Como julgar Bolsonaro? Isaiah Berlin e o bom político

A diferença entre um político e um engenheiro social

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Nestes tempos de medo e confusão, e de muita cegueira política, temos que nos perguntar como julgar nossos políticos, encarregados de decisões que, mais do que nunca, vão ter um efeito profundo em nosso futuro.

O que é um bom político? É uma pergunta que muitos filósofos se fazem. Aristóteles responde a ela tanto no seu livro sobre ética, como no livro sobre política. Ele define o termo além do  terreno político. Ele fala do megalópsūkhos, o homem magnânimo, ou literalmente o que tem  uma grande alma.

Para ele, este ser humano é virtuoso, temperante, sábio, bom. A bondade, como as demais virtudes é uma condição da alma. Não basta fazer o bem, o grande homem gosta do bem. Esta condição por si só teria que eliminar um grande número de  políticos brasileiros do rol de pretensos bons homens.

Ódios partidários, disputas comezinhas, ressentimentos e traições, e principalmente a corrupção sórdida que coloca interesses particulares em primeiro lugar, não tem espaço numa grande alma política.

Mas precisamos sair da discussão viciada que culpa a corrupção por tudo, reduzindo o ideal político à estreiteza da integridade moral. Não roubar não é um mértio, nem torna ninguém um grande homem. Devem existir mais qualidades para o bom político. É fácil perceber o mau político. Achamos que eles sofrem de uma espécie de cegueira. “O político fulano de tal é cego!”- dizemos. Será que não vê o povo? Será que não percebe o momento, por que prefere a sua paixão partidária a fazer a coisa certa?

Mas o que é esta “coisa certa?” O que o político cego está deixando de perceber?

O filósofo político Isaiah Berlin faz referência a esta capacidade essencial, que ele chama de “julgamento político.” O que é isto? É um conhecimento específico? Seria um conhecimento da teoria da social ou ciência política, como alguns filósofos do passado parecem inferir? Conhecer teorias sobre o funcionamento político da sociedade capacita o homem público?

A teoria é suficiente ou seria necessário um conhecimento mais técnico? Fazendo uma analogia com o conhecimento médico de anatomia, Berlin pergunta se um conhecimento técnico pode prescindir de uma percepção prática. Ele resolve que não. O médico pode saber tudo de anatomia, mas se não tem conhecimento prático dela não é capaz de deter doenças.

Sejam os pensadores tecnocratas, como Fourier ou Comte, ou os dogmáticos como Hegel e Marx, todos incorrem no mesmo erro, diz Berlin. Eles não sabem como é construída a verdadeira percepção sobre a natureza da sociedade que inspira o político eficaz. Perdidos no teoricismo dos iluministas do século XVIII, intelectuais, cientistas políticos e até jornalistas perderam a capacidade de identificar a realidade, separando-a da mera abstração, de princípios,  das descrições anatômicas,  meta-teóricas, das projeções matemáticas e principalmente das utopias e  dos romantismos.

O conhecimento adquirido formalmente que é  louvado pelos iluministas prescindiria de outras habilidades, e de maneira científica e técnica, conduziria o político a tomar decisões acertadas. O problema é que políticos desta natureza são na verdade engenheiros sociais e não servidores do povo. Segundo Berlin, o socialismo-científico de Lenin e Stalin, por exemplo, gerou líderes de seita, fanáticos e indiferentes ao povo, ao invés de técnicos capazes.

Aristóteles, ao falar da capacidade política, refere-se a uma qualidade, a phrónēsis. A tradução correta para esta palavra não é “sabedoria”, como alguns dicionários indicam, mas sim “razão prática.”

Ele fala de uma capacidade de raciocínio ou intuição prática, que inclui a deliberação e a síntese, não apenas a simples análise do problema. Esta capacidade permite ao político intuir as implicações concretas das decisões que toma. Para Berlin, o político que possui esta qualidade calça os sapatos do povo, e sabe sentir como as decisões vão afetar de maneira concreta as pessoas que está pretendendo guiar.

Essa habilidade é contextual, não é um princípio que se aplica de maneira geral. Ela revê cada momento pelo que é.  Essa capacidade política não é mágica, ou mística tampouco: é uma espécie de percepção empírica da realidade social. Ela implica na “integração de uma quantidade vasta de informações em constante mudança, reconhecendo nelas possibilidades passadas e futuras, e no processo de convertê-las em experiência”.

Ela implica em discernir o que o político pode fazer pelos outros e o que os outros podem fazer por si mesmos. Isaiah Berlin compara os políticos assim aos bons escritores, que demonstram uma percepção extraordinária para a textura da vida, que são capazes de colocar em palavras o que outros apenas intuem.

Aplicando isso a nosso contexto, só posso pensar que o Brasil é um país dominado hoje por pessoas sem a menor phrónēsis. A arrogância e distanciamento da realidade dos homens públicos brasileiros é coisa de ficção de distopia. Políticos como Dória, como o governador do Pará Helder Barbalho, como Wilson Witzel, ou até os  ministros do STF, que estendem a sua tenda de poder para acampar todas as instâncias decisivas do país, não são servidores públicos, são engenheiros sociais segundo a tradição de Robespierre e Himmler.

Nossos homens de mídia não ficam atrás. Vi o repórter do Antagonista, Claudio Dantas, desdenhando do presidente quando Bolsonaro cruzou a avenida, no dia 7 de maio, para ir ao prédio do STF com um grupo de empresários e ministros. Sua intenção era fazer um apelo desesperado ao órgão que lhe tirou completamente a possibilidade de tomar decisões pelo país na questão pandemia. A economia do país está agonizando, era seu apelo.

Mas Claudio Dantas é um homem assim como querem os iluministas. A sua teoria sobre o que seja a “boa política” não inclui a vida prática. Claudio Dantas desdenha do desespero do presidente, e assim desdenha do desespero do povo que o presidente claramente representa.

Outros jornalistas, mesmo os mais comedidos como Zé Maria Trindade, erram da mesma maneira ao repetir o mote “falta gestão geral”, clichê vazio de significado, e que só serve para tentar invalidar as ações do presidente. Quem não percebe o povo, como eles, não sabe também reconhecer o que seja liderança política.

Bolsonaro reduziu a sua participação pública a um espetáculo teatral diário. Isto incomoda os teóricos profundamente. Mas as provocações teatrais de Bolsonaro não são fruto de uma personalidade histriônica, são ações políticas.

O presidente, roubado de suas funções executivas constitucionais por um Congresso que se recusa a colocar em votação medidas a ele enviadas, e por um STF que veta suas ordens, continua, no entanto, liderando o país.. Lidera agora através de uma espécie de teatro da liberdade, que encena no palco do Planalto.

Num país onde engenheiros sociais se esmeram em criar medidas para controlar aonde o povo vai, como vai, o que usa, o que diz e até o que pensa, o presidente ainda insiste em ser livre. Insiste em manifestar publicamente o que ele sabe ser a percepção do povo: as medidas sanitárias adotadas pelos tiranos que mantêm o país trancado a sete chaves tem mais a ver com a ambição pessoal destes homens, do que com a saúde da população.

Aristóteles talvez não desse a Bolsonaro o título de homem magnânimo: falta-lhe finesse. Ele se vinga, se entorta, se irrita, não é comedido o bastante para o grego que admirava uma personalidade mais moderada.

Mas acredito que tanto ele quanto Isaiah Berlin com certeza reconheceriam em Bolsonaro um verdadeiro homem público.  Aristóteles veria que o que lhe falta em moderação, sobra-lhe em coragem. E por mais absurdo que pareça à classe intelectual brasileira, de acordo com Berlin fica claro que o presidente é um bom político, alguém que possui a qualidade que separa um servo do povo  de um perigoso engenheiro social.[1]

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[1] Artigo inspirado no clássico ensaio de Isaiah Berlin: “On Political Judgement”, nas reflexões de Aristóteles em Política e Ética de Nicômano e na aula do Dr. Steven B. Smith, de Yale.

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8 COMENTÁRIOS

  1. vai dizer isso para quem perdeu um parente, quem está na frente de batalha como tantos profissionais de saude,k vai dizer isso aos que agonizam nos leitos esperando por uma vaga que nunca aparece, enquanto aquele no qual voce com essa retorica de pseudo-intelectual coloca as mazelas do povo sob as costas dos mesmos, não se trata de partidarismo cego, basta observar condutas, posturas e exemplo que esse seu presidente teima em demonstrar. Certamente você vive em um berço explendido acima do bem e do mal e faz de sua falsa cultura de homem letratado para acirrar dúvidas quando o que precisamos é apenas um homem que se coloque como líder de uma nação que está se esfalecendo nesse caos da saúde, da falta de respeito, Sou médica e trabalho em um hospital, sugiro o senhor ir visitar os hospitais e conferir a escalada dos casos que aumentam a cada, dia e faça um favor a todos nós, se não pode colocar um artigo que unas as pessoas não disperdice seu tempo colocando mais ódio, separando amigos, familias numa toada inútil política. Espero nunca mais ouvir o seu nome. Passar bem

    • Minha querida, meus pêsames por sua perda, se voce perdeu algum ente querido, e te felicito por seu trabalho incansável como profissional da saúde. Não sou uma intelectual nem sou desligada da realidade, aliás sou uma pessoa que trabalhou durante muitos anos com os mais pobres dos pobres na região amazônica. Entendo o seu ódio aos políticos. Mas entenda: a presidencia nao causou a pandemia ela veio de fora, e todas as tentativas do governo central de dar um rumo diferente ao problema foram sufocadas pelo congresso e pelo STF. Entao se vc tem q culpar algum politico pelo caos q vivemos hj, o presidente nao pode ser um deles. Te aconselho a ler também artigos medicos, hoje numeroso e que propõe uma outra abordagem que nao a quarentena, mais efetiva em conter o virus e muito menos danosa à população pobre.

  2. Discordo da sua análise. O Presidente é um homem boçal. Aliás representa, sim, o povo Brasileiro que não tem sentido de Estado e acha que tudo é para seu benefício pessoal. O sistema político Brasileiro está doente, tal como o povo Brasileiro. Dizer que o Presidente é um “bom político” é no mínimo irónico!

  3. As palavras, na boca são como puxa-puxa, na linguagem cuiabana. Modelam-se ao gosto das mentes. Nunca vi tanta distorção do iluminismo. Só faltou mesmo dizer que nazismo é de esquerda. Temos de rir para não chorar com tamanha idiotice. kkkkk

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