Cada vez mais pessoas têm sonhos estranhos e especialistas tentam explicar o motivo

Doutoranda em Psicanálise ouvida pelo LIVRE alerta: tentar interpretar essas manifestações pode ser um ato de “selvageria”

(Foto: Freepik)

Os sonhos mais “reais” do que de costume e até os pesadelos se tornaram uma constante na vida de muita gente desde que o isolamento social foi instituído para tentar frear o avanço do novo coronavírus. Mas “analisar” essas manifestações do inconsciente pode ser um ato de “selvageria”, se não for considerado um fator: a intimidade de quem está sonhando.

A avaliação é da doutoranda em Psicanálise pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Marina Fiorenza. Em entrevista ao LIVRE, ela cita o maior psicanalista da história, Sigmund Freud, para explicar seu ponto de vista.

“Freud tem um texto denominado ‘O estranho’, que ele denomina como algo que também é familiar, de modo que o que achamos ‘estranho’ habita nosso íntimo. Desse modo, esses sonhos estranhos podem dizer sobre alguma coisa que nos atravessa e que não estamos conseguindo dar nome ainda, mas que coaduna exatamente com o momento que vivemos”.

Dentro desse contexto Fiorenza lembra: não estamos passando apenas por um período de isolamento que muda nossa rotina de trabalho e convívio com outras pessoas. Estamos “submetidos a um vírus, que nem mesmo um ser vivo independente é, e que não conhecemos ainda seu funcionamento e cura”, ela diz.

Em outras palavras, muita coisa “estranha” tem acontecido com praticamente todo mundo.

Mas por que eles ocorrem?

A neurologista do Instituto Espanhol do Sono, Celia García-Malo, ouvida pela BBC News Mundo diz que os sonhos mais “realistas” refletem a situação de ansiedade e os níveis de estresse causados pela crise do novo coronavírus.

uma reportagem publicada pela revista Super Interessante cita o entendimento do psicólogo americano especialista em sonhos, William Domhoff. Ele fala da “teoria da continuidade”, segundo a qual os sonhos podem ser uma continuação de coisas que você vivenciou enquanto estava acordado.

Ainda de acordo com a Super Interessante, na época dos atentados de 11 de setembro, uma professora de psicologia na Faculdade Merrimack, em Massachusetts, fazia um trabalho em que orientava os alunos a registrarem em diários o que sonhavam todas as noites.

A professora pode concluir, então, que após os ataques nos Estados Unidos, esse tipo de tema se refletia nos sonhos dos estudantes. Outra constatação foi que aviões e explosões apareciam mais claramente nos sonhos daqueles que não conversavam com ninguém sobre o assunto.

Sonha mais, quem dorme mais tranquilamente

A reportagem da Super Interessante também se propõe a explicar por qual motivo pessoas que não costumavam se lembrar dos sonhos, agora lembram. Uma das hipóteses seria um período de sono mais longo e o fato de muitas terem adotado o despertar natural e não o estimulado por despertadores.

Uma mudança de rotina que muita gente adotou desde o início da quarentena, já que – mesmo para muitos que trabalham em casa – não é mais preciso acordar em determinado horário.

Marina Fiorenza concorda com parte dessas teorias. Segundo ela, a insegurança, a incerteza diante do futuro e os medos das mais diversas ordens, como da morte ou de perder emprego podem afetar a rotina dos sonhos de um indivíduo.

“Mas não acredito que tais sonhos sejam os mesmos ou tenham características comuns, além da estranheza, que diz do mais íntimo de cada um”, ela pondera.

A doutoranda também diz que falar sobre faz bem, mas orienta ser importante se dirigir a um profissional.

“É preciso dar lugar a própria subjetividade. Os sonhos são realizações de desejo, como afirmou Freud, mesmo que desejos não óbvios ou muito claros, como sonhos estranhos ou sem sentido nos mostram”.

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