Arte, beleza e felicidade

É imprescindível que a arte volte seu olhar para a beleza, partindo da humildade

(Foto: Ágatha Depiné on Unsplash)

Certa vez, o escritor Ferreira Gullar proferiu a célebre frase: “A arte existe porque a vida não basta”. Não sei quais foram as concepções filosóficas que o impulsionaram a esse pensamento; contudo, enxergo a referida frase claramente sob um prisma metafísico e que remonta fortemente ao surgimento da arte na história humana.

Embora as obras de arte dos períodos pré-histórico, antigo e medieval sejam classificadas como pragmáticas – com o ponto central de sua produção voltada para uma finalidade utilitária – há algo essencial a ser observado: a beleza nelas produzida.

Ainda que a arte daquele momento, em tese, fosse importante para cumprir uma função não estética, a beleza sempre estava presente em sua forma, o que pode, paradoxalmente, nos levar a questionar a presença do belo ali – já que o artista não era motivado pela apreciação de sua obra.

Ocorre que, inevitavelmente, a mão do artista caminha para onde repousa seu coração. É como escreveu Agostinho de Hipona: “E percorrendo a terra e o céu, compreendeu que nada mais que a beleza lhe agradava, e na beleza as figuras, nas figuras as medidas e nas medidas os números[..]”.

Essa busca necessária pela beleza ocorre pelo fato de que o homem é um ser transcendental. Para salientar essa verdade, podemos observar, por exemplo, que, de todos os animais, o homem é o único a contemplar o céu: não porque uma luz atraia seu olhar, mas por sua sede de infinito.

Como bem registrado pela filosofia clássica, tudo aquilo que é belo tem apelo para o transcendental e absoluto; sendo assim, é interessante observar que um artista, ao produzir sua obra, parta de coisas que já existem no mundo sensível e, buscando a beleza, crie uma arte que mesmo sendo constituída de matéria – cores, tintas, sons etc. – tem o poder de remeter o homem para além da matéria.

Para os platônicos, essa relação de beleza e transcendência elucida a busca do homem pelo mundo das essências, enquanto para os cristãos demonstra a contemplação das qualidades de Deus por meio da beleza, ainda que de forma análoga.

O homem produz a arte, portanto, para alcançar a beleza e, por meio da beleza, encontrar a felicidade; na arte, nossos sentidos e nossa inteligência se satisfazem com a beleza ao contemplar uma bela tela, ao ouvir uma bela música, e partindo deste princípio podemos afirmar que, durante o processo de apreciação de uma obra genuinamente bela, o apreciador experimenta uma certa felicidade.

Contudo, a concepção de beleza exposta neste pequeno parágrafo já não vigora nas ideias de muitos artistas eruditos. Na própria história da arte, podemos perceber que, desde a decadência do período gótico/início da renascença, houve uma mudança sutil – que deu início às transformações artísticas que, séculos depois, viriam a culminar na arte moderna – de finalidade das obras: os artistas obedeciam às regras de proporção e forma, mas deixando de lado, gradativamente, a ideia dessa beleza transcendental e introduzindo o antropocentrismo, oportuno em seu momento histórico.

Desde então, de modo gradual, a arte passou a fazer o percurso contrário que sempre fizera, e a beleza foi deixando de ser objeto de contemplação para tornar-se um elemento que deveria ser superado. Ora, para superá-la é necessário destruir tudo que a envolve: a relação entre bem e verdade, razão e sentido e principalmente os aspectos que compõem as pré-condições para algo ser considerado belo, entre os quais se destacam a ordem, a proporção e a inteligibilidade.

O resultado de todo esse processo será uma arte em ruínas – e, para piorar o soneto – com ar de soberana, cujo conceito eleva sua autonomia a ponto de situá-la acima da moralidade, da verdade e demais valores da sociedade.

Nesse desvario, tal arte se ampara na convicção que vimos expressada na frase citada no princípio deste texto: “a arte existe porque a vida não basta”. Mas a arte em si basta? Não podemos esquecer que a arte imita a vida – já ensinava Aristóteles – e portanto aglutina-se à realidade, de modo que uma obra, por mais abstrata que seja, é sempre fruto da realidade.

Para exemplificar esse “axioma artístico”, podemos recordar-nos das obras de Salvador Dalí – surrealista – que, por mais confusas e perturbadoras que possam parecer, expressam ideias do subconsciente freudiano que emergiu no início do século XX e que viria a ser aceito por um ramo da psicologia como parte inconteste da condição humana.

Escrevo essas linhas por acreditar – fazendo coro com ilustres pensadores – ser necessária uma reflexão sobre a vida espelhada em uma arte sem beleza, e sobre o quanto esta nossa vida pode caminhar para a infelicidade, indo na contramão de seu real sentido.

Para retomar a busca pela felicidade por uma via congruente é imprescindível que a arte volte seu olhar para a beleza partindo da humildade, a mesma humildade que Hugo de São Vitor classifica como um trampolim para a sabedoria; a humildade que se refere ao encontro do indivíduo consigo e que o leva ao reconhecimento de que ele é uma pequena parte de uma estrutura muito maior.

Voltemo-nos para a luz da sabedoria, a luz da razão humana que se compreende como parte humilde no cosmos que se revela, que se deixa compreender e que diz por meio de seus símbolos e analogias para o homem humilde: vede.

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Referências

AGOSTINHO, Santo. A ordem. Tradução: Frei Augustinho Belmonte. São Paulo: Paulus, 2008.

ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução: Vincenzo Cocco. Coleção os pensadores. Coimbra: Atlântica, 1973.

ARISTÓTELES. Poética. Tradução: Eudoro de Souza, Coleção os pensadores. São Paulo: Abril Cultural, 1973.

HAUSER, Arnold. História social da arte e da literatura. Tradução: Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

MARTINS, Fagner da Silva. A música como apresentação simbólica da Sapiência em Hugo de São Vitor. Dissertação(mestrado), UFMT – 2019

SÃO VITOR, Hugo de. Didascalicon – A arte de ler. tradução Tiago Tondinelli – Campinas: Vide editorial,2015.

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