|Sexta-feira, 20 abril 2018

As barragens e os terremotos

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No dia 5 de novembro de 2015, uma quinta-feira, uma barragem se rompeu na região de Mariana, Minas Gerais, liberando cerca de 62 milhões de metros cúbicos de rejeitos de mineração. O subdistrito de Bento Rodrigues guarda uma triste história. Além das vítimas, um impacto ambiental incalculável e a certeza de que a região pode levar muitos anos para se recuperar.

Eu quero acreditar que tudo está sob controle, que as indenizações estão sendo pagas e que medidas estão sendo tomadas para que o estrago seja reparado. Independentemente de sabermos se existe um culpado ou não, a questão é se acidentes como esse podem se repetir e quais procedimentos devem ser tomados para que vidas sejam poupadas.

Será que os números podem nos responder isso?

Fiquei chocado ao saber que a média de acidentes em outros países é insignificante se comparada ao Brasil. Só para constar, nos Estados Unidos o último evento foi em 31 de maio de 1889. O rompimento da barragem de South Fork, no rio Little Conemaugh, no estado da Pensilvânia, se deu devido aos muitos dias de chuva. A cidade de Johnstown ficou conhecida pela catástrofe e pelas suas 2.209 vítimas fatais.

O professor titular da Universidade de Lisboa, Ricardo Oliveira, esteve no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro em novembro de 2015 e falou sobre a segurança de barragens e os reflexos sociais e ambientais que rompimentos podem causar. Durante o evento, o professor, que é um dos especialistas no assunto, citou dados da Agência Nacional de Águas (ANA) referentes ao número de barragens. “O Brasil tem 663 barragens de contenção de rejeitos e muitos acidentes com barragens, nem todas reguladas, nem todas de grandes dimensões”. disse ele. “Em 2008 foram 77 rompimentos no país. Precisamos de medidas corretivas para evitar acidentes e a geotecnia tem um papel extremamente importante, com mais cuidado, conhecimento e técnica”.

O engenheiro também enfatizou a importância de novas análises e ressaltou que boa parte dos rompimentos estão relacionados com a ruptura das fundações.

Segundo Oliveira, a obrigatoriedade de estudos sismológicos é muito recente e o conceito de que o Brasil não é um país sísmico já não é aceito. O fato do país ser sísmico indica que isso deve ser levado a sério, pois mesmo que haja ocorrência de terremotos de baixa magnitude e isoladamente, isso pode acentuar avarias nas estruturas de barragens.

Os números ainda apontam que em um total de 19 acidentes com rompimentos de barragens, seis (ou 30%) foram no estado de Minas Gerais. Nos últimos 63 anos, os mais conhecidos são:

Nova Lima, em 2001, quando cinco pessoas morreram no distrito de São Sebastião das Águas Claras depois do deslizamento de toneladas de lama da Mineração Rio Verde.

Cataguases, em 2003, com o rompimento da barragem de 520 mil metros cúbicos de rejeitos compostos por resíduos orgânicos e soda cáustica.

Miraí, em 2007, com o rompimento da barragem de mineração de 2.280.000 metros cúbicos de água e argila (lavagem de bauxita).

Itabirito, em 2014, um rompimento que deixou seis pessoas soterradas e causou graves danos ambientais em córregos da Bacia do Rio das Velhas.

Acredito que existam muitos leitores com um potencial para traduzir esses números e que, como cidadãos, podemos fazer duas coisas: questionar os responsáveis pelos projetos que envolvam segurança ou esperar que outras represas se rompam, já que o número de acidentes entre outros países e o Brasil parece coincidir com nossas leis brandas ou com a ideia de que remediar é mais barato do que cuidar, ao menos para os que lucram com isso.

Assinatura Coluna Aroldo

 

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