Com mais de 40 filmes, cinema projeta indústria cultural e gera empregos em MT

Setor injeta milhões no Estado, promovendo emprego e engajamento de empresas; opção por dinâmicas de produção colaborativas multiplicam recursos

Bruno Bini e Bruno Gagliasso nos bastidores de "Loop"

De acordo com a Associação Mato-grossense de Cinema e Audiovisual, a MT Cine, mais de 40 filmes foram realizados no Estado em menos de uma década, via arranjos com parte de recursos das gestões municipais e/ou estaduais e parte, de investimento federal, via Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), da Ancine.

Com os produtos dos editais de TVs públicas e do extinto Ministério da Cultura (MinC), foram contabilizadas 42 produções.

“Podem ter outros filmes realizados de forma independente que não saibamos. Então esse é um número mínimo”, ressalta o presidente da MT Cine, Bruno Bini. O cineasta que recentemente dirigiu o longa-metragem Loop, em parceria inédita com a Globo Filmes, ressalta um crescente salto no número de produções e engajamento do audiovisual mato-grossense nos últimos cinco anos.

Ainda conforme dados da MT Cine, 43,5% das empresas voltadas ao segmento foram fundadas a partir de 2010. Destas novas iniciativas, 83% produzem curtas e medias-metragens, 74% possui fontes de recursos oriundos do mercado publicitário e 70% participaram de editais nos últimos três anos.

Loop“, por exemplo, movimentou R$ 900 mil em recursos estaduais, R$ 900 mil da Globo Filmes por meio da Lei do Audiovisual, R$ 200 mil do Canal Brasil e R$ 1 milhão do FSA. Isso significa um montante de R$ 900 mil investidos pelo Estado com retorno de R$ 2,1 milhões de recursos injetados na industria audiovisual local.

No mesmo formato, foram filmados os longas-metragens “A Batalha do Shangri-la“, de Severino Neto e “Anel de Eva“, de Stéfanie Medeiros e Duflair Barradas, a exemplo.

No caso destas produções de maior investimento, o resultado é não só o fomento do mercado local, como também, visibilidade da capital mato-grossense nas telonas do país. A presença de atores nacionais, como Bruno Gagliasso, Branca Messina, Bia Arantes, Nikolas Antunes, Roberto Birindelli e José Carlos Machado, em “Loop”, também reforçam essa projeção do nome de Mato Grosso. O turismo também pode ser explorado com a exibição das belas paisagens reveladas em locações especiais.

Estreia do Box de Curtas 2017, no Cine Teatro Cuiabá (Foto: Gcom-MT)

Colaboração para multiplicar recursos

Em menor escala de recursos, o Box de Curtas – projeto inédito de produção audiovisual colaborativa – possibilitou a realização de 8 curtas-metragens, de 2017 a 2019, com apenas R$ 910 mil. As produções se destacam pela alta circulação nacional e internacional – em festivais do gênero -, unindo qualidade técnica e baixo recurso.

Isso porque a produtora executiva do projeto, Bárbara Varela propôs aos diretores e às produtoras dos curtas-metragens um modelo de produção colaborativo: a partir da soma de orçamentos individuais para obter poder de compra.

“O objetivo foi dispor, para todos os departamentos envolvidos nas produções, equipamentos e tecnologias avançadas para o padrão regional, recursos humanos e técnicos compatíveis com as necessidades, e que as obras pudessem imprimir a cinematografia equilibrada com as expectativas de seus realizadores em obter resultados melhores que ‘antes’”.

Assim, o recurso de R$ 630 mil e R$ 280 do Estado e FSA para as duas edições do projeto foi distribuído entre as produções e injetado em diversos setores da economia criativa, de transporte, alimentação e turismo.

Bruno Bini e Bruno Gagliasso nos bastidores de “Loop”

Emprego, formação e engajamento

Bruno Bini explica que um curta-metragem gera pelo menos 50 empregos diretos e indiretos. Um longa pode contar com a mão de obra de 150 profissionais – média da equipe de “Loop” – além de um bom número de empresas. Considerando elenco de apoio e figuração, o diretor contabilizou, à época, 280 mato-grossenses envolvidos na longa. Segundo a produtora executiva Angelina Stein, o mercado cuiabano deveria absorver R$ 2 milhões de sua execução.

O Box de Curtas, por sua vez, empregou 83 profissionais técnicos na realização dos 8 curtas-metragens. Na edição de 2019, em fase de pós-produção, o projeto contou com equipe 100% mato-grossense e oportunizou profissionais em início de carreira, sendo 4 estagiários de produção e 8 iniciantes na chefia de setores como design de produção e direção de cena.

Gravações do Box de Curtas 2019 (Foto: Vitória Molina)

Desde 2017, o projeto possibilitou ainda 84 contratos de empresas, sendo 63 de prestação de serviço, e 72 contratos de atuação, sendo 28 atores para os papeis principais, além de 489 cachês de figuração. Aos setores de alimentação, transporte e turismo, as produções demandaram cerca de 4 mil refeições, 5 mil litros de gasolina e 59 diárias em hotéis.

As produções contaram com o engajamento de empresas locais em descontos no fornecimento de insumos e serviços, cessão de espaços para realização de filmagens e para preparação de elenco. Mobilizaram ainda órgãos públicos, como SMTU de Cuiabá e Polícia Militar, além de comunidades e bairros onde as obras foram realizadas. Para as gravações, foram utilizadas, ao todo, 82 locações.

Refrigerantes Marajá, Cervejaria Louvada, Casa Prado, Hotéis Mato Grosso, Grupo São Benedito, Palácio da Instrução, Tugore, UFMT, Gabinete Antes do Café, Kartell, Supermercados, Comper, Pousada Ecoverde e Sesc Arsenal são algumas parceiras da edição 2019.

Premiações e visibilidade

Só na 1ª edição do Box de Curtas – cujos filmes já estão finalizados e em circulação – foram 55 seleções oficiais e 13 premiações, sendo 18 participações em festivais internacionais, dentro dos 5 filmes realizados.

Cinco filmes dirigidos por Bruno Bini, entre custas e medias-metragens, também têm mais de 50 prêmios e 100 seleções em festivais. “Se for pegar dos filmes produzidos desde 2015, são só o ‘S2’ (2015) e o ‘Três Tipos de Medo (2016)’ foram selecionados para mais de 30 festivais e receberam 22 prêmios”, lembra o diretor.

Curta dirigido pelo jovem documentarista Rafael Irineu, Majur (2018), realizado com o recurso R$ 25 mil de um edital de baixo orçamento para estreantes, já tem mais 50 seleções em festivais, sendo 8 internacionais e 14 prêmios só no ano de lançamento.

Produzido com baixo orçamento, o curta documentário “Majur (2018)” chegou a ser indicado ao Grande Prêmio de Cinema Brasileiro (Foto: Divulgação)

Com equipe 100% formada por profissionais mato-grossenses, indígenas, gays, mulheres e transexuais nas principais funções, o filme protagonizado por uma indígena transexual da etnia bororo, acaba de ser indicado ao Grande Prêmio de Cinema Brasileiro. À ocasião, o jovem diretor ressaltou a representatividade e o formato independente de suas produções.

“Acho que o ponto alto disso tudo, além do tema, é a forma como o filme é feito. Cinema considerado de guerrilha, com orçamento baixíssimo, equipe afinada e ‘local de fala’. Usamos equipamentos considerados amadores, sem câmera alugada de fora e sem homens brancos e héteros dominando o set. Isso tudo influência muito”, destacou Rafael.

Seu primeiro filme Meu Rio Vermelho (2016), feito com apenas R$ 2,5 mil do programa Pró Cultura da UFMT –recurso destinado à para pesquisa e produto para congresso acadêmico – tem mais de tem 40 seleções e 5 prêmios.

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