Há quase 30 anos, após um problema que o deixou sem emprego, Manoel de Andrade Torrilhas, 67, precisou encontrar outra forma de sustentar a família. Ele tinha uma receita, que resolveu usar para começar um comércio de rua, e foi assim que nasceu o Churros Espanhol, mais conhecido como Churros da Riachuelo.
“Aqui eu tenho mais de 30 anos. No documento está 26 anos, que foi quando fiz na prefeitura, mas eu já tinha começado. Eu conheço a receita dos meus avós”, contou seu Manoel, mais conhecido como Manoel do Churros.
A receita especial de seus avós paternos passou de geração em geração. Inclusive, seu Manoel já passou para os filhos, os únicos que conhecem o segredo.
“A massa quem faz é a família, ou eu, ou a filha. Quando minha companheira podia antender era só ela que fazia, eu e ela. Hoje as filhas sabem para dar seguimento”, disse.
Ele não sabe se algum dos filhos seguirá seu legado, afinal, todos seguiram carreiras acadêmicas, mas deixa claro que “o caminho está feito, se quiserem dar seguimento”.
Um goiano quase cuiabano
Seu Manoel nasceu em Mineiros (GO), e veio para Cuiabá com os pais quando tinha apenas 5 anos. Na Capital mato-grossense, morou na Ricardo Franco, no Centro, e depois perto do antigo Quartel do 16º Batalhão dos Caçadores (16BC), onde o pai comprou uma casa. Por fim, foi para a região do Coxipó, onde mora até hoje, na beira do Rio Coxipó.
Ainda em Goiás, o pais chegaram a vender churros. Eles tinham uma sorveteria, mas o pai trabalhava com diamante e a mãe cuidava da sorveteria e fazia o churros, com a receita da família.
Já a história de Seu Manoel com a venda de churros começou em 1995. Ele já havia trabalhado como técnico de assistência no conserto de eletrodomésticos e em uma empresa que prestava serviço para a Secretaria Estadual de Trabalho, Justiça e Cidadania.
Ao perder o último emprego, precisou encontrar urgentemente outra forma de ganhar a vida e decidiu: “Eu vou mexer com churros”. O primeiro ponto foi na Praça Ipiranga, também no Centro.
“Fiquei lá quase 2 anos. Na época, a Praça Ipiranga ficava a noite toda. Tinha um pessoal que ficava lá a noite todinha”, contou.

Depois de um tempo, ele resolveu pedir auxílio a Luiz Soares, um amigo de infância que na época era vice-prefeito de Cuiabá, para conseguir um ponto melhor. Soares, por sua vez, falou com José Roberto Stopa – atual vice-prefeito da Capital, que à época era chefe da fiscalização – para auxiliar o amigo.
“Eu tenho até hoje o documento da solicitação dele com o Stopa. Ai eu entrei com o processo de solicitação. Era para eu ficar na Getúlio Vargas e eu preferi ficar aqui [na lateral da Riachuelo], porque era mais tranquilo para mim. Porque lá era ponto de ônibus, era perigoso, por causa do gás, que um tempo depois me tirassem”, afirmou.

Reagularização
Seu Manuel teve vários carrinhos, inclusive uma carretinha. O atual, que comporta 6 sabores de recheio, foi feito depois que conseguiu a autorização oficial da prefeitura e regularizou seu comércio, há 15 anos.
Atualmente, ele tem alvará sanitário, de funcionamento e de prevenção contra incêndio e pânico, várias certificações de capacitações em sua área, e assina a carteira de 3 funcionários. Isso tudo porque ele lutou pela regularização do comércio de comida nas ruas do Centro.
“Eu sou testemunha disso, porque, assim, quando a gente foi fazer a documentação da legalização da comida de rua, eu era o único que tinha essa estrutura. Nós ficamos alguns anos lutando, lutando, lutando… Entrava um prefeito, existia a lei, mas não tinha sido feito o decreto. Ficou alguns anos a gente esperando. O dia que a fiscalização achava que a gente não podia trabalhar, mandava a gente sair”, lembrou.
“A legalização dá legitimidade. Por isso que eu fiz e fui feliz na minha maneira de ver as coisas”, completou.

Família
Desde o começo, o Churros da Riachuelo sempre foi um comércio familiar. Antes, somente seu Manoel e a esposa trabalhavam no local. Porém, ela sofreu um aneurisma há 7 anos e, desde então, está acamada.
“Hoje, eu preciso dispor de muita coisa para atender a minha companheira, tem que ter fisioterapeuta, tem que ter psicóloga, tem que fazer hidro, tem que ter cuidadora”, contou seu Manoel.
Devido à falta da esposa no comércio, seu Manoel precisou contratar funcionários, já que os filhos foram concluindo o ensino médio, entraram na faculdade e já não conseguiam estar presentes o tempo suficiente para auxiliá-lo.

Com essa esposa, ele tem 3 filhos, mas ao todo são 7. Apesar disso, ainda não há um que tenha decidido seguir com o comércio do pai
“O meu filho fala ‘estudei tanto para formar’. Ai eu falo: ‘não, filho, faz o que atende sua vontade’. As filhas também. Uma faz engenharia ambiental e sanitária na Federal, outra faz pedagogia. Mas por enquanto, o caminho está feito se quiserem um dia dar seguimento”.
Mudanças
Hoje, o Churros da Riachuelo abre de segunda a sábado, das 9h às 19h. Seu Manoel costuma ir para o local só no fim da tarde, mas é ele quem fecha o carrinho.
E o que começou com recheios só de chocolate e doce de leite, hoje tem 6 opções: os dois já tradicionais, goiabada, Nutella, Ninho e beijinho. Alguns deles são feitos por seu Manoel, artesanalmente. Ainda é possível misturar dois sabores, o que faz o atual preferido de seu Manoel: Ninho com Nutella.

Ele conta que, antigamente, as vendas eram muito melhores. Um dos grandes motivos, na sua opinião, é a dificuldade de estacionar no Centro. “Não tem feito uma política pública adequada. É difícil para as pessoas pararem aqui no Centro”.
Em sua memória, há um Centro muito diferente do atual, de quando a Avenida Getúlio Vargas ainda era de paralelepípedo e havia a lanchonete “Havaí” em três lugares.
“Ali era o Havai 3. Ali na Ricardo Franco era Havai 2. Na Praça Alencastro era o Havaí 1”, contou.
Seu Manoel também viu a antiga Meio-Preço, quase em frente a seu carrinho, fechar. Já a Riachuelo sempre esteve ali, desde que o doceiro escolheu seu ponto.

Ele lembra, ainda, que antigamente a parte de camelôs era muito mais forte ali na região da Getúlio Vargas do que a de lanches. As barraquinhas eram mais de frutas, roupas e coisas pequenas, do que de comidas prontas.
“Começou depois que a prefeitura fez um decreto e suspendeu todas as vendas, por causa de reclamação de lojista. Aí foi quando a gente entrou com aquele processo de regularização de atividade. Então, naquela época, tinha mais camelô do que praça de alimentação”, lembrou.
Os colegas mais antigos, que estavam com ele desde o começo, como o seu Salu, que vendia churrasco grego, já não estão na região. Este, no entanto, contou seu Manoel, está querendo voltar. Já as pessoas que vendiam pipoca antigamente, faleceram.
Questionado se pretende se aposentar, seu Manoel diz que não, já que a aposentadoria o renderia apenas um salário mínimo, enquanto o churros o permite receber bem mais. Por isso, afirmou que vai ficar em seu ponto “enquanto Deus o permitir”.
Ele se recusa a falar quanto vende por dia, diz que é um segredo, assim como sua receita, mas garante que vale a pena financeiramente. Seu manoel conta com orgulho que os filhos estudaram em uma das escolas particulares mais tradicionais de Cuiabá, a Livre Porto, desde o jardim de infância “com dinheiro do churros”.
E para quem não gosta de churros, ou não conhece o dele, seu Manoel deixa uma mensagem:
“Dê a oportunidade de degustar, para ver se muda de ideia. Porque o meu churros ele não fica encharcado, ele tem um paladar… um aroma convidativo. Lá da 13 de Junho você sente o cheiro. Para as pessoas que ainda não conhecem o churros da Riachuelo, que nos dê a oportunidade de vir conhecer, que é bem-vindo. Gostando, volte sempre”.
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