do hospital.

Minha avó foi reanimada e levada para a tomografia. Ao sair, minha mãe perguntou o que havia acontecido e o médico confirmou a parada e a reanimação. Apesar disso, ao invés de a internarem imediatamente, a colocaram novamente para a ambulância que a transportaria para a policlínica.

Dentro da ambulância, minha avó sofreu outra parada cardiorrespiratória. O médico voltou a tentar reanimar minha avó, mas dessa vez ela não resistiu e morreu.

Pós-morte, o descaso continuou

De volta à policlínica, eles exigiram a presença do meu pai, que é o filho, não aceitaram mais dar as notícias para minha mãe, nora; apenas confirmaram o falecimento.

Porém, duas horas após o falecimento, não davam nenhuma informação e a assistente social não aparecia. Somente após meu pai – que está em recuperação após uma internação há poucas semanas – esbravejar na unidade, a assistente apareceu e resolveu dar o encaminhamento para a família poder ir para o Serviço de Verificação de Óbito (SVO).

Eles não souberam, em momento algum, dizer a causa da morte da minha avó. Inclusive, a todo momento, os médicos ficavam olhando os sintomas que ela teve no celular, para ver se sabiam dizer uma causa.

Quando a assistente social apareceu, no entanto, vale lembrar, ela convidou a todos nós – eu, meus pais e minha tia – para vermos o corpo, o que confirma mais uma vez que minha avó não foi vítima de covid-19, senão ela teria sido isolada imediatamente.

Mais um (não) caso de covid

Após fazermos os procedimentos necessários, o corpo foi levado para o Hospital Universitário Júlio Müller, onde, supostamente, seria apontada a causa da morte e o corpo seria liberado para o velório.

O que aconteceu, no entanto, foi que a causa saiu como “óbito de etiologia a esclarecer” e todas as doenças ficaram como suspeitas, inclusive covid-19. Então, após toda a negligência no atendimento à minha avó, nós ainda fomos impedidos de fazer um velório digno para ela.

Uma dor no braço, seguida de paralisia no braço, língua enrolando, lábios roxos, não conseguir falar e, por fim, duas paradas cardíacas, transformaram-se em covid-19 e a fizeram ser mais um número no índice de mortes macabro do dia 29 de janeiro.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Depois que nem água a Santa casa de Cuiabá dava ao meu marido e aos demais pacientes, não duvido o quanto sua vó sofreu pela ineficácia do nosso sistema de saúde.
    E quantos sofrem diariamente.

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