Bom dia aos ouvintes: rádios comunitárias tentam sobreviver dando voz às comunidades

Mesmo sem investimentos, elas se mantém ativas, estabelecendo uma relação muito mais estreita com as comunidades que as rádios comerciais

(Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre

Um alto-falante instalado na praça principal do bairro CPA compartilha os debates da Rádio Comunitária do CPA (105.9 FM) em tempo real. A vasta programação é formulada com as as sugestões dos moradores e não segue nenhuma linha editorial limitante.

Para todos os integrantes do grupo a regra é clara: o estúdio precisa ser uma janela para o que não tem espaço na mídia tradicional e deve estar presente no dia-a-dia das pessoas comuns, abordando temas como transporte coletivo, previdência, saúde e impostos.

E é bom tomar cuidado com o que fala ao microfone. O ouvinte pode repreendê-lo pelo telefone e até mesmo pessoalmente, já que as portas estão sempre abertas para quem quiser entrar e participar.

Geremias dos Santos é locutor da rádio há 20 anos. Ele diz que não tem formação acadêmica em comunicação e que tudo que sabe, aprendeu na lida diária.

Geremias Santos trabalha há 20 anos como locutor em rádios comunitárias (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre

“Nenhuma das pessoas que trabalham aqui tem formação. Até porque não temos salários e para manter um programa no ar, é preciso amar o que faz”.

Santos relata que para fazer uma hora de programação, é preciso se preparar e ainda ter a disponibilidade de estar todos os dias, no horário estabelecido, na rádio.

Isso faz com que com o tempo, as pessoas que buscam começar um programa por empolgação, deixem o trabalho de lado.

Paralelo a tudo isto, existe ainda as dificuldades em se manter financeiramente. Todos os locutores têm um fonte de renda ou outra atividade econômica. Ninguém vive da rádio.

Contas no vermelho

O dinheiro que entra no caixa da rádio é usado para pagar as despesas do prédio, energia elétrica, telefone e ainda a manutenção de equipamentos.

“Nós aqui só estamos abertos porque não pagamos o aluguel. Caso tivéssemos que pagar, seria impossível”.

Sede da Rádio Comunitária do bairro CPA, um dos mais populosos de Cuiabá (Foto:Ednilson Aguiar/ O Livre)

A situação de dificuldade, segundo Santos, é compartilhada com as outras 102 – sendo 4 em Cuiabá – rádios comunitárias autorizadas pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) em Mato Grosso.

“Não podemos fazer propaganda, ou seja, dizer o preço do que está em oferta ou apresentar uma promoção. Podemos apenas falar o nome da empresa e dizer que temos o apoio cultural dela”.

Para piorar ainda mais a situação, o locutor lembra que o Ministério Público do Estado de Mato Grosso encaminhou uma nota recomendatória aos órgãos públicos, no qual avalia como irregular o encaminhamento de verbas para as Rádios Comunitárias.

Conforme o documento, escrito pelo promotor Mauro Zaque, como é proibido fazer publicidade nas rádios, não é possível encaminhar verbas para propagandas institucionais.

No texto, ele fala ainda que as rádios comunitárias não conseguem comprovar a sua abrangência, o que torna impossível se justiçar a aplicação do recurso público.

“Os gestores devem orientar suas respectivas secretarias para que não haja o envio de material publicitário e propaganda institucional do governo, pagas, para as chamadas Rádios Comunitárias, vez que as mesmas não podem ser consideradas como órgãos de imprensa oficial a dar validade aos atos da administração”, argumenta Zaque em um trecho da carta.

O promotor defende ainda que as rádios comunitárias não têm uma constituição regular e não conseguem comprovar regularidade trabalhista, qualificação econômico-financeira, entre outros.

O pouco que tinha foi tirado

No caso da Rádio CPA, o apoio cultural dos governos do Estado e da União não chega faz muito tempo. O locutor argumenta que havia apenas um contrato com a Prefeitura de Cuiabá, que agora, ficou inviabilizado por conta da carta do MP.

“Não é pelo que recebemos hoje, mas sim pelo fim de uma possibilidade de recurso. E, a rádio não tem fins lucrativos, mas precisa pagar as despesas para se manter no ar”.

Com relação as dificuldades de se comprovar a abrangência, o locutor esclarece que as pesquisas deste tipo são muito caras e as rádios não podem pagar o valor.

Diversidade é nome da programação

Você sabia que nos anos 60 a polca paraguaia era a sensação dos bailes em Cuiabá?

Essa época é revivida em um dos programas da rádio, que inclui ainda no cronograma dois programas exclusivamente regionais e a presença de três professores, além de comentarista esportivo.

José Elias, conhecido com Tum, é o especialista quando o tema é esporte. Ele diz que foi convidado a fazer algumas participações há muitos anos.

Confessa que no começo não se sentia preparado e nem confiante para assumir um microfone. No entanto, o receio demorou poucos minutos na primeira aparição e o que era para ser um breve espaço de esporte regional, se ampliou para o país e, em alguns casos, até mesmo mundo.

“Hoje eu estou sempre acompanhando tudo o que acontece em todos os veículos e ampliei minha atuação para política”.

Geremias Santos assegura que a rádio está sempre em busca de talentos e projetos. Basta o interessado chegar a rádio e ir entrando porque as portas estão sempre abertas.

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1 COMENTÁRIO

  1. Excelente matéria, mostrando o diferencial que é uma emissora comunitária para sua comunidade. Emissoras que mantêm suas portas abertas, ouvem os anseios da comunidade, sugerem e buscam juntos as soluções para as demandas. As rádios comunitárias exercem o papel que o Rádio nasceu pra ser: como trata-se de concessão pública, o rádio deveria ser um agente de transformação de uma sociedade. Infelizmente só as rádios comunitárias exercem este papel. Parabéns ao site O LIVRE pela excelente abordagem. Muitíssimo obrigado em nome de todas as Rádios comunitárias de nosso estado.

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