Após viajar o mundo, Ramba finalmente chega à nova casa para descansar

Vinda do animal marca o fim do uso de elefantes em circos no Chile. Ela era a última

(Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Marcava pouco mais das 14 horas de sexta-feira (18) quando o fotógrafo Ednilson Aguiar e eu chegamos na praça da comunidade Rio da Casa, um distrito de Chapada dos Guimarães (70 km de Cuiabá). Como de costume, ali o sol também ardia sobre nossas cabeças.

Um grupo de cerca de vinte pessoas, servidores do Ibama e Secretaria de Estado de Meio Ambiente, se reunia embaixo de uma grande árvore, mais próxima das casas. Outro grupo, formado por moradores da comunidade, jornalistas e mais servidores públicos, tratou de ocupar o resto do terreno. Todos estavam ali por ela, Ramba. O local estratégico seria o último ponto de parada da elefanta, a caminho de sua nova casa.

Nascida na Ásia, Ramba é uma elefanta de aproximadamente 53 anos e  3,6 toneladas. Comprada pequena para trabalhar em circos, passou por outros países até que, novamente comprada – dessa vez na Argentina -, foi parar no Chile.

Vítima dos maus-tratos comuns praticados em circos, Ramba foi confiscada pelo Serviço Agrícola e Pecuário do Chile em 1997. Ela era a última elefanta de circo no país.

Depois, em 2011, a ONG Ecópolis conseguiu resgatá-la e levá-la para o Parque Safari em Rancaguá, onde levou uma vida mais tranquila.

Mas foi para garantir um lar definitivo, onde ela pudesse descansar, estar com outras elefantas e ser melhor cuidada que uma mega operação foi preparada para trazê-la. Em Mato Grosso, o Santuário de Elefantes existe desde 2016, em uma área de mais de 1,1 mil hectares.

Ramba deixou o Chile na madrugada de quarta-feira (16), acompanhada de cuidadores e monitorada pessoalmente pelo presidente do Santuário, Scott Blaiss. Depois de três horas em um avião cargueiro, ela desembarcou em Campinas (SP). No local, Ramba passou por todos os trâmites legais. Depois, foi colocada em um caminhão rumo a Mato Grosso.

E foi assim que chegamos aqui. Três dias e cerca de 50 horas depois.

Comunidade Rio da Casca, em Chapada dos Guimarães, se reúne à espera de Ramba, a elefanta (Foto: Camilla Zeni/ O Livre)

Eu, que nunca vi um elefante de perto, estava mais ansiosa que a Barbara, de 14 anos. É que ela, que vive em Rio da Casca, já viu a passagem de outras elefantas – a Maia e a Guida, primeiras moradoras do Santuário.

Mas, de repente, eu já sabia como seria. Ouvi duas crianças conversando no parquinho. Um, que se chamava Rafael, tentava adivinhar como seria a Ramba. Assim como eu, ele também não tinha visto esse animal de perto. Mas o coleguinha, sim. “É gigantão, meio cinza”, explicou.

Na praça ficamos até quando pudemos. É que, no meio da tarde, uma chuva fina e chata nos pegou. Os cinegrafistas desmontaram as câmeras, os servidores se esconderam nos carros. A criançada correu para uma escola, que fica ao lado.

“Será que não vai dar pra ver a elefanta?”, eu pensava, enquanto as horas passavam no carro. Depois, uma mensagem no WhatsApp anunciava que Ramba já estava na estrada de chão, no caminho para o Santuário.

Cinegrafistas e jornalistas se agrupam para a chegada de Ramba (Foto: Camilla Zeni/ O Livre)

Desse ponto à chegada de Ramba se passou mais uma hora. No fim, acho que dona Renata, uma idosa simpática da comunidade, tinha razão. “Parece que o caminhão está vindo a 30 km por hora”, ela comentou com outra moradora.

Mas a chuva parou e mal havíamos nos posicionado quando o comboio de Ramba apontou na estrada. Concentrada na elefanta, foi um espanto olhar à minha volta. “De onde saíram essas pessoas?”, perguntei ao Ednilson, nosso fotógrafo. Eram mais de 70 pessoas em volta do caminhão com Ramba, quando ele parou.

A elefanta estava em uma caixa de aço que foi projetada pelo Santuário e adaptada especialmente para ela. Apesar das grades, quase não foi possível vê-la. Às 17h40 já não havia sol. E o amigo de Rafael tinha razão. Ela era bem cinza.

Scott, o presidente do SEB, chegou a desacorrentar a caixa. Deu um alimento a ela, mas a elefanta não colocou a tromba para fora. Ainda assim, se engana quem acha que não valeu a pena. A criançada ficou toda animada.

Durante a pausa no trajeto, que ainda tinha mais uns quilômetros pela frente, os jornalistas gravavam as cenas para exibir na TV e eu fui conversar com o Daniel.

Motorista, ele foi um dos responsáveis pelo transporte de Ramba. Desde Campinas ele revezou os mais de 1,6 mil quilômetros com outro motorista. Segundo ele, a viagem foi tranquila. Algumas paradas foram feitas em postos de combustíveis para Ramba comer, e a escolta da Polícia Rodoviária Federal ajudou no caminho. Foi o primeiro elefante que ele transportou, me disse.

Presidente do Santuário de Elefantes, Scott Blaiss (Foto: Ednilson Aguiar/O Livre)

Três  cuidadores chilenos também acompanhavam a cena de longe. Me aproximei e soube que haviam chegado nesse mesmo dia. Eles vão ficar até o dia 24 de outubro. Médicos veterinários, o trio vai ser o “rosto amigo” de Ramba até que ela se acostume no novo lar. Isso porque eram eles os responsáveis pela elefanta no parque do Chile.

Ao todo a parada durou menos de meia hora. Mas para Scott parecia uma eternidade, já que ele estava muito agitado. O presidente pediu desculpas por não poder dar muita atenção, mas disse que a missão ali era levar Ramba para a nova casa.

Scott, que já acompanhou o resgate de 35 elefantes, garantiu que o traslado de Ramba foi a missão mais cansativa e trabalhosa em que já esteve. Segundo ele, Ramba estava cansada e igualmente agitada.

Assim, por volta das 18h10, Ramba deixou a comunidade de Rio da Casca para, enfim, chegar em casa.

Veja as primeiras imagens de Ramba no santuário:

Outras fotos da viagem:

 

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