Com liminar há mais de 10 dias, bebê indígena morre esperando vaga em UTI

Milena Kaiabi deu entrada na unidade de saúde no dia 9, conseguiu liminar no dia seguinte e morreu na madrugada desta terça-feira

Imagem ilustrativa (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

Uma bebê indígena com apenas 27 dias de vida faleceu na madrugada desta terça-feira (23) enquanto aguardava uma vaga na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neo natal em uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Sinop (500 Km de Cuiabá). O leito não foi disponibilizado apesar de os pais terem conseguido uma decisão liminar, obrigando a imediata internação, ainda no dia 10 de abril.

Milena Kaiabi deu entrada na unidade de saúde no dia 9, com um quadro agravado e suspeito de meningite. Moradora do Parque do Xingu, ela não recebeu os atendimentos necessários, mesmo com o sequestro de bens do Governo do Estado. De acordo com o defensor público plantonista que atendeu o caso, Gustavo Dias, que atua na comarca de Cláudia (565 km de Cuiabá), infelizmente, a morte de Milena não é um fato isolado.

Defensor público, Gustavo Dias, atuante no caso da bebe indígena.

“Na verdade, vemos que não existe, por parte do governo, vontade alguma de atender os doentes. Estamos vivendo na saúde, não só aqui na nossa região, mas no Estado todo, um marco por um descumprimento previsto pelo próprio Estado. Agente consegue a liminar para a pessoa ser internada e já sabe, infelizmente, que nada acontece, que o Estado não vai cumprir a decisão. Quando se trata de UTI Neo Natal, essa dificuldade é ainda maior”, denuncia o defensor.

Gustavo Dias ainda ressalta que, para que haja uma mínima chance de atendimento ao paciente, a Defensoria já dá início ao pedido de orçamentos em unidades particulares e sequestros de bens, o que garantiria o dinheiro para custear o tratamento, se não houver vagas no sistema público de saúde.

“Aí nos deparamos com mais uma dificuldade: as empresas acabaram perdendo o interesse em atender o governo, por conta da falta de pagamento sistêmica. Nesse meu caso, busquei vagas até em Goiás, mas quando conseguimos, até o transporte aéreo foi tarde demais”, explica. “Infelizmente, nosso sistema de saúde está sendo usado para matar. O não atendimento é comum”, ele completa.

O caso de Milena chegou à Defensoria Pública por meio de uma assistente social que atua na Casa de Apoio a Saúde Indígena de Sinop (Casai) e que acompanha a aldeia, que pertence ao município. Na ocasião, a assistente chegou a relatar que os indígenas estão ainda mais vulneráveis às dificuldades de atendimento em saúde, tendo em vista que, muitas vezes, chegam às unidades com o quadro já agravado devido à distância da cidade e a falta de conhecimento sobre como proceder em casos de urgência.

“Queremos mesmo é denunciar essa situação de omissão estatal extremada, injustificável e que, infelizmente, resultou na morte da criança. Uma criança indígena já marcada pela dificuldade geral de ser indígena. Conseguimos o atendimento, inclusive com transporte aéreo, mas tarde demais, e eu tenho uma sensação de completa impotência”, lamentou o defensor.

Outro lado

A reportagem do LIVRE entrou em contato com as assessorias de saúde municipal e estadual. Por meio de nota o Município informou que esteve no local acompanhando o quadro da criança, afirmando ainda que prestou todos os atendimentos possíveis na unidade, tentando inclusive a transferência da criança para UTI, sem sucesso.

Também por meio de nota, a assessoria da Secretária de Saúde Estadual afirmou que a  paciente aguardava o atendimento de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal e a avaliação neurológica, já que não havia sido encontrada uma vaga com o perfil assistencial que o quadro exigia.  A secretaria ainda afirmou que trabalhou incessantemente na busca pela viabilização de uma vaga de UTI, da mesma forma que está empenhada na resolução de outros casos em Mato Grosso.

Confira as notas na integra 

Saúde Sinop 

No dia 13 de abril estivemos na UPA, prefeita e secretário, naquele dia já havíamos alertado sobre o quadro dessa criança, que precisava de UTI, alta complexo, e já tinha inclusive liminar. Mas não houve vaga. Lamentamos profundamente o desfecho desta situação.

Saúde Estado 

NOTA DE ESCLARECIMENTO PACIENTE M.K.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT) confirma o falecimento da paciente M.K., que veio a óbito em razão de um quadro de pressão intracraniana. A paciente aguardava o atendimento de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal e a avaliação neurológica, visto que não havia sido encontrada uma vaga com o perfil assistencial que o quadro exigia.

Neste contexto, a SES-MT enfatiza que trabalhou incessantemente na busca pela viabilização de uma vaga de UTI, da mesma forma que está empenhada na resolução de outros casos em Mato Grosso.

Ascom | SES-MT

 

 

Use este espaço apenas para a comunicação de erros





Aceito que meu nome seja creditado em possíveis erratas.

DEIXE SEU COMENTÁRIO

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigo anteriorBaixo consumo de diesel por produtores de MT é indício de sonegação, diz empresário
Próximo artigoKarola Nunes lança álbum com parceiros de Céu, Elza Soares e Tulipa Ruiz