Caso Scheifer: Ex-comandante do Bope diz que tenente escolheu equipe

Para o tenente-coronel José Nildo, não havia desavenças entre a equipe. No entanto, ele afirmou também ter suspeitado da situação que levou à morte do tenente Scheifer

(Foto: Ednilson Aguiar / O Livre)

Em audiência na tarde desta quinta-feira (11), na 11ª Vara Criminal de Cuiabá, o ex-comandante do Batalhão de Operações Especiais (Bope), tenente-coronel José Nildo Silva de Oliveira, disse ter certeza que não havia desavenças entre o 2° tenente Carlos Henrique Paschiotto Scheifer e sua equipe, mas afirmou que também estranhou a situação que culminou em sua morte.

Scheifer morreu durante uma ocorrência de assalto a banco, próximo a cidade de Matupá (700 km de Cuiabá), em maio de 2017. Os três militares que compunham a equipe do oficial se tornaram réus na Justiça por sua morte. São eles os cabos PM Werney Cavalcante Jovino e Lucélio Gomes Jacinto, e o sargento Joailton Lopes de Amorim. Apenas Jacinto é acusado de homicídio.

De acordo com o tenente-coronel, Scheifer era recém-chegado no Bope. Por isso, ele afirmou ter “absoluta certeza” de que não é verdade a informação de que a equipe estaria descontente com Scheifer, e que teria tido, inclusive, uma discussão com o oficial.

Conforme denúncia do Ministério Público do Estado (MPE), o desentendimento entre a equipe aconteceu na hora de registrar um boletim de ocorrência sobre a morte de um dos suspeitos do assalto, identificado por Marconi Souza Santos. Isso porque o homem teria sido morto por um tiro de fuzil, disparado pelo cabo PM Jacinto, quando tentava fugir de uma residência.

[featured_paragraph]A situação foi considerada “desnecessária” por Scheifer e outros militares. [/featured_paragraph]

As informações de José Nildo vão de encontro com o depoimento do cabo Alex Sander de Souza Vizentin, que esteve na 11ª Vara Criminal na semana passada, para falar sobre o caso. Segundo o soldado, após a morte do suspeito, o trio de militares teria comentado entre si que Scheifer era um “comando muito legalista”.

Depois do caso, Scheifer também teria ligado para o então comandante do Bope, para alertar sobre o acontecido. Em seu depoimento, porém, José Nildo disse não se recordar do telefonema. No entanto, garantiu que foi avisado. Segundo o oficial, Scheifer teria comunicado sobre a situação pelo grupo de oficiais no Whatsapp.

Situação suspeita

Experiente, o tenente-coronel disse que, assim que chegou no local do confronto, já depois da morte do 2º tenente Scheifer, estranhou o relato dos militares da equipe. Segundo ele, a situação deixava uma série de “suspeitas”, mas, assim como outros militares, o ex-comandante do Bope escolheu acreditar na equipe. Ele comentou sobre o caso com um superior.

“Eu falei: ‘Coronel, a versão que eles passaram foi essa e essa. Até então, é aqui que estamos atuando, estamos há tantos dias na mata e até então não localizamos ninguém. Está estranha a conversa? está! Mas o que que nós vamos fazer? Prender a guarnição por uma suposta…’?”, disse em depoimento.

Ainda segundo o ex-comandante do Bope, quase todos os militares do norte do Estado foram mobilizados para ajudar na operação, que começou com assalto a banco e acabou com a morte de um oficial da Polícia Militar. Segundo ele, “muita gente queria achar muita coisa”.

Por essa razão, José Nildo preferiu aguardar o encerramento da operação, para proceder com a abertura do inquérito e determinar a perícia nos fuzis dos militares. Foi, aliás, a perícia que desmentiu a primeira versão contada pela equipe do Bope. Com o projétil que ficou alojado no corpo do oficial, constatou-se que o tiro teria partido do PM Jacinto, e não dos bandidos, como os militares primeiro afirmaram.

[featured_paragraph]Apesar de ter descartado a possibilidade de premeditação por parte dos militares, José Nildo também questionou quanto a falta de “revide” de tiros por parte da equipe. [/featured_paragraph]

O ponto foi um dos mais questionados pelo 2º tenente Herbe Rodrigues da Silva, em seu depoimento. Da mesma turma de oficiais de Scheifer, o tenente questionou o fato de que a equipe não teria revidado um tiro sequer contra o suposto bandido que atingiu seu comandante.

José Nildo também teria questionado a equipe. “Essa pergunta eu fiz para eles. Por que não efetuaram disparos? Por que não revidaram esse disparo? E a resposta que o [sargento] Lopes me deu foi que,a hora, se preocuparam em socorrer o tenente, deixando, inclusive sua segurança em segundo plano”, disse.

Novas audiências

Ao final da audiência, o juízo militar agendou para o dia 17 de junho a nova rodada de oitivas com testemunhas. Nesse dia, serão ouvidas as testemunhas de defesa dos militares.

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