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Cidades

Enã, jovem autista se forma em medicina e se emociona com homenagem inesperada. Veja!

Foto de Danúbia Machado
Danúbia Machado

Para os formandos da turma de 2013 de Medicina da Unic, a noite de 15 de janeiro de 2019, em Cuiabá, seria mais uma colação de grau como qualquer outra, não fosse por um acadêmico em especial.

Enã Rezende, 27 anos, é um jovem autista – e seus sonhos e objetivos emocionaram gente do Brasil inteiro depois que ele contou ao LIVRE sua história de luta e superação.

O sonho de ser médico surgiu aos 10 anos de idade, depois que ele perdeu o pai em um acidente automobilístico. O fato de ser autista fez a trajetória de Enã ser marcada por rejeições e preconceitos, mas nada disso impediu o jovem de vencer todas as barreiras e se formar em medicina.

Sua tia Terezinha, com quem ele morou para melhor estudar para o vestibular, lembra-se das vezes em que ficava impressionada de ver o quanto o sobrinho estudava e como era um adolescente calmo. “A tranquilidade dele na fala e na personalidade me deixava calma também. Muitas vezes eu pegava no pé dele para sair um pouco do quarto, porque ele ficava horas estudando. Vivia para os livros”, revelou a tia, orgulhosa.

Para a noite especial de formatura, amigos e familiares se prepararam com cartazes, balões e uma bela homenagem – guardada para o momento em que Enã pegasse o canudo: uma imagem em tamanho real do pai, Joel, que fez o jovem médico se emocionar várias vezes durante a festa.

“Meu pai era uma pessoa divertida, que levava tudo no bom humor. Lembro perfeitamente de cada detalhe da minha infância ao lado dele. Estou emocionado. É como se ele estivesse aqui. Realmente não esperava por esse presente”, afirmou.

A tia Agar Agnes, irmã de Joel, contou emocionada sobre as lembranças que o sobrinho mantém guardadas com tanta nitidez. “Olhar para o Enã é o mesmo que rever meu irmão, tamanha é semelhança entre os dois – e hoje é um dia de muita emoção. Meu irmão ficaria orgulhoso”, contou.

Durante a formatura no suntuoso salão do Buffet Leila Malouf, Enã não escondia a alegria de vestir a beca. O sorriso de orelha a orelha e a troca de olhares com a mãe, Érica Rezende, traduziam a realização de um sonho que levou 17 anos para acontecer. “Parece um sonho maluco. Essa concretização era um grito de vitória que estava preso na minha garganta”, disse o recém-formado.

(Foto: Suellen Pessetto/ O LIVRE)

União contra o preconceito

A união da família foi fundamental para os estudos de Enã. Quando mais jovem, alguns colegas ficavam irritados devido à grande curiosidade do garoto na sala de aula, como recordou o padrasto Célio. “A percepção de um autista está além dos demais, e os cochichos eram percebidos pelo Enã com muita nitidez. Ele sentia a reprovação dos colegas e isso o deixava muito triste. Até ensinamos ele a ser mais calmo durantes as aulas. O macete era o seguinte: quando o professor fizer alguma pergunta em sala de aula, você conta até 10. Mas como ninguém respondia às questões do professor, o Enã não se continha e acabava respondendo”, disse Célio.

Situações como essa fizeram com que a mãe de Enã criasse o projeto Autismo na Escola, que orienta instituições de ensino e educadores de várias cidades de Mato Grosso a receberem os alunos com autismo e outras diferenças.

Outra grande luta da família foi para que Enã concluísse o curso que ele escolheu. “Nada foi imposto a ele. Respeitamos a escolha que ele fez quando tinha 10 anos e dizia que queria ser médico. Sabíamos das barreiras a serem quebradas, mas sabíamos também da nossa força e da força do Enã”, disse a mãe.

[featured_paragraph]“No começo do curso o entrosamento foi delicado, mas logo a turma me abraçou. Muitos acham que a gente não percebe a rejeição, ou que somos loucos. Isso foi algo que me magoou muito na infância, mas sou tão tranquilo em relação à postura adotada pelas pessoas e também por sempre estar tão focado no meu objetivo, que o convívio com meus colegas da faculdade fluiu rapidamente. Foi uma questão de tempo perceberem que eu era tão capaz quanto os demais. Poder dizer para o mundo como eu sou de verdade e que ser autista não é um defeito, foi libertador. Hoje o que me dói é pensar que outros autistas sofrem com a discriminação e a não-aceitação, e é por eles que eu vou lutar”, diz o agora médico.[/featured_paragraph]

Em tempo: Enã escolheu a neurocirurgia como especialidade e, inicialmente, trabalhará como médico do Exército em Rondonópolis (200 km de Cuiabá), onde mora a família.

 

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