Até que volte a funcionar, Choppão manterá luzes acesas e mesas “à espera dos clientes”

Saudoso, o proprietário do Choppão decidiu que o restaurante mais tradicional de Cuiabá não perderá os ares de cartão-postal

Frequentadores devem estar nostálgicos: bar e restaurante é um dos mais tradicionais da cidade (Ednilson Aguiar)

Está em silêncio o ponto de encontro de celebrações e protestos. Consenso entre a esquerda e a direita. Está fechado o bar frequentado por “clássicos” e outsiders. Estão empilhadas as mesas acolhedoras das refeições em família ou grupos de amigos. Os forros amarelos já não se umedecem com o suor das tulipas dos boêmios solitários.

A história do bar e restaurante que não fecha nunca, exceto às terças-feiras [vá, lá! Eles merecem um descanso], vive um hiato. O Choppão de tantas caras, que ocupa a esquina de tantos corações e se mantém imponente em uma das vias mais movimentadas da cidade de Cuiabá, permanece fechado. Ou melhor, agora apenas parcialmente.

Desde essa quarta-feira (22), ganhou ares de memorial.

É que ver um dos pontos de maior efervescência da cidade com as luzes apagadas derrubou o ânimo do proprietário e chef Fernando Quaresma. Mas ele tratou logo de mudar essa realidade.

“Já não aguentava ver tudo no escuro. Na sexta-feira passada, quando descia a Getúlio Vargas e o fitava de longe, me veio a sensação de luto”, conta.

À espera dos clientes

Com o mesmo efeito de uma injeção de entusiasmo, mesmo em tempos turvos, à espera da retomada decidiu que todos os dias, até que tudo volte a funcionar em sua plenitude, vai manter o salão iluminado e as mesas prontas.

“Assim como fazemos todos os dias, das 10h às 2h, como que se estivéssemos à espera dos clientes”.

Fernando montou as mesas e acendeu as luzes; Por enquanto, o salão do Choppão virou um memorial (Ednilson Aguiar)

O salão do Choppão está fechado desde o dia 23 de março, seguindo a determinação de decretos municipal e estadual pautados por recomendações da Organização Mundial da Saúde. A medida que fechou bares e restaurantes da cidade foi mais uma das adotadas no enfrentamento do coronavírus.

Há mais de 33 anos à frente do estabelecimento – dirigido por ele e o irmão Mário Luiz que faleceu em 2018 – Fernando nunca vivenciou uma situação como esta.

“Nunca esteve tanto tempo fechado. Compramos o Choppão em 1986”. O restaurante foi fundado em 1974, por Geraldo Barbosa, um mineiro de Araxá.

Choppão ostenta sua história: foi fundado em 1974 e comprado em 1986 por Fernando e Mário Luiz (Ednilson Aguiar)

Patrimônio cultural e fonte de renda

Com o fechamento do salão, a equipe de 65 funcionários caiu para 20, que hoje atua exclusivamente no atendimento por delivery. “Veja só, é do Choppão que tiro meu sustento, é o Choppão que sustenta muita gente”, desabafa.

Ele conta que aderiu à MP do Governo que liberou rescisões contratuais por força maior. O desejo é de que a equipe seja reincorporada em breve.

Reinvenções ao longo do tempo

A popularidade do cultuado restaurante fez como que a Praça Oito de Abril se tornasse também a “Praça do Choppão”. E o hors concours, o escaldado cuiabano, famoso prato inventado pelo restaurante, virou hábito entre os moradores da cidade. Quando o cuiabano quer recarregar as energias, um escaldado do Choppão é boa pedida.

As receitas mais pedidas, do filé à parmegiana à picanha mineira, colaboraram para a consagração do cardápio.

Segundo Fernando, sempre houve uma compreensão, entre ele e seu irmão, de que o Choppão era maior do que eles.

“E durante tanto tempo vimos tanta coisa acontecer. E o Choppão resistiu. Vieram o self service, o fast-food, mas o clássico permaneceu”.

E com o tempo o restaurante do ponto alto da Getúlio Vargas também se reinventou. Ao clássico cartão-postal, onde explodem as cores da pintura de Adir Sodré, foram incorporados televisores, wi-fi e energia solar, pontua Quaresma.

Delivery com novidades

E em 2020, um grande impacto. “E então fomos surpreendidos pelo coronavírus”. Sua sorte é que o delivery do pioneiro Choppão é uma outra frente consolidada há pelo menos 25 anos, com operação própria.

“Mas não paga o restaurante fechado, já que a princípio o delivery teve um impulso, mas muitos outros passaram a realizar entregas também e isso aumentou a concorrência”.

Para contornar, ele criou pratos individuais executivos com valores mais acessíveis.

Segundo Fernando, depois de uma crise anterior, já havia um certo tom de otimismo no ar, mas o coronavírus veio como um balde de água fria no setor de bares e restaurantes.

“Não sabemos onde vai dar. Não sei nem como vai ser nosso retorno. Sabemos que muitos correm o risco de fechar e isso nos entristece”.

Impasse

A insegurança vem do fato de que as autoridades políticas e de saúde ainda vão avaliar o cenário nas próximas semanas. “No caso da Prefeitura, a reabertura de academias, shoppings e restaurantes pode ocorrer em maio, pois afinal a análise será feita a partir do dia 10, ou seja, não há uma data certa”.

Ele considera que as medidas tomadas foram necessárias para segurança da população. E diz que prefere que as decisões sejam tomadas com cautela, para que não haja nova suspensão de atividades, depois de uma eventual retomada.

“Porque diferentemente de lojas de roupas, por exemplo, que a pessoa coloca um pano para não cair poeira na peça, os restaurantes trabalham com insumos perecíveis, com coisas que exigem refrigeração e têm um tempo de validade. Traria ainda mais prejuízos para a atividade”, alerta.

Enquanto isso, o Choppão seguirá iluminado com mesas e cadeiras dispostas conforme orientações da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes de Mato Grosso. Dentre as quais, novo formato de disposição de mesas e cadeiras no salão, respeitando-se o distanciamento social. Por ora, a chama se manterá acesa nos corações e mentes dos cuiabanos.

Enquanto seus salões não voltam a ser ocupados pela clientela, Choppão continua sendo cartão-postal (Ednilson Aguiar)

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